23/03/2026
E assim encerrámos um ano, com o tom intimista que distinguiu o projecto. Obrigada a todos aqueles que decidiram acompanhar-nos nesta longa caminhada. O InOvar as Letras - À Escuta da Literatura também é vosso.
"[...] As flores, símbolo da estação que agora iniciamos – e que foi aurora e é ocaso do InOvar as Letras –, adquiriram para nós vários sentidos, [...] mas não poderíamos deixar de referir aquele sentido último que lhe deu Júlio Dinis, na carta endereçada a sua tia, quando esta lhe pedia para não «levar muitas saudades de Ovar». Vejam o que ele respondia a tal pedido: «[...] na última carta sua disse-me que voltasse breve para o Porto e que não levasse muitas saudades de Ovar. Essas, peço-lhe agora que mas
deixe levar num cantinho da bagagem. […] Deixe-mas levar; é um pequeno ramo de flores silvestres que destino para o meu cofre de recordações; pouco lugar ocupam e o perfume que exalam é tão disfarçado e subtil que poucos o perceberão. Há flores assim que só os sentidos muito delicados lhes reconhecem
o perfume e, se certos sentimentos se podem dizer flores de alma também nem todos os sentidos interiores estão educados para as pressentir.» (Ovar, 13 de Julho de 1863; in Cartas e Esboços Literários).
Levarei comigo essas «flores de alma», cujo aroma subtil me acompanha. Mas antes de partir, encontrarei na personagem erigida em canto, pelo João Almeida e o João Diogo Leitão, o meu modelo e a minha máscara: «é melhor ser só de passagem o nómada que deixa uma fragrância leve e segue. ficar é um gesto parasita é falar de mais é o fim do encantamento.» (A Urtiga, «o nómada»; in a essência da cebola).
Despede-se, pois, a nómada, portando nas suas mãos um «pequeno ramo de flores silvestres». Não permitamos «o fim do encantamento».
Obrigada."
[Texto lido no momento de clausura do projecto]