28/07/2026
O começo é sempre complicado, já dizia alguém com alguns cabelos brancos a mais do que eu. E cá estamos nós, neste, que é o nosso primeiro contato. Neste primeiro momento resolvi falar um pouco de como o meu encontro com o teatro, numa cidade pequena do interior do sul do brasil, reverberou na forma que vejo as coisas hoje.
É muito comum associarmos o teatro à capacidade de fingir, de mentir ou de chorar quando o encenador manda. A verdade? Sou péssima a mentir e choro por tudo e por nada.
O teatro ensinou-me muito mais sobre mim e sobre as infinitas formas de me relacionar com o outro do que, propriamente, a projetar a voz para a última fila.
Ensinou-me que tenho um corpo que merece cuidado, atenção e respeito. E que o corpo do outro também merece.
Mais do que decorar textos, aprendi a ouvir. O outro. A mim própria.
Lembro-me de esperar, na escola, por aquele encontro semanal com uma ansiedade boa.
Até hoje me recordo de um exercício em que tínhamos apenas de sentir os dedos dos pés dentro das meias. Ainda consigo lembrar-me da textura da lã, do frio dos invernos do Alto Vale e da sensação de descobrir o meu próprio corpo através de um jogo tão simples.
Cresci e hoje a minha vida continua a ser feita de sucessivas sessões de teatro.
Mas penso, muitas vezes, em quem cresceu e nunca mais voltou a ter aquela hora por semana.
Ainda assim, acredito que alguma semente ficou, nem que seja para formação de público.
É por essas e outras (que vou contando por aqui) que acredito que as artes performativas nas infâncias sejam tão urgentes quanto aprender a ler ou compreender o sistema solar.
Para mim o teatro é uma forma de caminharmos para uma educação mais afetiva, mais generosa e mais respeitadora.
E, sinceramente, não acredito que esta urgência seja apenas para as crianças.
Todas nós precisamos, de vez em quando, de um espaço onde possamos brincar, escutar, imaginar, errar e voltar a tentar.
Caminhamos juntas?
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Este texto foi escrito de forma híbrida (pt-pt/pt-br) e no género feminino.
Beijões miúdos ou beijinhos grandes, como dizem por aí.