Arquivo de Memória

Arquivo de Memória O Arquivo de Memória é um projeto intergeracional, disponível em arquivodememoria.pt Estamos agora numa fase de disseminação e expansão do projeto.

Acreditamos que o conhecimento gera qualidade de vida, temos como objetivos essenciais promover a intergeracionalidade, dignif**ar as memórias dos mais velhos, disponibilizar a informação que gravamos e registamos e sensibilizar as comunidades locais para a importância da sua História e do Património Cultural. Começámos no terreno em Setembro de 2010, em Vila Nova de Foz Coa, ao abrigo do Programa

de Desenvolvimento Humano da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 2011 a ACOA assinou um protocolo com a UNESCO de forma a criar o Clube Unesco Entre Gerações. Esta página foi criada a pensar em todos aqueles que gostariam de ver aquilo que fazemos, mas também naqueles que têm algo para nos dar. Estamos à espera do seu contributo para enriquecer o Arquivo. Em conjunto fazemos a História!

A pedido da Comissão Nacional da UNESCO, divulgamos webinar que se realiza amanhã: "Para assinalar o 20º aniversário da ...
10/12/2023

A pedido da Comissão Nacional da UNESCO, divulgamos webinar que se realiza amanhã:
"Para assinalar o 20º aniversário da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (2003 – 2023) a Comissão Nacional da UNESCO organiza, com o apoio da Cátedra UNESCO “Património, Cidades e Paisagens. Gestão sustentável, Conservação, Planeamento e Projeto” da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, um ciclo de webinares sobre património cultural imaterial.
O webinar dedicado ao tema Salvaguarda e Recriação, decorrerá no dia 11 de dezembro, das 11h00 às 13h30, com entrada livre sujeita à capacidade da plataforma.
Link aqui: 👇
https://videoconf-colibri.zoom.us/j/92657419058?pwd=cHJkRDRpOUErdE5iRUsyQ094OTdDdz09

O Boletim do ICOM Portugal, edição que convidamos todos a consultar, integra um texto sobre o projeto Arquivo de Memória...
09/09/2023

O Boletim do ICOM Portugal, edição que convidamos todos a consultar, integra um texto sobre o projeto Arquivo de Memória.
Pode ler e descarregar no link em baixo, a partir da página 122. Muito gratos ao ICOM!

O último número do Boletim ICOM Portugal, intitulado Museus, Sustentabilidade e Bem-Estar, apresenta reflexões que partem do tema dedicado ao Dia Internacional de Museus de 2023, constituído por autores que construíram este semestre de trabalho connosco, através de encontros, seminários e outras tantas formas de participação, pelas quais agradecemos a todos os autores a dedicação e colaboração.

O Boletim ICOM Portugal (Série III, nº 20, julho 2023) reune autores nacionais e internacionais que propõem discussões diversas sobre organização e planeamento de estruturas museológicas, apresentam experiências e outros.

Não deixe de atentar-se aos convites à participação, esperamos por todas as pessoas a integrar os próximos números.

Para leitura e download:
https://icom-portugal.org/2023/08/21/boletim-icom-portugal-serie-iii-no-20-julho-2023/

Está já disponível a coleção “Memórias da Ilha Terceira”! As entrevistas e fotografias que a compõem inscreveram finalme...
05/08/2023

Está já disponível a coleção “Memórias da Ilha Terceira”! As entrevistas e fotografias que a compõem inscreveram finalmente no mapa do Arquivo de Memória o Arquipélago dos Açores.
Pode ser consultada aqui: https://arquivodememoria.pt/colecoes.aspx?lang=PO&taM=0&idcat=1079
Este projeto foi iniciado em 2021, numa parceria com várias entidades locais e o fundamental apoio do Governo Regional dos Açores.
Tema central desta coleção, que é simultaneamente um registo e um tributo: como se reerguem uma cidade e uma comunidade depois da devastação de um terramoto. As entrevistas foram conduzidas por dois arquitetos, Eduardo F. Rodrigues e Susana Mendes de Andrade. Outras entrevistas foram feitas e, assim que possível, irão juntar-se no website a estas primeiras 13 que abrem a coleção.

Para além do forte agradecimento a todos os entrevistados, deixamos também a nossa gratidão às instituições que direta ou indiretamente apoiaram o projeto:
Governo Regional dos Açores - Direção Regional dos Assuntos Culturais; Museu de Angra do Heroísmo; Núcleo de História Militar Manuel Coelho Baptista; Junta de Freguesia das Doze Ribeiras; Sociedade Filarmónica Rainha Santa Isabel (Doze Ribeiras); Grupo Folclórico das Doze Ribeiras; IAC - Instituto Açoriano de Cultura; Exército Português - Regimento de Guarnição Nº 1 (RG1) 1.º Batalhão de Infantaria; Câmara Municipal da Praia da Vitória; Junta de Freguesia da Serreta; Sociedade Filarmónica e Instrução Recreio dos Artistas; CRT - Comissão Representativa dos Trabalhadores da Base das Lajes; Observatório Meteorológico José Agostinho; Associação "Os Montanheiros".
A equipa do Arquivo de Memória 'Memórias da Terceira': Eduardo Franco Rodrigues e Susana Mendes de Andrade, que conceberam esta coleção e realizaram as entrevistas. Bárbara Carvalho que as indexou. Gestão a cargo de Alexandra Cerveira Lima, Carla Magalhães, Jorge Davide Sampaio. Apoio, no encerramento do projeto, de Maria Sottomayor e Paulo Dordio Gomes. E, claro, a colaboração imprescindível de sempre da Sistemas do Futuro!

Memórias do 1º de maio: "O primeiro 1º de maio a seguir ao 25 de abril [de 1974] é a grande festa do país. A Avenida da ...
01/05/2023

Memórias do 1º de maio: "O primeiro 1º de maio a seguir ao 25 de abril [de 1974] é a grande festa do país. A Avenida da Liberdade no Porto estava razinha de gente, cheiinha. Digamos que o 25 de abril é comemorado no 1º de maio, porque o 1º de maio era também proibido comemorar."
Renato Morais Lopes, nascido em 1956 em Carrazeda de Anciães, Lavandeira, entrevistado em 2016 por António Luís Pereira
Francelina Adelaide Nunes dos Santos, nascida em Vila Nova de Gaia, em 1935, entrevistada em 2015 por João Santos, recorda: "o 1º de maio [de 1974] é que foi um 'rebenta a bomba', veio tudo para a rua, pobres e ricos, ricos e pobres nos Aliados, no Porto.”
https://arquivodememoria.pt/pessoas_entrevista.aspx?ide=2707&ida=3369&idan=13679&lang=PO&taM=0

https://arquivodememoria.pt/pessoas_entrevista.aspx?ide=2691&ida=3349&idan=13461&lang=PO&taM=0


O Arquivo de Memória vai crescendo e somam-se mais entrevistas ao tema de hoje: 25 de abril de 1974.https://arquivodemem...
25/04/2023

O Arquivo de Memória vai crescendo e somam-se mais entrevistas ao tema de hoje: 25 de abril de 1974.
https://arquivodememoria.pt/temas.aspx?idi=36&taM=0&lang=PO
Oportunidade de descobrir histórias reais sobre o 25 de abril, em Vila Nova de Foz Coa, Freixo de Numão, Carrazeda de Ansiães, Matosinhos...

Nos “fins de abril, era cada rancho de mondadeiras”! Havia muita alegria!... Só se ouvia cantar.... por esses cabeços os...
08/04/2023

Nos “fins de abril, era cada rancho de mondadeiras”! Havia muita alegria!... Só se ouvia cantar.... por esses cabeços os pastores cantavam. As moças que iam à fonte...as mondadeiras que andavam a mondar o trigo... cantavam, cantavam...“
Valentina dos Prazeres Gabriel, nascida em 1937 em Martim Tirado, entrevistada por Nuno Gomes em 2013.

“Eu só fiz a terceira classe eu não gostava de escola… fiz a 3ª classe, mas há pessoas que têm a 4ª e a 5ª e sabem ainda menos do que eu. Eu era muito ruim na matemática, mas a professora batia-me. Era uma coisa sem dó. Era muito má… Eu a fazer as cópias, fazer um ditado, ou a fazer uma redação, explicar a lição, eu não tinha problemas com isso, mas quando chegava para fazer as contas, isso, Deus me livre!, eu não sabia, e ela batia-me para ali sem destino! Batia-me com uma vara e com uma palma grossa, com uns buracos, que eu às vezes ao meio-dia queria almoçar, e tinha de pôr assim as mãos ao alto, a apanhar fresco, que tinha tanto calor nas mãos que não podia sequer ao menos comer... Batia sem dó às que sabiam pouco como eu. A algumas chegava a levantar as saiínhas e batia-lhe no rabo com aquela régua. Era horrível… Quando sonho que ando na escola estou sempre aflita, nunca quero... E ainda sonho muitas vezes que ando na escola!...
Depois fui para a agricultura trabalhar no campo, mas a vida era muito escassa, muito ruim, havia pouca coisa, havia pouco que comer, havia pouco que vestir, as famílias eram muito numerosas, éramos muitos irmãos, 9 ou 10 irmãos. Depois, fui um ano para a Quinta da Matança à jeira, mas também as jeiras eram eram a 8 escudos, não dava quase para comer… Dormíamos lá numas palhitas, em cima de uma tarimba de madeira, com umas palhas por baixo, e uma mantinha que levávamos por cima. O que era aquilo? Era uma miséria! Era algum mês que andávamos lá, um mês a apanhar azeitona. Eles tinham boas lenhas, mas era para os ricos, para os donos da quinta, porque nós tínhamos de apanhar pauzinhos fora da quinta para fazermos o comer numa panelinha de ferro, fora de casa, ali, fazíamos uma fogueira… E assim, depois fui crescendo, ia às vezes à jeira à segada, de manhã, ao ser de dia, a gente saía de casa e ía para lá, não almoçava, só almoçava lá no campo. Os donos do cereal levavam a comida e a gente almoçava lá, jantava e lanchava e andava lá até ao pôr-do-sol... Trabalhar para ganhar quase nada. Outras vezes era à torna... ia-se para uma pessoa, para depois ela vir para os meus pais, era a chamada se torna-jeira... O meu pai - tínhamos um prédio chamado o Castelo do Ferronho, que era aquele castelo que antigamente era habitado pelos mouros e ainda lá há telhas, ainda há lá pedras do castelo dos mouros... - plantou lá muita amendoeira, ninguém tinha lá tanta amêndoa com o meu pai, mas não era rico, coitado, era pobre… Chegou lá a colher cem sacos de amêndoa, que nessa altura estava bom dinheiro. E depois trazíamos aquela amêndoa para casa nos machos e punha-se em casa a secar. A nossa casa era pequena, como todas… Havia cá muitas moças e muitos moços, havia muita mocidade, e eles gostavam muito de ir, porque o meu pai depois deixava-os dançar lá em casa. Isto na altura de partir a amêndoa. Estavam lá até aí às 11 horas, a partir a amêndoa. Depois a minha mãe dava-lhes um lanche, davas-lhe de comer. Eles no fim varriam aquelas cascas todas ali para um canto e dançavam ali até de manhã! E elas, só por dançar, e por comer alguma coisinha, uns figos passados e umas sardinhas, assim umas coisas, só por isso juntavam-se lá, às vezes até nem cabiam lá em casa, tinham de estar ali fora à espera para depois dançar, pois nem cabiam lá para partir a amêndoa!

Naquela altura não era brincadeira, era miséria, agora é crise, mas a crise eu conheci-a foi nesse tempo… Era muita fome! Mas não havia roubos. Era quando mandava Salazar, não se constava assim roubos, ficávamos nos prédios, às vezes dormíamos lá, andávamos à amêndoa, e ninguém tinha medo que viessem os ladrões, ninguém falava em ladrões. Havia miséria, mas muita alegria. Eu agora não sei cantar, desde que morreu a minha mãe nunca mais voltei a cantar, não sei cantar, nem pensar!…
Festa, não havia como agora, mas juntavam-se para dançar no Carnaval e na Páscoa. Depois casei, continuámos a trabalhar no campo, o meu homem muitas vezes guardou ovelhas, guardou cabras, e foi uma vida que, para criar os filhos, custou muito. Tive dois filhos, um filho uma filha. Eram ainda eles pequenos, ele [o pai] foi para Alemanha. Primeiro foi para França, mas a vida lá correu muito mal, trabalhava numa pedreira funda, deitavam lá fogo e eles tinham de f**ar lá atrás de umas pedras à espera que viesse uma pedra matar algum! Sofreu lá muito, mas depois na Alemanha já correu melhor e eu fiquei com os filhos pequeninos e cá os criei.... ele por lá e cá vinha de vez em quando. Foi assim a vida, pouco bonita, mas essa vida passou e agora agora são os netos, uma alegria com eles! e já temos um bisneto que também já é grandinho... E foi assim a minha vida, não sei assim grandes coisas...
A minha mãe plantava muito linho… Amassava-se o linho, espadava-se no cortiço com uma espadela e depois era fiado e depois disso ia aos teares, faziam-se os sacos para a gente meter o cereal, o pão que se colhia, porque não havia outros sacos. Também plantávamos o cânhamo que me fazia muito mal, íamos arrancar o cânhamo da horta do meu pai ali para a Ribeira do Freixo, para onde é a barragem. E arranjava-se-me uma dor de cabeça! O linho crescia à beira da casa, o cânhamo tinha de ser nas hortas, pois tinha de ser regado. E milho também havia… Antigamente, o tempo era mais fresco, parece que chovia mais, e também semeavam nas terras por aqui o milho, mas agora f**a logo seco, tem de ser nas hortas, onde seja regado. Ou porque fizeram muitos furos, ou porque cresceram muitos montes, agora não há água como antigamente… Às vezes o meu homem apanhou lobo, lobos que lhe apanhavam as ovelhas… Eu fazia queijo, tanto de casada, como de solteira, às vezes eram uns 4 ou 5 por dia, conforme o leite que as cabras davam, a ovelha dava pouco. Mas as minhas mãos são muito quentes, estragavam logo o coalhado, a minha filha ainda é pior! Mas a minha nora, essa não, essa tem as mãos frias, faz um queijo que se pode ver!
Na altura da segada andávamos para aí um mês, ou 3 semanas, trabalhávamos do nascer do sol ao pôr-do-sol, às vezes era de noite ainda estávamos lá a juntar os molhos no rolheiro, e depois é que ia para casa e só depois é que comia. Quando chegava a deitar-me era mais de meia-noite e de manhã cedo, ao romper do dia, tínhamos de nos levantar para voltar para ceifar. Era muito trabalho, dormir pouco e comer mal. Ficava a minha mãe a fazer a merenda e depois ia lá levar-nos… De manhã era o almoço, depois era o jantar, depois a merenda é o jantar era a seia…
O que eu gostava mais era de ceifar. Namorar eu não gostava, namorei pouco tempo, casámos logo...
O dinheiro... ia-se vender uma carrada de lenha, que valesse 12 escudos, ia-se comprar o sal e o petróleo, e já não se podia ir mais adiante... eu vendia os queijos, ia-os a vender à estação de Freixo, estava lá um senhor que os comprava, pagava a 8 escudos o quilo, eu trazia o sal, trazia o petróleo e trazia o sabão, às vezes ainda f**ava lá a dever dinheiro, foi uma miséria! Agora esses novos dizem que estão na miséria, se eles tivessem nesse tempo, o que é que eles diriam!
O sabão também fazíamos cá, mas era preciso termos azeite ou manteiga para o fazer e às vezes não havia… Manteiga só havia quando se matavam os porcos. Era a gordura do porco, usada para fazer torradas.O meu pai também tinha muitas colmeias!
O meu pai tinha um moinho... eu cheguei a ajudar, teria uns 13 ou 14 anos... Comecei muito nova a trabalhar!”

https://arquivodememoria.pt/pessoas_entrevista.aspx?lang=PO&taM=0&ide=126&ida=122

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No Palácio da Ajuda, há 6 dias, nas Jornadas da Primavera do ICOM. Um gosto e uma honra assistir a interessantes comunic...
02/04/2023

No Palácio da Ajuda, há 6 dias, nas Jornadas da Primavera do ICOM. Um gosto e uma honra assistir a interessantes comunicações e podermos apresentar o projeto Arquivo de Memória. Muito gratos ICOM Portugal!

O Arquivo de Memória estará presente nas Jornadas de Primavera, a convite da Direção do ICOM - International Coucil of M...
26/03/2023

O Arquivo de Memória estará presente nas Jornadas de Primavera, a convite da Direção do ICOM - International Coucil of Museums - Portugal.
Muito honrados e gratos participaremos amanhã!
Palácio Nacional da Ajuda, 27/03, 10h-13h.

O Arquivo de Memória participou, através de Alexandra Cerveira Lima, numa comunicação on-line, no 1º Encontro Transfront...
26/02/2023

O Arquivo de Memória participou, através de Alexandra Cerveira Lima, numa comunicação on-line, no 1º Encontro Transfronteiriço de Cidadania Ativa para os Valores da UNESCO, que decorreu em Estremoz no passado dia 10 de fevereiro. Integrou o painel "Boas Práticas Ibéricas na Rede de Clubes UNESCO."
Agradecemos o convite à Federação Portuguesa de Associações e Clubes para a UNESCO!

Hoje evocamos Maria José Cavacas, do Orgal. Entrevistada em 2011 com o marido, Américo Monteiro, por Inês Melhorado e Ma...
12/02/2023

Hoje evocamos Maria José Cavacas, do Orgal. Entrevistada em 2011 com o marido, Américo Monteiro, por Inês Melhorado e Maria Sottomayor. Entrevista mesclada de simpatia e relatos de coragem.
Pelas palavras do marido na entrevista “era a moça mais bonita do Orgal e muito inteligente!” Namoraram 6 anos. Na tropa, onde esteve 16 meses, escrevia-lhe “todos os dias recebia uma carta minha.” À vinda da tropa, casaram-se, a 5 de maio, “foi no tempo da segada”. O pai, pelo casamento, deu 20 fanegas de pão e o pai do marido 20 fanegas também para “irmos vivendo”. Ficaram a trabalhar no verão, uma semana para o pai, outra semana para o pai do marido. No casamento Maria José Cavacas usou um “vestidinho.... comprámos o tecido e mandei fazer a uma costureira. Era castanho, não era branco, ainda se não usava. Também ia bonita, não era como agora as noivas, mas não era só eu!, todas ias assim.” “Se ia bonita!!” comentou o marido Américo Monteiro. Na cabeça levava “um véu. Não se usava o cabelo cortado, eu tinha o cabelo muito forte.” “É verdade” refere o marido, “o cabelo chegava-lhe mesmo aos calcanhares”. “O véu era preto”, prossegue Maria José Cavacas “não havia cerimónia... a roupinha era toda nova, a estrear, mas era em castanho, em cinzento, era conforme gostavam de ir”...”A costureira é que mo fez lá em Foz Coa.” Juntaram 81 pessoas no dia do casamento “foi muita despesa, mas nós todos vaidosos... A mocidade foi toda, que nessa altura havia muita...“ “Comprava-se uma ovelha, por exemplo, e depois as pessoas cá cozinhavam, faziam sopa, cebolas de azeite, coscoréis, biscoitos, para sobremesa, pão de ló....Depois havia baile até às tantas... Fazíamos o baile numa casa qualquer.” Havia no Orgal “quatro tocadores de guitarra e bandolim, mas tínhamos um tocador de guitarra que era mesmo profissional, morreu no Brasil...” Era “primo carnal” de Maria José Cavacas. “Se ouvisse uma grafonola a tocar, ele tocava logo tudo ... de ouvido.”
Resolvemos ir para junto do pai para a Quinta do Fariseu, contou Américo Monteiro “que era dos Africanos de Foz Coa”. Aquele forno que está lá [no Fariseu] fui eu que o fiz, eu e o meu irmão”. Para ir para o Fariseu “passávamos no Coa, com os machos... De uma vez... foi a primeira vez que eu caí na Coa... o meu filho Delfim... Caí com ele, ia a atravessar o Coa com ele na frente com o braço esquerdo, a Coa ia muito grande, o macho escorrega e cai por cima, eu caio por baixo, com o rapaz agarrado no braço. Fui para aí 100 metros com ele agarrado no braço e nunca o deixei escapar. Tinha mais força do que tenho hoje”... “Quando saí para fora pus a rapaz de pino que botou uns litros de água da boca para fora... Mas escapou!”... “Um dia vinha trazer uma carga de lenha para o meu filho e para a minha sogra.” Ao passar o Coa “o macho escorrega no mesmo sítio e foi de inverno. Em janeiro.... Eu, para salvar o macho, deitei-me do macho para baixo... a lenha fazia parede na água e o macho não conseguia levantar-se... O macho passava por cima de mim, eu passava por cima do macho, já não nos safávamos.” A minha mulher “tão pequenina, estava na parte de lá... com os 3 filhos pequeninos”... O mais velho “ficou a tomar conta” dos gémeos mais novos e “eu meti-me pela água” contou Maria José Cavacas. “Desceu por ali abaixo, de inverno”, prossegue o marido, entrou “na água até ao pescoço” e foi para junto do marido. “Assim que a vi ao pé de mim, ainda fiquei mais assombrado. Já andava assombrado com o macho, a lutar, então agora vou salvar o macho, ainda te vou salvar a ti?” “Não te apoquentes”, respondeu Maria José Cavacas, “havemos de sair todos, por Deus”. “O macho tinha a rédea muito comprida, ela deitou as mãos às redeas do macho. Na água movimenta-se um peso muito grande... Ela a puxar para fora e eu a dar um jeito ao macho... saímos todos. É verdade”. Conta Maria José Cavaca: “Porque ele sozinho já não se defendia. O macho afocinhava... já estava cansado e deixava ir a cabeça para baixo. Eu enchi-me de coragem, pedi a Deus que me ajudasse, disse ‘ajudai-me meu Deus, que eu fico aqui sem o macho e sem o homem e fico com três filhos nos braços’!. Tinha dito para o mais velho “Ficas aqui com os teus irmãos, filho, no arieiro da Ribeira... E eu, com as meias de algodão, meti-me na água, não escorregava nem que apanhasse um bocadinho de limo nas pedras, não escorregava com o algodão... ‘Aguenta com a rédea do macho que eu depois já me agarro à rédea’, disse,’a ver se o salvamos e a nós’... O macho estava cansado e nós cansados estávamos. Mas cheguei ao pé do focinho do macho e levantei-o assim com as mãos para cima, e ele ... respirou ar puro, ganhou coragem, eu também! Depois ele [o meu marido], e salvámo-nos todos.”
“A partir daí voltámos para a casa outra vez, para a quinta” contou Américo Monteiro... “um dia acendi o lume para um caldo de nabiças para os machos... o telhado era de palha, só tinha umas telhas no lugar da cozinha... quando olho para cima já vi a palha toda a arder. Salto para cima do telhado e caí para baixo, para o fogo, ardeu a camisa toda, só ficou o colarinho... Tínhamos a comida comprada para os segadores, mas ardeu tudo... feijão, massa, batatas... lá ficou tudo”. Ainda lá estiveram dois anos, mas Maria José Cavaca disse na altura “vamos embora para o Orgal, aqui não estamos bem! E lá viemos para o Orgal.”
Maria José explica “Quando o meu marido vinha a Foz Coa... bailavam as estrelas e eu com os 3 filhos nos braços, sozinha no ermo...Naquela altura a gente tinha muito medo...Por isso depois viemos para aqui, para esta casa no Orgal.”
O marido foi trabalhar para as pedreiras, trabalhou 20 anos, f**ando lá a semana inteira, e ainda emigrou, com 31 anos, para França.
Conclui Américo Monteiro, que canta no final da entrevista: [a minha mulher] "também cantava bem, cantava muito bem. Andávamos dias inteiros a cantar ao desafio, quando andávamos a segar. A nossa vida foi uma vida muito boa! Com muito trabalho, mas sempre alegre. Comecávamos a segar de manhã, começávamos a cantar, ora um, ora outro, ao desafio... dias inteirinhos!"

https://arquivodememoria.pt/pessoas_entrevista.aspx?ide=88&ida=55&idan=1216&lang=PO&taM=0

Endereço

Museu Do Coa
Vila Nova De Fozcoa
5150-620

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