14/05/2026
Repescado sentimentos alheios e poemas (im)próprios...
AUSÊNCIAS
Pegou na caneta, numa folha em branco, sentou-se à secretária e repetiu o gesto: o mesmo gesto de todos os dias.
«Olá, meu amor!
Escrevo para te dizer que estou triste. Esta noite não dormi quase nada. Esta, como todas as outras.
Nos poucos momentos que dormitei, sonhei contigo. Connosco. Com um tempo feliz que se extinguiu: fora da minha memória. Com a curva do teu pescoço; o sorriso, aquoso, nos teus olhos; o mel, escorrendo, no arfar do teu desejo.
Acordei com uma erecção inútil: tão inútil como todas as outras, desde que partiste.
Recordas aquela foto, em que estamos num abraço gargalhante, como se o amor fosse invencível: como se nós fôssemos invencíveis? Queimei-a. Perdeu a cor com o sal das minhas lágrimas. Ou talvez a tenha sonhado, tudo seja um borrão de memórias inventadas. Desapareceste tu. Desapareci eu. Desapareceu tudo. Só restam sombras negras: na tua ausência, na minha vida.
Lembro esse dia fatídico como se fosse hoje. Agora. O som do baloiço, musicando a tua gargalhada. O sabor a maresia a emanar do teu corpo. A areia que parecia fazer parte de todos os recantos. Lembro-me que cantarolavas uma canção, depois, enquanto descansávamos o amor, lado a lado, a namorar as estrelas do céu.
Lembro o vento a despentear o teu cabelo. Ou talvez fosse eu, no auge da paixão. Às vezes, a memória atraiçoa-me. Esqueço que já não estás aqui. Dou comigo a perguntar o que queres para o pequeno-almoço e vejo-te lamber os lábios famintos, enquanto respondes: tu!
Ontem fiz torradas com compota de mirtilo. A tua preferida, lembras-te? E eu nem gosto de compota de mirtilo! Sobraram imensas, claro, porque as fiz a contar com o teu apetite; e com o meu; mas nenhum compareceu.
Enfim. Não te maço mais.
Hoje comprei um ramo de açucenas. Sei que as adoras e que te dão alergia - e alegria. Talvez te arranquem um sorriso. Ou, quem sabe, te tragam num espirro.
Até amanhã. Não me esqueças. O baloiço continua aqui: vazio, à tua espera – tal como eu.
Teu
Eu.
Meu
Tu.»
Levantou-se, dobrou a carta e meteu-a no bolso da lapela. Olhou pela janela, pegou no ramo de flores e saiu.
Dizem, as vozes do povo, que as cartas deixadas, todas as noites, no túmulo da mulher, aparecem abertas e molhadas, no amanhecer do dia seguinte. Se é chuva ou lágrimas, ninguém sabe esclarecer.
Lia Wolf
AUSÊNCIAS
Pegou na caneta, numa folha em branco, sentou-se à secretária e repetiu o gesto: o mesmo gesto de todos os dias.
«Olá, meu amor!
Escrevo para te dizer que estou triste. Esta noite não dormi quase nada. Esta, como todas as outras.
Nos poucos momentos que dormitei, sonhei contigo. Connosco. Com um tempo feliz que se extinguiu: fora da minha memória. Com a curva do teu pescoço; o sorriso, aquoso, nos teus olhos; o mel, escorrendo, no arfar do teu desejo.
Acordei com uma erecção inútil: tão inútil como todas as outras, desde que partiste.
Recordas aquela foto, em que estamos num abraço gargalhante, como se o amor fosse invencível: como se nós fôssemos invencíveis? Queimei-a. Perdeu a cor com o sal das minhas lágrimas. Ou talvez a tenha sonhado, tudo seja um borrão de memórias inventadas. Desapareceste tu. Desapareci eu. Desapareceu tudo. Só restam sombras negras: na tua ausência, na minha vida.
Lembro esse dia fatídico como se fosse hoje. Agora. O som do baloiço, musicando a tua gargalhada. O sabor a maresia a emanar do teu corpo. A areia que parecia fazer parte de todos os recantos. Lembro-me que cantarolavas uma canção, depois, enquanto descansávamos o amor, lado a lado, a namorar as estrelas do céu.
Lembro o vento a despentear o teu cabelo. Ou talvez fosse eu, no auge da paixão. Às vezes, a memória atraiçoa-me. Esqueço que já não estás aqui. Dou comigo a perguntar o que queres para o pequeno-almoço e vejo-te lamber os lábios famintos, enquanto respondes: tu!
Ontem fiz torradas com compota de mirtilo. A tua preferida, lembras-te? E eu nem gosto de compota de mirtilo! Sobraram imensas, claro, porque as fiz a contar com o teu apetite; e com o meu; mas nenhum compareceu.
Enfim. Não te maço mais.
Hoje comprei um ramo de açucenas. Sei que as adoras e que te dão alergia - e alegria. Talvez te arranquem um sorriso. Ou, quem sabe, te tragam num espirro.
Até amanhã. Não me esqueças. O baloiço continua aqui: vazio, à tua espera – tal como eu.
Teu
Eu.
Meu
Tu.»
Levantou-se, dobrou a carta e meteu-a no bolso da lapela. Olhou pela janela, pegou no ramo de flores e saiu.
Dizem, as vozes do povo, que as cartas deixadas, todas as noites, no túmulo da mulher, aparecem abertas e molhadas, no amanhecer do dia seguinte. Se é chuva ou lágrimas, ninguém sabe esclarecer.
LIA WOLF
(Texto escrito, há uns anos, para uma outra página, para a rúbrica "Autor residente")