17/06/2016
MINOTAURO
«São duas personagens, ele é actor, ela é actriz. Como é que chegaram ali? Porque é que estão ali a dizer aquelas coisas? Estão obsessivamente a falar deles próprios, mas falar deles próprios parece ser, para eles, falar da coisa mais difícil, mais fugidia, mais estranha, que existe. Falar de si próprio é falar daquilo que se conhece muito bem, até ao momento em que começam a surgir as dúvidas. Fala-se da família - existe assunto mais importante do que este? - e começa-se a entrar num terreno minado. O que é que quer dizer que não se gosta dos pais ou dos irmãos? E se for o contrário? Falar de si, neste caso - o das personagens - é falar com alguém que nos conhece, e alguém que pode confirmar ou negar o que dizemos. alias, na maior parte das vezes, no sabemos se queremos confirmações ou negações, sobre nós, sobre os familiares, e sobre os outros que acabam por ir entrando na conversa e na vida e na vida de cada um. Miguel Graça foi o veículo de que os atores Jani Zhao e David Esteves precisavam; conhecia os dois, todos tiveram muitas conversas sobre o que queriam, ou julgavam querer, sobre o que sentiam, sobre aquilo de que precisavam. Depois, como todos os escritores, Miguel Graça escreveu outra coisa. Mas é justamente nessa outra coisa que se encontra a verdade, só que geralmente sob o modo de surpresa, do inesperado, do desconhecido, da revelação. As coisas afinal são assim? O “Minotauro” é isto tudo. É um ser familiar e totalmente estranho, fabuloso; está ligado a um labirinto onde talvez seja possível encontrar uma chave para a orientação; é um ser fatal ou nem sempre? Ninguém sabe, e quando o vemos é sempre tarde para tomar “outra” decisão. O espectáculo é o resultado de um trabalho de conjunto: os actores, o escritor, Daniel Worm d’Assunção, que faz o desenho de luz; e houve, ainda, o apoio de Dinarte Branco.»
João Carneiro in Expresso, 10/07/2016