09/09/2026
𝗔 𝗠𝗢𝗡𝗧𝗔𝗡𝗛𝗔 𝗣𝗔𝗥𝗜𝗨 𝗨𝗠 𝗥𝗔𝗧𝗢
Mesmo partindo de expectativas reduzidas, num primeiro momento, f**amos sem reacção às recomendações do grupo de trabalho, dito “independente” criado pela Câmara do Porto para repensar o modelo de gestão do centro histórico da cidade.
Foram apresentadas ontem ao executivo.
O resumo é, a longo prazo, defendem os especialistas, é preciso criar um Plano de Pormenor de Salvaguarda para o território classif**ado.
Cinco especialistas, durante dois meses debatem e chegam à conclusão que é preciso um plano que já devia ter sido criado há décadas.
Verdade La Palisse. Estamos siderados.
E, sobre os problemas que já não podem esperar, o resultado é zero.
Não há uma única proposta/ideia/recomendação para travar a destruição acelerada do comércio tradicional pela especulação imobiliária e um turismo predador.
Não há uma única proposta para os residentes, que continuam a ser espoliados da sua própria cidade — mais uma vez — pela mesma especulação.
E não há uma única proposta que trave a destruição crescente do património, que descaracteriza, de forma irremediável, a cidade que dizem querer proteger.
Por exemplo, umas recomendações para a ORU do Bonfim em consulta pública. Temos mais umas sugestões. Se fossemos ouvidos. Mas, não. Independentes verdadeiramente independentes não interessa ouvir.
𝟭. 𝗢 𝗿𝗲𝗺𝗲́𝗱𝗶𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝟮𝟬𝟮𝟵 (𝘁𝗮𝗿𝗱𝗲 𝗱𝗲𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗮 𝗿𝗲𝗮𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲)
A única medida que tocaria mesmo nestes três problemas — o Plano de Pormenor de Salvaguarda, com regras claras sobre o uso de cada imóvel classif**ado — f**a remetida para "a longo prazo", com horizonte em 2029. Três anos de espera enquanto o comércio fecha portas, os residentes saem e o património se perde. É o equivalente a receitar um curativo para daqui a uma década a quem está a sangrar hoje.
𝟮. 𝗠𝗮𝗶𝘀 𝗰𝗼𝗺𝗶𝘀𝘀𝗼̃𝗲𝘀, 𝗺𝗮𝗻𝘂𝗮𝗶𝘀 𝗲 𝗴𝗿𝘂𝗽𝗼𝘀 𝗱𝗲 𝘁𝗿𝗮𝗯𝗮𝗹𝗵𝗼 (𝗮 𝗯𝘂𝗿𝗼𝗰𝗿𝗮𝗰𝗶𝗮 𝗰𝗼𝗺𝗼 𝘀𝗼𝗹𝘂𝗰̧𝗮̃𝗼)
Em vez de medidas claras que ataquem o problema da perda galopante da cidade, o relatório esgota-se em recomendações genéricas, de cariz académico e administrativo: um "grupo permanente de acompanhamento" com reuniões semanais; uma "Comissão Consultiva de Acompanhamento"; manuais de boas práticas e plataformas digitais de apoio; a recomendação de que a Câmara "dê o exemplo" nos concursos públicos.
Mais uma camada de comissões, gabinetes e manuais. E nem isso vem com garantias: as próprias propostas carecem de um plano operacional e não há qualquer compromisso com calendários.
𝟯. 𝗢 𝗮́𝗹𝗶𝗯𝗶 𝗽𝗲𝗿𝗳𝗲𝗶𝘁𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗼 𝗲𝘅𝗲𝗰𝘂𝘁𝗶𝘃𝗼 𝗱𝗲 𝗣𝗲𝗱𝗿𝗼 𝗗𝘂𝗮𝗿𝘁𝗲
Na realidade, concluímos nós, sem expectativas mas sempre esperançosos que algo aconteça, a única razão da existência deste grupo: criar uma almofada para o Pedro Duarte!
É aqui que este tipo de grupo se revela verdadeiramente útil ao poder político. Perante a destruição de património, demolições ilegais (como a da Confeitaria Serrana) ou atropelos aos regulamentos e ao Património Mudial, o presidente da Câmara, sem ideias para a cidade, pode esticar os braços, chamar ao relatório "𝘂𝗺𝗮 𝗳𝗲𝗿𝗿𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮 𝗳𝗮𝗻𝘁𝗮́𝘀𝘁𝗶𝗰𝗮" e sacudir a água do capote: "já está a trabalhar no assunto", com base nas recomendações dos peritos. Simula-se acção e diálogo — e f**a tudo na mesma, empurrando as decisões difíceis para um futuro longínquo, enquanto comércio, residentes e património continuam a pagar a factura.
𝐂𝐡𝐚𝐦𝐞𝐦𝐨𝐬 𝐨𝐬 𝐛𝐨𝐢𝐬 𝐩𝐞𝐥𝐨 𝐧𝐨𝐦𝐞: 𝐞𝐬𝐭𝐞 𝐫𝐞𝐥𝐚𝐭𝐨́𝐫𝐢𝐨 𝐧𝐚̃𝐨 𝐭𝐫𝐚𝐳 𝐮𝐦𝐚 𝐮́𝐧𝐢𝐜𝐚 𝐢𝐝𝐞𝐢𝐚 𝐞𝐱𝐞𝐪𝐮𝐢́𝐯𝐞𝐥 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐭𝐫𝐚𝐯𝐚𝐫 𝐚 𝐜𝐫𝐢𝐬𝐞 𝐚𝐜𝐭𝐮𝐚𝐥. 𝐄́ 𝐚 𝐦𝐚𝐧𝐨𝐛𝐫𝐚 𝐝𝐞 𝐫𝐞𝐥𝐚𝐜̧𝐨̃𝐞𝐬 𝐩𝐮́𝐛𝐥𝐢𝐜𝐚𝐬 𝐝𝐚 𝐚𝐮𝐭𝐚𝐫𝐪𝐮𝐢𝐚, 𝐝𝐞𝐬𝐦𝐚𝐬𝐜𝐚𝐫𝐚𝐝𝐚.
A cidade não precisa de mais comissões de estudo para 2029. Precisa de acção já hoje — antes que não reste comércio, nem residentes, nem património para salvaguardar.
Assim, não vamos lá. Resta-nos o humor porque aqui não somos de lacrimejar.