08/04/2023
Nos “fins de abril, era cada rancho de mondadeiras”! Havia muita alegria!... Só se ouvia cantar.... por esses cabeços os pastores cantavam. As moças que iam à fonte...as mondadeiras que andavam a mondar o trigo... cantavam, cantavam...“
Valentina dos Prazeres Gabriel, nascida em 1937 em Martim Tirado, entrevistada por Nuno Gomes em 2013.
“Eu só fiz a terceira classe eu não gostava de escola… fiz a 3ª classe, mas há pessoas que têm a 4ª e a 5ª e sabem ainda menos do que eu. Eu era muito ruim na matemática, mas a professora batia-me. Era uma coisa sem dó. Era muito má… Eu a fazer as cópias, fazer um ditado, ou a fazer uma redação, explicar a lição, eu não tinha problemas com isso, mas quando chegava para fazer as contas, isso, Deus me livre!, eu não sabia, e ela batia-me para ali sem destino! Batia-me com uma vara e com uma palma grossa, com uns buracos, que eu às vezes ao meio-dia queria almoçar, e tinha de pôr assim as mãos ao alto, a apanhar fresco, que tinha tanto calor nas mãos que não podia sequer ao menos comer... Batia sem dó às que sabiam pouco como eu. A algumas chegava a levantar as saiínhas e batia-lhe no rabo com aquela régua. Era horrível… Quando sonho que ando na escola estou sempre aflita, nunca quero... E ainda sonho muitas vezes que ando na escola!...
Depois fui para a agricultura trabalhar no campo, mas a vida era muito escassa, muito ruim, havia pouca coisa, havia pouco que comer, havia pouco que vestir, as famílias eram muito numerosas, éramos muitos irmãos, 9 ou 10 irmãos. Depois, fui um ano para a Quinta da Matança à jeira, mas também as jeiras eram eram a 8 escudos, não dava quase para comer… Dormíamos lá numas palhitas, em cima de uma tarimba de madeira, com umas palhas por baixo, e uma mantinha que levávamos por cima. O que era aquilo? Era uma miséria! Era algum mês que andávamos lá, um mês a apanhar azeitona. Eles tinham boas lenhas, mas era para os ricos, para os donos da quinta, porque nós tínhamos de apanhar pauzinhos fora da quinta para fazermos o comer numa panelinha de ferro, fora de casa, ali, fazíamos uma fogueira… E assim, depois fui crescendo, ia às vezes à jeira à segada, de manhã, ao ser de dia, a gente saía de casa e ía para lá, não almoçava, só almoçava lá no campo. Os donos do cereal levavam a comida e a gente almoçava lá, jantava e lanchava e andava lá até ao pôr-do-sol... Trabalhar para ganhar quase nada. Outras vezes era à torna... ia-se para uma pessoa, para depois ela vir para os meus pais, era a chamada se torna-jeira... O meu pai - tínhamos um prédio chamado o Castelo do Ferronho, que era aquele castelo que antigamente era habitado pelos mouros e ainda lá há telhas, ainda há lá pedras do castelo dos mouros... - plantou lá muita amendoeira, ninguém tinha lá tanta amêndoa com o meu pai, mas não era rico, coitado, era pobre… Chegou lá a colher cem sacos de amêndoa, que nessa altura estava bom dinheiro. E depois trazíamos aquela amêndoa para casa nos machos e punha-se em casa a secar. A nossa casa era pequena, como todas… Havia cá muitas moças e muitos moços, havia muita mocidade, e eles gostavam muito de ir, porque o meu pai depois deixava-os dançar lá em casa. Isto na altura de partir a amêndoa. Estavam lá até aí às 11 horas, a partir a amêndoa. Depois a minha mãe dava-lhes um lanche, davas-lhe de comer. Eles no fim varriam aquelas cascas todas ali para um canto e dançavam ali até de manhã! E elas, só por dançar, e por comer alguma coisinha, uns figos passados e umas sardinhas, assim umas coisas, só por isso juntavam-se lá, às vezes até nem cabiam lá em casa, tinham de estar ali fora à espera para depois dançar, pois nem cabiam lá para partir a amêndoa!
Naquela altura não era brincadeira, era miséria, agora é crise, mas a crise eu conheci-a foi nesse tempo… Era muita fome! Mas não havia roubos. Era quando mandava Salazar, não se constava assim roubos, ficávamos nos prédios, às vezes dormíamos lá, andávamos à amêndoa, e ninguém tinha medo que viessem os ladrões, ninguém falava em ladrões. Havia miséria, mas muita alegria. Eu agora não sei cantar, desde que morreu a minha mãe nunca mais voltei a cantar, não sei cantar, nem pensar!…
Festa, não havia como agora, mas juntavam-se para dançar no Carnaval e na Páscoa. Depois casei, continuámos a trabalhar no campo, o meu homem muitas vezes guardou ovelhas, guardou cabras, e foi uma vida que, para criar os filhos, custou muito. Tive dois filhos, um filho uma filha. Eram ainda eles pequenos, ele [o pai] foi para Alemanha. Primeiro foi para França, mas a vida lá correu muito mal, trabalhava numa pedreira funda, deitavam lá fogo e eles tinham de f**ar lá atrás de umas pedras à espera que viesse uma pedra matar algum! Sofreu lá muito, mas depois na Alemanha já correu melhor e eu fiquei com os filhos pequeninos e cá os criei.... ele por lá e cá vinha de vez em quando. Foi assim a vida, pouco bonita, mas essa vida passou e agora agora são os netos, uma alegria com eles! e já temos um bisneto que também já é grandinho... E foi assim a minha vida, não sei assim grandes coisas...
A minha mãe plantava muito linho… Amassava-se o linho, espadava-se no cortiço com uma espadela e depois era fiado e depois disso ia aos teares, faziam-se os sacos para a gente meter o cereal, o pão que se colhia, porque não havia outros sacos. Também plantávamos o cânhamo que me fazia muito mal, íamos arrancar o cânhamo da horta do meu pai ali para a Ribeira do Freixo, para onde é a barragem. E arranjava-se-me uma dor de cabeça! O linho crescia à beira da casa, o cânhamo tinha de ser nas hortas, pois tinha de ser regado. E milho também havia… Antigamente, o tempo era mais fresco, parece que chovia mais, e também semeavam nas terras por aqui o milho, mas agora f**a logo seco, tem de ser nas hortas, onde seja regado. Ou porque fizeram muitos furos, ou porque cresceram muitos montes, agora não há água como antigamente… Às vezes o meu homem apanhou lobo, lobos que lhe apanhavam as ovelhas… Eu fazia queijo, tanto de casada, como de solteira, às vezes eram uns 4 ou 5 por dia, conforme o leite que as cabras davam, a ovelha dava pouco. Mas as minhas mãos são muito quentes, estragavam logo o coalhado, a minha filha ainda é pior! Mas a minha nora, essa não, essa tem as mãos frias, faz um queijo que se pode ver!
Na altura da segada andávamos para aí um mês, ou 3 semanas, trabalhávamos do nascer do sol ao pôr-do-sol, às vezes era de noite ainda estávamos lá a juntar os molhos no rolheiro, e depois é que ia para casa e só depois é que comia. Quando chegava a deitar-me era mais de meia-noite e de manhã cedo, ao romper do dia, tínhamos de nos levantar para voltar para ceifar. Era muito trabalho, dormir pouco e comer mal. Ficava a minha mãe a fazer a merenda e depois ia lá levar-nos… De manhã era o almoço, depois era o jantar, depois a merenda é o jantar era a seia…
O que eu gostava mais era de ceifar. Namorar eu não gostava, namorei pouco tempo, casámos logo...
O dinheiro... ia-se vender uma carrada de lenha, que valesse 12 escudos, ia-se comprar o sal e o petróleo, e já não se podia ir mais adiante... eu vendia os queijos, ia-os a vender à estação de Freixo, estava lá um senhor que os comprava, pagava a 8 escudos o quilo, eu trazia o sal, trazia o petróleo e trazia o sabão, às vezes ainda f**ava lá a dever dinheiro, foi uma miséria! Agora esses novos dizem que estão na miséria, se eles tivessem nesse tempo, o que é que eles diriam!
O sabão também fazíamos cá, mas era preciso termos azeite ou manteiga para o fazer e às vezes não havia… Manteiga só havia quando se matavam os porcos. Era a gordura do porco, usada para fazer torradas.O meu pai também tinha muitas colmeias!
O meu pai tinha um moinho... eu cheguei a ajudar, teria uns 13 ou 14 anos... Comecei muito nova a trabalhar!”
https://arquivodememoria.pt/pessoas_entrevista.aspx?lang=PO&taM=0&ide=126&ida=122
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