23/05/2026
A minha bisavó trazia me à baixa. Há muitos anos. Íamos às lojas que hoje já não existem. Lembro-me de comprar café na Casa Pereira e chá verde, para a minha mãe. O senhor tinha uns potes atrás dele e andava, devagar, até lá. Arrastava um bocadinho uma perna, talvez a direita que teima sempre em ser mais pesada. Trazia o pote e quando o abria, misturado com o cheiro a chocolate e café torrado, vinha aquele aroma de chá. Meio quilo? Sim. Tirava o com uma colher de latão que tinha um formato de pá, para dentro de um cartucho de papel, e a velha balança lá ia girando o ponteiro que dançava, subtilmente, no fim. E mais? Uma caixa daqueles bombons. Quanto é? Não me lembro. Mas era barato. E havia senhoras, da idade da minha bisavó, também lá dentro e, provavelmente, um par de turistas. Como se faz as pazes com isto? Não se ouve mais português. E eu de nacionalista tenho pouco, acho. Ouvem se trolleys e mais uma data de desgraças acontecem nestas ruas resilientes. Porque mantêm os candeeiros de ferro, que já não se fazem, ou fazem mas só ali num serralheiro que qualquer dia se junta a ela. E ainda há os azulejos, que resistem ao turismo porque o hotel, pelo menos, decidiu manter a traça ou não teve autorização para a alterar. Dos dois metros para cima, ainda reencontro a minha bisavó, mas dos dois metros para baixo, onde raio andamos? Ah, se cravarmos os olhos no chão ainda há umas pedras da calçada, essa coisa escorregadia que também ela vai resistindo ao espezinhamento a que a submetem. Lisboa, resiste e nós também vamos andando.