15/06/2026
"O Impossível é Possível | Criatividade humana e inteligência artificial"
Quando, há mais de uma década, começámos a trabalhar com fotografia mobile, encontrámos frequentemente a mesma objeção que agora é convocada para negar a IA: o que era produzido por um telemóvel não podia ser considerado uma fotografia. O tempo mostrou que a questão não podia ser o dispositivo, mas a capacidade humana de olhar, interpretar e criar.
Hoje, perante a inteligência artificial, encontramos debates semelhantes. Entusiasmos, dúvidas, inquietações e resistências coexistem num território ainda em rápida transformação. Todas as mudanças tecnológicas trazem inquietação e dúvidas porque interferem com os nossos modos de funcionar que nos dão conforto. A questão agudiza-se quando afetam os modos de criação. O que pretendemos ao dar espaço à IA na programação das MIRA Galerias é contribuir para que em vez da atitude de negação se promova a observação, a experimentação, o debate, a partilha, a aprendizagem.
Uma chamada aberta
Através de uma open call internacional, recebemos trabalhos provenientes de diferentes partes do mundo. As imagens revelam uma grande diversidade de géneros, temas, linguagens visuais e abordagens conceptuais. Entre o real e o imaginado, entre a memória e a ficção, entre a representação e a invenção, estas obras mostram que a inteligência artificial não produz uma estética única: é um espaço onde se cruzam sensibilidades, culturas e imaginários distintos.
Artistas convidados
A mostra integra 3 artistas convidados que trabalham há anos com inteligência artificial, desenvolvendo percursos consistentes de pesquisa e criação. A sua presença acrescenta uma dimensão formativa ao projeto, permitindo acompanhar diferentes formas de utilização das novas ferramentas, compreender processos criativos e refletir sobre as possibilidades e os desafios que esta tecnologia coloca à arte contemporânea.
Diana Nicholette Jeon, Mário Moura e Carlos Garcia apresentam três projetos distintos onde estão presentes as competências técnicas subjacentes à criação mas, sobretudo, as suas conceções reflexivas críticas sobre o mundo, com recurso a um novo campo de experimentação artística. Queremos contribuir para o debate sobre um meio que pode ser uma ferramenta que potencie a imaginação, curiosidade, a capacidade de estabelecer relações inesperadas, o pensamento crítico ... A atenção crítica a perversões que acompanham sempre as produções humanas só pode ser desenvolvida se usarmos o meio em vez de o diabolizar.
Uma homenagem
Esta edição é dedicada a Carlos Garcia, um artista que depois de reformado decidiu viver em Portugal. O seu trabalho surpreendeu-nos de tal modo, que o apresentámos com todo o destaque na edição de 2025. Pouco tempo depois adoeceu e faleceu. O seu espírito esperançoso e crítico foi uma inspiração. O nosso sentido tributo! (Manuela Matos Monteiro)
Shortlist IA 2026
Alex Imas | Andreia Kris | Arlete Bonelli | Eduardo França | Francisco Mesquita | Giselle Hinterholz | Isabel Pinto | Isbela Mota | Jorge Pedra | José Fonseca | José P. Andrade | Luísa Azevedo | Manuela M. Ribeiro | Margarida Baptista | Mário Pires | Marta M. Santos | Mauricio Thomsen | Olimpia C. Branco | Raquel Lucas | Raquel Lamares | Sandra Irsevic | Sukru M. Omur
ARTISTAS CONVIDADOS
Mário Moura
O projeto «Outros Douros» usa a inteligência artificial (IA) generativa para criar imagens ficcionais da região do Douro. Em vez de recorrer aos estereótipos turísticos da região — como paisagens bucólicas e vinhas pitorescas — o projecto explora uma visão retrofuturista do Douro enquanto espaço periférico, marcado por pobreza e ruína, desenvolvendo uma «mitologia interdimensional» da região.
A proposta surge de uma necessidade pessoal de construir uma memória visual mais autêntica e satisfatória, que transcenda a representação típica da região. Para o autor, o Douro é também feito de urbanizações entre vinhas, tecnologia em decadência e contradições entre o tradicional e o moderno. As imagens geradas pela IA são, assim, ferramentas para desafiar os clichés.
https://www.facebook.com/mario.moura.503 design
Diana Nicholette Jeon
O trabalho de Diana Nicholette Jeon tem início em momentos de desilusão — quando as histórias que contamos a nós próprios sobre as nossas vidas já não conseguem explicar o que vivemos. Através da fotografia, de técnicas mistas e de processos pós-fotográficos, ela cria imagens impregnadas de melancolia que habitam o espaço entre a memória e a realidade, o anseio e a perda, a crença e a compreensão.
O seu trabalho já foi apresentado em mais de 200 exposições individuais e coletivas, bem como em exibições a nível internacional. As exposições individuais incluem o Museu de Arte de Honolulu, o Museu Griffin de Fotografia, a Galeria Blue Sky, o Festival de Fotografia Head On e a Galeria A Smith.
A Inteligência Artificial e a composição no Photoshop foram escolhas deliberadas. O projeto examina realidades fabricadas através de tecnologias concebidas para criar ficções convincentes. A natureza sintética destas ferramentas reflete a das narrativas que criticam. A IA e a composição no Photoshop não ilustram uma realidade falsa; elas personificam-na.
Não acredito que as imagens transmitam a verdade. Nem todas as imagens são construídas, como estas, mas todas as fotografias são enquadradas. O enquadramento carrega um ponto de vista, mesmo quando o criador acredita genuinamente estar a ser totalmente objetivo.
Os adultos permanecem em grande parte invisíveis, presentes principalmente através das crenças que transmitem. As crianças que coloco em primeiro plano habitam um mundo repleto dos medos, preconceitos e suposições dos seus pais; elas herdam medos, preconceitos, desinformação e «certezas» ideológicas que não escolheram e que são incapazes de contestar.
As imagens resultantes situam-se algures entre a sátira e a tragédia. Os adultos podem parecer absurdos, mas as consequências não o são. As crianças são sempre as vítimas.
A facilidade com que o enquadramento pode distorcer o que aceitamos como real é o que a estratégia política transforma em arma. Quando o pensamento crítico é quebrado, abre-se espaço para narrativas construídas por atores com as suas próprias agendas.
A vida em GQPubliKKKa tem as suas raízes na minha desilusão. Questiona o que acontece quando a ideologia se torna mais importante do que a realidade, quando a crença ultrapassa a evidência, quando as narrativas construídas se tornam mais convincentes do que os ideais americanos e o sentido de propósito comum que outrora uniram grande parte do país.
Os adultos criam a realidade alternativa. As crianças suportam-na.
Diana Nicholette Jeon | Juin 2026
https://www.facebook.com/diananicholettejeon
Carlos Garcia
Retomamos o projeto “NEW AMERIKA” de Carlos Garcia que foi o autor que apresentou o seu trabalho, quer em projeção quer impresso em grande formato, em 2025 nas paredes de MIRA Galerias | MIRA FORUM. Poucos meses depois faleceu devido a inesperada e fatal doença deixando em suspenso projetos que tínhamos desenhado em conjunto.
Carlos Garcia, que teve um longo percurso profissional ligado à imagem em geral e à fotografia em particular desenvolveu sempre um trabalho autoral. Aberto à inovação, encontrou na Inteligência Artificial mais um meio de se expressar criativamente, sendo a exposição que as MIRA Galerias apresentaram, um dos seus últimos trabalhos.
( English version in comments)Quando, há mais de uma década, come...