12/09/2025
" Em memória de Iryna e Charlie"
As mortes de Charlie Kirk, em pleno evento universitário, e de Iryna Zarutska, a jovem ucraniana que sobreviveu a bombas em Kiev para acabar sendo brutalmente esfaqueada, estão entre os acontecimentos mais recentes que abalaram o mundo.
Confesso que, sobretudo este último crime, me atingiu de maneira particular. Talvez porque, num impulso imprudente, cedi à tentação de assistir ao vídeo com imagens tão chocantes. Desde então, elas ecoam na minha mente, impossíveis de silenciar, deixando-me um nó constante na garganta e uma lágrima teimosa no canto do olho.
A agravar o meu desconforto, as mesmas imagens reaparecem nas redes sociais, demonstrando sem cessar a impotência e a fragilidade da jovem diante do violento agressor. Uma exposição que prolonga a violência e torna ainda mais difícil encontrar repouso para a alma.
Mas, ao longo do dia, fui-me apercebendo de outro fenómeno inquietante.
Nas redes sociais, ainda o sangue não tinha secado e já havia quem celebrasse a morte de Charlie, quem fizesse piadas, quem atribuísse culpas instantâneas ou tira-se aproveitamento político das situações. As palavras são afiadas, prontas a ferir, mais rápidas do que qualquer investigação, mais cruéis que a lâmina que atravessou o corpo de Iryna, mais impiedosas que a bala que matou Charlie.
Sinto que, infelizmente, a morte e o sofrimento destas duas vítimas deixaram de ser o mais importante.
A violência física mal arrefeceu e já se alimenta outra, feita de palavras.
A legítima indignação transforma-se em combustível para o ódio, e a justiça em vingança.
É como se, no tribunal da internet, a vida humana valesse menos do que um “like” ou uma frase de rancor.
Continuo a querer acreditar que não se combate o mal com outro mal.
A paz não virá apenas da punição dos culpados.
É preciso refletir, falar apenas depois de sentir, calar antes de ferir e lembrar que a dignidade das vítimas começa no respeito ao seu silêncio e não transformar a dor em espetáculo, disputa ou combustível para mais violência.