12/02/2024
Leituras e exercícios de escrita em confinamento
à volta da poesia de Herberto Helder "A morte sem mestre"
Nunca estive a tão vertiginosa altura de dizer o teu nome. Comecei a tirá- lo com pinças como se fosse um nó de sangue na garganta
Eram tão fortes as suas letras que sobreviveram à língua morta dos que nunca foram carne da tua carne mas têm o teu apelido menos usado, o mais interno e mais intenso.
Penso nisso sem saber muito bem porque o faço tal como um leão atrás da porta do jardim ninguém sabe porque lá está. Alguém sabe?
Pois está lá em porcelana rasca pintado de verde comme il faut. E lá vai sobrevivendo como a tal língua já morta contrariando todas as evidências matemáticas escritas por extenso. Grandes putas soberbas que atazanam quem, como eu , é só sensível ao papel e esferográfica.
Se um dia páro, morro ou fecho -me inteiro num poema como o maluco do poeta que acabou morrendo sufocado de letras. Mas eu sinto que morro muito pouco por dia contrariando a chatice das horas lentas. Acontece que, por vezes, me apetece ser aquele rei sempre metido no quarto. Até se esqueceu de cultivar a família, a inocência sem nada lhe doer__nem mesmo a imagem do velho pai para lá escondido no deserto a tentar fintar a eternidade. Pudera, talvez um pouco de palha nova lhe fizesse bem .
Assim não vai longe, ainda por cima sem água para se lavar, botou- se à água num rio seco e apareceu num canavial, há não sei quantos anos, com folhas soltas, cadernos, livros, lápis, montões de rimas imperfeitas à espera da inspiração a gás . A última bilha do produto durou dois meses e três dias. Para mim isto não é nada. Dá perfeitamente para eu esperar a morte sem mestre enquanto escrevo teu nome com mestria dentro de um poema com a métrica desalinhada do Herberto Helder.
Ana margarida Borges
Junho 2020