31/08/2023
Técnica Rubiales
Quando éramos crianças, todos tínhamos o sonho de um dia desempenharmos uma determinada profissão. Eu queria ser informático. Esse desejo surgiu devido à má vontade dos meus progenitores em não permitirem que mexesse no computador de casa; achavam que não era o aparelho indicado para uma criança de quatro anos brincar. Insatisfeito com a limitação imposta, decidi que no futuro queria ser informático, só para ter o prazer de passar o dia inteiro a mexer num computador sem que os meus pais pudessem-me contradizer — uma espécie de vingança ingénua.
Com o passar dos anos, perdi o interesse pelos computadores e comecei a interessar-me pelo desporto. Queria ser jogador de basquetebol profissional. Comecei a praticar a modalidade num clube perto da minha residência e fiquei rendido às consequências de pertencer ao clube do bairro, especialmente no que toca ao interesse das raparigas por mim. Acredito que a minha dedicação ao s**o feminino fez com que não treinasse o suficiente para atingir o patamar que tinha inicialmente estabelecido quando entrei no clube. Dessa altura, recordo-me dos dias de jogo e dos herpes labiais.
Quando chegou a altura de ir para a universidade, vi-me obrigado a inscrever-me num curso compatível com a minha medíocre média. Optei por Antropologia. Contudo, só percebi a matéria da área que escolhi no dia em que fui à secretaria da universidade congelar a matrícula. Não me adaptei bem ao ambiente universitário. Os professores falavam demasiado depressa, a comida da cantina não tinha sabor e as casas de banho frequentemente estavam sem papel higiénico. Fiquei desiludido. Ser estudante a tempo inteiro durante três, quatro, cinco anos, não era para mim. A minha mente ansiava por mais.
O meu primeiro trabalho foi como caixeiro numa loja de roupa. Gostei da experiência e conheci muitas pessoas, incluindo o meu primeiro amor. Trabalhámos juntos durante um ano. No final desse período, tivemos um desentendimento e tivemos de decidir quem é que deixaria a loja. Argumentei que deveria ser ela a sair, uma vez que não fui eu que fui apanhado a fazer um atendimento personalizado ao chefe no armazém da loja. Ela não aceitou a minha sugestão, falou com o “seu amigo” e acabei por sair mais cedo do que pensava. Durante um tempo, achei que poderia seguir a minha carreira profissional atrás de um balcão de loja de roupa, mas o destino tinha outros planos.
Entretanto, a minha mãe falou com uns conhecidos dela e conseguiu que me contratassem para trabalhar num banco como gestor de contas. Não tinham experiência na área bancária quando fui contratado, mas hoje posso afirmar com orgulho que sei o que é uma taxa de juro, um depósito a prazo e uma ordem de penhora de conta.
No entanto, estou a ficar cansado de estar atrás de um balcão todos os dias, a responder a questões sobre dinheiro. Sou uma pessoa simples que se aborrece facilmente quando se trata de falar sobre dinheiro, ainda mais quando não é o meu dinheiro. Os meus interesses são outros. Recentemente, aprendi a cozinhar e, se tivesse oportunidade, gostaria de matricular-me numa escola de hotelaria para aprender mais sobre sobremesas e sanduíches gourmet. No entanto, isso não é possível. Não posso abandonar um emprego arranjado pela minha mãe. É provável que ela tenha cobrado muitos favores para eu poder estar a trabalhar atualmente nesta instituição. Não posso desiludi-la. Nem voltar para a casa dela.
A menos que… use a técnica Rubiales para me pôr a andar dali para fora. É isso mesmo! Na segunda-feira, quando chegar à agência, vou pedir para falar com a gerente do balcão. Invento um assunto qualquer para falarmos que faça com que tenhamos de ficar fechados no seu gabinete durante algum tempo, e quando estiver para sair da reunião, levanto-me repentinamente, aproximo-me dela e afinfo-lhe um linguadão. Ela, certamente, ficará incrédula com o meu gesto e acusar-me-á de assédio sexual. Como não é habitual eu ter reuniões com a gerente, tenho a certeza de que os meus colegas vão ficar a olhar através das paredes de vidro para ver o que se passa no gabinete e, assim, testemunharão tudo. Serei despedido com justa causa e impedido de voltar a trabalhar num banco, ou mesmo com pessoas em geral. Como não fui apanhado a roubar ou a incentivar clientes a investir as suas poupanças em investimentos arriscados, posso ficar descansado em relação à opinião que a minha mãe terá de mim; ela sabe que sou mulherengo desde os tempos em que jogava basquetebol e até acha alguma piada a essa faceta. Tenho a certeza de que não ficará chateada comigo. Com sorte, até patrocinará o meu curso de culinária.
Nunca pensei que o machismo pudesse ser-me tão útil.
Bem, já tenho algo para me entreter amanhã quando chegar ao trabalho. Se, entretanto, não voltar a escrever-vos, é porque fui preso, ou a minha gerente apaixonou-se por mim e serei obrigado a fugir da cidade.
Quando éramos crianças, todos tínhamos o sonho de um dia desempenharmos uma determinada profissão. Eu queria ser informático. Esse desejo surgiu devido à má vontade dos meus progenitores em não per…