24/08/2026
DR. AUGUSTO BOTELHO SIMAS — IDEIAS PARA QUE O SEU EXEMPLO NÃO SE PERCA
No próximo dia 6 de novembro passam 50 anos sobre a morte do Dr. Augusto Botelho Simas, um dos nomes que f**aram profundamente ligados à história e à memória de Vila Franca do Campo.
Não escrevo estas palavras como historiador, nem com a pretensão de dizer a qualquer instituição aquilo que deve fazer.
Escrevo simplesmente como vila-franquense, embora já não viva na minha terra, e como alguém que acredita que há exemplos que não devemos deixar desaparecer à medida que desaparecem também aqueles que os conheceram.
Era ainda uma criança quando o Dr. Augusto Botelho Simas faleceu.
Mas lembro-me dele.
E tenho uma razão muito pessoal para guardar a sua memória.
Lembro-me de o Dr. Simas ir a nossa casa quando o meu irmão mais velho estava gravemente doente, praticamente a morrer. Era criança, mas ficou-me a memória do esforço, da preocupação e da dedicação daquele médico na tentativa de o salvar.
Ao longo da vida ouvi também muitas histórias sobre ele. Histórias contadas por pessoas que o conheceram, que foram seus doentes ou que testemunharam a forma como exercia a medicina e se relacionava com aqueles que menos tinham.
A memória popular acabou por lhe dar um nome extraordinário:
“O PAI DOS POBRES.”
Naturalmente, a memória oral deve ser tratada como memória e a História deve ser construída com documentos, fontes e rigor.
Uma coisa não invalida a outra.
Pelo contrário:
ainda vamos a tempo de recolher as duas.
Vila Franca não o esqueceu completamente.
Existe uma rua com o seu nome. Existe o seu busto no Jardim Antero de Quental, uma homenagem dos nossos emigrantes. Em 1997, por ocasião do centenário do seu nascimento, houve iniciativas importantes, incluindo uma Medalha de Mérito Municipal e a publicação, pela Câmara Municipal, de uma antologia dos seus textos, com 256 páginas, organizada por Lúcia Costa Melo.
Portanto, não se trata de dizer que nada foi feito.
Trata-se de perguntar o que podemos fazer agora para que aquilo que já foi preservado consiga chegar às próximas gerações.
Deixo algumas ideias.
Não como exigências.
Não como um programa político.
Não como propriedade minha.
Apenas como o contributo de um cidadão para a sua terra.
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1 — RECOLHER, COM URGÊNCIA, AS MEMÓRIAS DE QUEM AINDA O CONHECEU
Talvez esta seja a mais urgente de todas.
Ainda existem vila-franquenses com 70, 80, 90 ou mais anos que conheceram o Dr. Simas, foram seus doentes, trabalharam com ele ou ouviram histórias diretamente dos pais.
Porque não criar um projeto chamado, por exemplo, “Eu conheci o Dr. Simas”?
Uma escola, uma associação cultural, a Misericórdia, o Município, um grupo de jovens ou, melhor ainda, vários parceiros poderiam gravar essas pessoas.
Não precisamos de grandes cenários.
Precisamos de voz, rosto, memória e rigor.
Daqui a vinte anos, muitas dessas vozes já não estarão entre nós.
O que não recolhermos agora poderá perder-se para sempre.
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2 — CRIAR UM ARQUIVO DIGITAL DR. AUGUSTO BOTELHO SIMAS
Quantas famílias terão ainda uma fotografia, uma carta, um recorte de jornal, uma receita antiga, um documento ou simplesmente uma história relacionada com ele?
Poderia ser feito um apelo público:
“Tem alguma memória ou documento do Dr. Augusto Botelho Simas? Ajude-nos a preservá-lo.”
Nem seria necessário que as famílias entregassem os originais.
Poderiam ser digitalizados, devidamente identif**ados e devolvidos.
Com o tempo teríamos fotografias, documentos, imprensa, testemunhos em vídeo e textos reunidos num único espaço, acessível a investigadores, escolas e cidadãos.
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3 — RECUPERAR A ANTOLOGIA DE 1997
Esta é uma ideia que me parece particularmente importante.
Já existe uma antologia dos textos do Dr. Augusto Simas, publicada em 1997, por ocasião do centenário do seu nascimento.
Então, antes de pensarmos em fazer outro livro, porque não recuperar aquilo que já foi feito?
Localizar exemplares, estudar a possibilidade da sua digitalização, disponibilizá-la às escolas e bibliotecas e, eventualmente, fazer uma reedição acompanhada de novos documentos, fotografias, estudos e testemunhos entretanto descobertos.
Preservar também é saber aproveitar aquilo que outros já fizeram antes de nós.
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4 — LEVAR AUGUSTO BOTELHO SIMAS ÀS ESCOLAS
Não para obrigar crianças e jovens a decorar datas.
Isso seria precisamente o contrário daquilo que pretendo.
Contar-lhes uma vida e depois perguntar:
O que signif**a servir os outros?
O que signif**a um médico sentir responsabilidade por uma comunidade?
O que era ser pobre e adoecer nos Açores há 70 ou 80 anos?
O que mudou?
E o que ainda falta mudar?
Os mais pequenos poderiam desenhar ou ouvir histórias.
Os mais velhos poderiam investigar documentos, entrevistar idosos, produzir podcasts, pequenos filmes ou trabalhos de História Local.
Assim, Augusto Simas deixaria de ser apenas o nome de uma rua.
Passaria a ser uma porta para discutir cidadania, solidariedade, saúde, responsabilidade e humanidade.
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5 — JUNTAR OS MAIS NOVOS AOS MAIS VELHOS
Imaginem alunos de Vila Franca sentados diante de pessoas de 80 ou 90 anos e a fazerem-lhes uma pergunta muito simples:
“Conte-me como era o Dr. Simas.”
O jovem aprende.
O idoso percebe que aquilo que guarda na memória tem valor.
A escola aproxima-se da comunidade.
E a História passa de uma geração para outra.
Só esta iniciativa já valeria a pena.
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6 — CRIAR UMA EXPOSIÇÃO: “O MÉDICO E O HOMEM”
Uma exposição construída com fotografias, documentos, jornais, testemunhos, objetos e contexto histórico.
Não apenas para dizer que ele foi extraordinário.
Também para mostrar como era Vila Franca naquele tempo, como funcionavam os cuidados de saúde, como viviam as famílias e qual era o papel de um médico numa comunidade insular.
Poderia começar num espaço cultural e depois percorrer escolas e freguesias.
Seria simultaneamente uma exposição sobre um homem e sobre uma época da nossa própria história.
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7 — PRODUZIR UM DOCUMENTÁRIO
Ainda estamos a tempo de fazer algo que daqui a vinte anos já será impossível fazer da mesma maneira:
filmar pessoas que efetivamente o conheceram.
Um documentário sério, cruzando testemunhos com documentos e investigação histórica, poderia permanecer disponível para as escolas, para os vila-franquenses, para a nossa diáspora e para todos os que se interessam pela história dos Açores.
E não teria de esconder a diferença entre História e memória.
Quando alguma coisa fosse uma recordação pessoal, seria apresentada como recordação.
Quando estivesse documentalmente comprovada, seria apresentada como facto.
É assim que se preserva memória com rigor.
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8 — DAR VIDA AO BUSTO QUE JÁ EXISTE
Milhares de pessoas podem passar diante de um busto sem saber quem representa.
Porque não colocar, de forma esteticamente cuidada e sem interferir com o monumento, informação interpretativa e um QR Code?
Apontava-se o telemóvel e apareciam a biografia, fotografias, cronologia, documentos, vídeos e testemunhos.
O bronze continuava exatamente onde está.
Mas passava a contar uma história.
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9 — CRIAR UM PRÉMIO DR. AUGUSTO BOTELHO SIMAS — HUMANIDADE E SERVIÇO
Esta ideia agrada-me particularmente.
Uma vez por ano, reconhecer alguém — uma pessoa, associação, instituição ou projeto — que tenha feito verdadeiramente alguma coisa pelos outros.
E sublinho:
FEITO.
Não quem fez o discurso mais bonito.
Não necessariamente quem aparece mais.
Não quem tem mais seguidores.
Quem fez.
Poderia existir um júri independente de cinco ou sete pessoas, procurando reunir diferentes sensibilidades: alguém da área social ou da saúde, alguém da educação, alguém da cultura ou da investigação histórica, representantes da sociedade civil e, eventualmente, alguém ligado à comunidade vila-franquense emigrada.
Os critérios deveriam ser públicos e simples:
impacto real, continuidade, humanidade, serviço desinteressado, respeito pela dignidade das pessoas e trabalho efetivamente demonstrado.
Nem precisaria de ser um grande prémio monetário.
O verdadeiro valor estaria no reconhecimento público do exemplo.
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10 — CRIAR TAMBÉM UM PRÉMIO JOVEM
Mas aqui faria uma coisa diferente.
Não premiaria o jovem que escrevesse o melhor texto sobre Augusto Simas.
Desafiaria os jovens a FAZER ALGUMA COISA.
Identif**ar um problema da comunidade e desenvolver uma pequena ação: acompanhar idosos, combater a solidão, ajudar uma associação, criar um projeto de inclusão, trabalhar a literacia em saúde, o ambiente, a deficiência ou qualquer outra necessidade concreta.
Depois apresentariam aquilo que fizeram, os resultados e também aquilo que aprenderam.
Isso seria, talvez, uma das formas mais bonitas de homenagear um homem de ação:
CRIAR OUTROS HOMENS E MULHERES DE AÇÃO.
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11 — CRIAR UM ROTEIRO DA MEMÓRIA
O busto, a rua, o hospital onde trabalhou, os lugares relacionados com a sua atividade, a imprensa e outros pontos que uma investigação rigorosa venha a confirmar.
Um pequeno roteiro físico e digital permitiria conhecer Augusto Simas enquanto se conhece também Vila Franca do Campo e uma parte importante da sua história.
E poderia igualmente ser utilizado pelas escolas e por quem nos visita.
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12 — FAZER DO 6 DE NOVEMBRO UM DIA PARA FAZER ALGUMA COISA PELOS OUTROS
Não sei sequer se precisamos de lhe chamar oficialmente “Dia” disto ou daquilo.
Talvez baste criar um hábito.
Todos os anos, perto de 6 de novembro, escolas, associações, instituições e cidadãos poderiam ser convidados a realizar uma ação concreta de serviço à comunidade.
Porque talvez a melhor homenagem a um homem conhecido por ajudar pessoas não seja colocar flores junto do seu busto.
Talvez seja ajudar alguém.
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Estas são apenas algumas ideias.
Umas poderão interessar ao Município. Outras à Santa Casa da Misericórdia. Outras às escolas, às associações, à Universidade, aos investigadores, aos profissionais de saúde, aos órgãos de comunicação social, aos nossos emigrantes ou simplesmente a cidadãos que decidam pegar numa delas.
E nem precisam de ser feitas todas.
Se uma única destas ideias servir para preservar uma memória que estava prestes a desaparecer, já terá valido a pena.
Não moro atualmente em Vila Franca do Campo.
Mas há coisas que a distância não altera.
Continuo a sentir-me vila-franquense.
E talvez por isso sinta também alguma responsabilidade em não guardar apenas para mim aquilo que recordo e aquilo que ouvi durante tantos anos.
Hoje vivemos demasiado rodeados daquilo que se diz, daquilo que se publica, daquilo que se proclama.
Mas uma vida não se mede apenas pelas palavras.
Augusto Botelho Simas foi, acima de tudo, um homem que fez.
Estas ideias f**am aqui sem dono.
Quem encontrar alguma que considere útil, pegue nela, melhore-a e faça-a acontecer.
Não importa quem teve a ideia.
Não importa quem f**a com os louros.
Importa que, quando desaparecer a última pessoa capaz de dizer “eu conheci o Dr. Simas”, Vila Franca continue a saber responder a uma pergunta muito simples:
“Quem foi este homem e porque é que ainda vale a pena falar dele?”
Porque uma rua conserva um nome.
Um busto conserva uma imagem.
Mas somos nós que temos de conservar o exemplo.
Luís Matos
“Texto corrigido e formatado com recurso a IA.”
Vila-franquenses no Mundo