02/07/2014
Quando fui contactado pelos alunos da Academia para os ajudar na preparação da Prova de Aptidão Profissional, fiquei feliz por um motivo aparentemente simples: eles tinham já escolhido o projecto – a peça “Arte” da autora francesa Yasmina Reza – e precisavam apenas de orientação.
A escolha desta peça por gente tão jovem, também me deu uma indicação precisa da vontade e do gosto de fazerem um projecto com profundidade e sem facilidades evidentes.
Três homens, com vidas bastante diferentes e trabalhos específicos – um estudante de engenharia aeronáutica, um estudante de dermatologia e um vendedor de material de escritório – defrontam-se a partir de uma situação quase banal: a visão de um quadro adquirido por um deles, numa galeria de arte, e que é apenas uma tela branca, cruzada por riscos brancos....
Os três amigos entram num jogo de flagelação à volta deste quadro branco invocando todos os argumentos que giram em torno da arte moderna e da arte contemporânea. O afrontamento irá muito além da própria questão da arte... E isso não deixará nenhum deles indemne. O tudo ou nada, a partir do aparente nada.
Como orientador deste trabalho, a minha principal preocupação, logo, o meu maior desafio é deixar fluir a capacidade criativa e o desejo de aprofundamento de um tema como este, escolhido por eles mesmos, permitindo que cada um, individualmente, reflicta os seus anseios e experiência de vida neste tema e neste projecto. Por isso, as idades dos interpretes/criadores não será um impedimento, mas antes uma possível – abordagem nova – de um texto que tem sido representado em todo o mundo.
Acredito que a única coisa nova que podemos trazer para o Teatro são as próprias pessoas que o fazem, para lá das idades, dos conhecimentos ou até mesmo da experiência que eventualmente tenham. O trabalho do encenador, dos actores, cenógrafo, iluminadores, sonoplastas, será o somatório daquele grupo específico que se junta, para redescobrirem a liberdade inigualável da criação.
Carlos Paulo
2014