28/09/2017
Nuno Nunes sobre o texto de Strindberg e a sua encenação:
"A tensão dramática que acompanha Menina Júlia é dos aspectos que mais importam numa apropriação deste texto. Para lá dos elementos simbólicos relativamente explícitos ou das divagações psicologistas que lhe dão um tom datado, é no despropósito em que toda a situação se dá e na submissão desastrada das personagens à pulsão erótica e aos seus ressentimentos que nos reencontramos. A peça descreve o movimento e a vertigem dum par amoroso enredado numa casualidade que os esmaga e sacrifica. As suas estruturas existenciais (social, psicológica e emocional), desmoronam-se no momento em que usam da sua aparente liberdade para as transcenderem. Ficam eles, e só eles, a esgrimirem-se com palavras, olhares, reacções, avanços e recuos, impelidos pelos corpos, sedentos, algozes inadvertidos, expostos numa humanidade que não sabe o que fazer com toda aquela «roupagem moral» e que sai derrotada. O abismo que se abre fala-nos – aos gritos! – sobre a nossa vulnerabilidade.
É sobre este sítio que nos debruçaremos."