14/04/2026
Em 1910, José Malhoa quis pintar o fado como ele era mesmo. Não o fado dos salões. O das ruas de Lisboa.
Para isso foi buscar Amâncio, um desordeiro tão conhecido no bairro que chamavam a Malhoa o “pintor fino”, só para o distinguir dele, o “pintor” da rua. Ao lado de Amâncio, Adelaide, conhecida por Adelaide da Facada. A cicatriz que lhe deu o nome estava desenhada no rosto por uma navalha.
O problema de trabalhar com Amâncio era que ele estava regularmente preso. Malhoa teve de ir ao Governo Civil pedir para o libertarem. E quando conseguia trazê-lo ao estúdio, tinha de o controlar, porque o temperamento do homem era violento, sobretudo com Adelaide.
Quando Amâncio não estava, Malhoa pintava Adelaide com os ombros mais descobertos. Quando ele aparecia, cheio de ciúmes, a alça subia. A pintura foi sendo assim, negociada entre o pintor e o modelo.
Malhoa convidou toda a gente a opinar. Vizinhos da Mouraria, figuras da elite, e até o rei D. Manuel foi ao estúdio ver. Foi a partir dessas visitas que as tatuagens de Adelaide foram desaparecendo da tela, uma por uma. Na época eram muito pouco comuns numa mulher. Ficou só uma pequena, quase escondida, numa das mãos.
Quando ficou pronto, a crítica portuguesa rejeitou o quadro. Retratar a marginalidade era coisa menor, diziam. O fado não merecia isso.
O quadro seguiu então para Buenos Aires, com o título “Bajo el Encanto”. Ganhou medalha de ouro. Foi para Paris, com “Sous le Charme”. Para Liverpool, “The Native Song”. Em 1915, São Francisco, Grand Prize na Exposição Internacional do Canal do Panamá.
Sete anos depois de ter sido pintado, em 1917, foi exposto pela primeira vez em Lisboa.
A Câmara Municipal comprou-o e colocou-o no salão nobre dos Paços do Concelho. Ficou lá décadas, até entrar na colecção permanente do Museu da Cidade. Está hoje no Museu do Fado, em Alfama, cedido temporariamente.
E uma reprodução está na parede do Fado ao Carmo, no Chiado. A dez minutos a pé do bairro onde tudo aconteceu 🐦⬛