Vasco Passanha

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A minha bisavó trazia me à baixa. Há muitos anos. Íamos às lojas que hoje já não existem. Lembro-me de comprar café na C...
23/05/2026

A minha bisavó trazia me à baixa. Há muitos anos. Íamos às lojas que hoje já não existem. Lembro-me de comprar café na Casa Pereira e chá verde, para a minha mãe. O senhor tinha uns potes atrás dele e andava, devagar, até lá. Arrastava um bocadinho uma perna, talvez a direita que teima sempre em ser mais pesada. Trazia o pote e quando o abria, misturado com o cheiro a chocolate e café torrado, vinha aquele aroma de chá. Meio quilo? Sim. Tirava o com uma colher de latão que tinha um formato de pá, para dentro de um cartucho de papel, e a velha balança lá ia girando o ponteiro que dançava, subtilmente, no fim. E mais? Uma caixa daqueles bombons. Quanto é? Não me lembro. Mas era barato. E havia senhoras, da idade da minha bisavó, também lá dentro e, provavelmente, um par de turistas. Como se faz as pazes com isto? Não se ouve mais português. E eu de nacionalista tenho pouco, acho. Ouvem se trolleys e mais uma data de desgraças acontecem nestas ruas resilientes. Porque mantêm os candeeiros de ferro, que já não se fazem, ou fazem mas só ali num serralheiro que qualquer dia se junta a ela. E ainda há os azulejos, que resistem ao turismo porque o hotel, pelo menos, decidiu manter a traça ou não teve autorização para a alterar. Dos dois metros para cima, ainda reencontro a minha bisavó, mas dos dois metros para baixo, onde raio andamos? Ah, se cravarmos os olhos no chão ainda há umas pedras da calçada, essa coisa escorregadia que também ela vai resistindo ao espezinhamento a que a submetem. Lisboa, resiste e nós também vamos andando.

As pontas dos dedos afastam-se do ecrã do telefone onde procuro palavras para falar sobre o chão que ontem pisava, pela ...
15/05/2026

As pontas dos dedos afastam-se do ecrã do telefone onde procuro palavras para falar sobre o chão que ontem pisava, pela manhã. Passou-me um esquilo perto dos pés na porta e havia um vento que fazia as folhas das arvores abanarem num som de fundo que não permite mais a morte ainda que na forma do silêncio. A morte foi despejada daqueles espaços. Havia também uns pingos de chuva, umas ligeirissimas distrações quando o pingo da chuva fria toca a testa e nos recorda de que estamos em 2026, dá descanso ao coração que já não tem mais por onde encolher. E agora? É na projeção de quem gosto nestas condições que o estômago se revira, o coração interrompe e o cérebro, simplesmente, não avança. Protege da imaginação. Menos quando se passa pela câmara de gás para chegar ao lugar dos fornos. Há uma pausa violentíssima quando se ganha consciência de que sim, foi sim. E depois? Depois diz lá à frente num mural never again, e ao lado estão duas bandeiras israelitas nas mãos de umas pessoas que falam hebreu e nada entendo, absolutamente nada, e abstenho me de continuar a escrever porque, novamente, se me reviram as estranhas. Never again era para todos. E não, este texto não é anti semita.

Estou cansado de ser homemEstou cansado de ver meus paresSerem ímpares.Estou cansadoDa necessidade de isolamentoDo isola...
03/03/2026

Estou cansado de ser homem
Estou cansado de ver meus pares
Serem ímpares.

Estou cansado
Da necessidade de isolamento
Do isolamento lá para ciiiiiima
Cuidado que cais cá em baixo.

Foi dia de passeio com as ovelhas em terras que abrem as portas a quem à entrada, docemente, se apresenta.

Não compreendo quem tem e não dá.
Mas dar dando, sem expectativa.
Sem contrapartida.
Sem esperar nada em troca.
Não compreendo quem não se encontra nestes versos.
Encontramo-nos por aí.

Há uns dias atrás. Não, há uns meses atrás fui apanhar azeitonas para as Ameiras rodeados de azeite e pão e alfarroba e ...
28/02/2026

Há uns dias atrás. Não, há uns meses atrás fui apanhar azeitonas para as Ameiras rodeados de azeite e pão e alfarroba e za’atar e cantigas e rituais, montámos um grupo e partilhámos e aprendemos e colhemos largas centenas de kgs de azeitona e provamos do azeite e foi tão bom. Agora sim, há uns dias atrás a Aida e o Mustafa vieram aqui à Casa dos Fartos e ensinaram cerca de 20 pessoas a podar oliveiras. Aprendemos três técnicas práticas e aprendemos alguns conselhos, na dúvida não cortes, corta para o ano. É bonita esta forma de olhar a árvore. Um bocado escultura. Deve estar de tal forma que uma criança possa trepa-la. Eu gostei desta frase. A outra é, deve estar de tal forma que um pássaro possa atravessa-la. Também gostei desta. Depois a última diz que é um projecto a 5/10 anos e então o ramo que se corta deve ser imaginado e em caso de fraca imaginação esperamos antes para decidir mais tarde. Desde aí, todos os dias nos aproximamos de uma árvore e vamos limpando e dando lhe espaço. Hoje, pela primeira vez, tirei uma fotografia antes e depois. Mas já se nota o espaço nas que circundam a casa. Podar oliveiras é uma maravilha.

À camilha. Sentamo nos à camilha, aos pés o calor da braseira eléctrica. Um resto dos tempos antigos com um toque do con...
14/02/2026

À camilha. Sentamo nos à camilha, aos pés o calor da braseira eléctrica. Um resto dos tempos antigos com um toque do conforto da modernidade eléctrica. Ao fundo ouve-se o piano. Há um rapaz que toca piano, depois de ter feito massa fresca, é italiano. Por aqui estamos só sentados, depois de ver o céu pejado de estrelas. O campo hoje rendeu-se à beleza de um dia frio de inverno com o sol quente que relembra, ainda pouco, o verão. Sou do pó e do calor, da pouca roupa e do simples prazer do copo de água. Mas as couves ainda não são couves e o verão também ainda não o é. Aqui o ritmo é outro. É mais ajustado à necessidade imediata. Como os pintos. Precisavam de mais sol, então com um par de tábuas de uma palete que por ali estava e um bocado de rede de galinheiro, parte se o tijolo para o outro lado e agora já podem aproveitar o sol. Lá ao fundo, continua o piano, no tacho uns brócolos e uns pedaços de carne e pela cozinha um v***r terno que se avizinha saboroso. Por aqui dois bafos de cigarro e um gole de vinho tinto. E por aí?

Ontem foi dia de começar o galinheiro. Pedrês, são portuguesas e na marca das frangas fomos nacionalistas. Estão mais ha...
21/01/2026

Ontem foi dia de começar o galinheiro. Pedrês, são portuguesas e na marca das frangas fomos nacionalistas. Estão mais habituadas ao território e preservamos a espécie, e mais uns conselhos de quem tem destas e não das outras. Onde é que já se ouviu tal discurso. Adiante que nem tudo é político (é é!!). Então está imenso frio, elas precisam de estar quentes, para a rua não iriam que aquela caseta está gelada e amanha vai chover. Vamos pô-las no carrinho de bebé que está lá em cima que já ninguém vai usar. Compramos uma lâmpada infravermelhos para as manter quasi-assadas. Camas de palha, uma zona mais dura para elas ganharem músculo nas pernas senão f**am abertas, água muita que elas bebem que se afogam, um bocado de uma farinha boa agora ao princípio que depois vai de couves e lagartas na horta que já se começa a plantar. E diz que um galinheiro sobre rodas é uma maravilha que elas assim vão comendo onde se as põe. Piam que Deus a dá, mas havia dois que nem por isso. Foram para o gorro e para o colo e para seringas de água com um bocadinho de mel e oh se a doçura não faz um milagre. Um inferno de piadeira novamente. Hoje ainda não os vi, estão lá para o quarto que está mais quente. São 22, que não são a conta que Deus nem nós fizemos, que pedimos 20. A ver se estes dois na vieram para arredondar o número. Que também faz parte, mas podia ser mais tarde. Hoje é dia de casa e de desenhar e projectar e qualquer dia de partilhar. Vai haver espaço para todes que a gente não somos de intrigas, jogamos pelo seguro. Entretanto apareceram os outros dois e para já, também estão seguros.

Foi apagada pela imagem que não vi.Lá ao fundo,O que a imaginação permite.Faunos tecem camisolas com juncos desfiados.Ta...
15/01/2026

Foi apagada pela imagem que não vi.
Lá ao fundo,
O que a imaginação permite.
Faunos tecem camisolas com juncos desfiados.
Talvez ap***s as vacas andassem enterrando os cascos na terra.
Os patos mergulhassem as cabeças na água e sacudissem as p***s em seguida.

Ouvi-os todos,
Até os faunos.
Mas não conto a ninguém que barulho eles fazem.
Porque perdi a memória desse som,
Pela imagem que não cheguei a ver.

Eram 7:30 da manhã, ainda não havia o Sol, confiei que vinha e adivinhem, ele veio. Esta coisa que damos por garantida, ...
14/01/2026

Eram 7:30 da manhã, ainda não havia o Sol, confiei que vinha e adivinhem, ele veio. Esta coisa que damos por garantida, porque se nem esta déssemos então que outras? Frio e nevoeiro. Há lugares neste lugar que obrigam a parar, nem sempre é pela vista. Surgem pequenos lugares entre as árvores despidas da cortiça e os zambujeiros (que não conhecia) e os espargueiros cheios de espargos frescos daqueles que deixam um cheiro fétido pós urina, sabem? Há quem não saiba, diz que não acontece a todos, sei lá eu. Perdi me ladeira abaixo, os javalis deixam caminhos abertos, baixinhos, mas quem eu vi foram duas raposas e uma delas ainda me disse qualquer coisa, não percebi, nem sabia que fazia aquele som, por onde se pode passar, lá na frente um emaranhado de silvas, estilo fios dos headphones quando ainda os havia, e fui andando já meio cansado de imaginar a subida de regresso e chateado de, pela segunda vez, não alcançar a barragem. Mas o barulho da água ficou mais forte e havia ali um caminho entre as silvas que as vacas rasgaram e eu aproveitei e segui. Subi e mais subi, mas o barulho da água faz escorrer também o cansaço até chegar lá acima e ver uma cascata enorme. Ceci nest pas le Gerês. E depois ao fundo esta neblina que me levou às Áfricas ou talvez à Índia quando uma vaca pachorrenta se aproximou da margem para beber e depois levantou a cabeça olhou ao seu redor deu meia volta e regressou. Como eu fiz, que nem va(s)ca.

Isto é sobre um bambu. Aqui não há disso. Mas f**a a imagem da árvore mais bonita que já conheci. E quando o tempo já pa...
03/01/2026

Isto é sobre um bambu. Aqui não há disso. Mas f**a a imagem da árvore mais bonita que já conheci. E quando o tempo já passou. E quando nos formamos e montamos enquanto estrutura humana, de valores, de princípios. Uma estrutura muito sólida, muito firme, mas que balança. Como bambu. E de repente chegam as moto serras, violentas, barulhentas, cheias de vontades. Mas que nem se aproximam do bambu, ou aproximam, mas sem a vontade, necessariamente, de o cortar às postas. Só o seu barulho e o seu cheiro despertam tantas emoções. Ódio não, compaixão. Medo não, tristeza. E o bambu mantém se ali, firme, com a estupidez barulhenta à sua volta. Só que o bambu não tem pernas. Eu tenho. Pernas para que vos quero.

É um forte, mas eles eram mais. A liberdade não cabe em lado nenhum, ela rebenta com tudo por uma qualquer minúscula fre...
17/12/2025

É um forte, mas eles eram mais. A liberdade não cabe em lado nenhum, ela rebenta com tudo por uma qualquer minúscula fresta, tramada essa tipa. Este é o museu em Peniche, resistência e liberdade. A ver se não nos juntamos lá mais dia menos dia.

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