Uma nódoa na gravata

Uma nódoa na gravata Humor Incondicional e Familiar

Técnica Rubiales Quando éramos crianças, todos tínhamos o sonho de um dia desempenharmos uma determinada profissão. Eu q...
31/08/2023

Técnica Rubiales

Quando éramos crianças, todos tínhamos o sonho de um dia desempenharmos uma determinada profissão. Eu queria ser informático. Esse desejo surgiu devido à má vontade dos meus progenitores em não permitirem que mexesse no computador de casa; achavam que não era o aparelho indicado para uma criança de quatro anos brincar. Insatisfeito com a limitação imposta, decidi que no futuro queria ser informático, só para ter o prazer de passar o dia inteiro a mexer num computador sem que os meus pais pudessem-me contradizer — uma espécie de vingança ingénua.
Com o passar dos anos, perdi o interesse pelos computadores e comecei a interessar-me pelo desporto. Queria ser jogador de basquetebol profissional. Comecei a praticar a modalidade num clube perto da minha residência e fiquei rendido às consequências de pertencer ao clube do bairro, especialmente no que toca ao interesse das raparigas por mim. Acredito que a minha dedicação ao s**o feminino fez com que não treinasse o suficiente para atingir o patamar que tinha inicialmente estabelecido quando entrei no clube. Dessa altura, recordo-me dos dias de jogo e dos herpes labiais.
Quando chegou a altura de ir para a universidade, vi-me obrigado a inscrever-me num curso compatível com a minha medíocre média. Optei por Antropologia. Contudo, só percebi a matéria da área que escolhi no dia em que fui à secretaria da universidade congelar a matrícula. Não me adaptei bem ao ambiente universitário. Os professores falavam demasiado depressa, a comida da cantina não tinha sabor e as casas de banho frequentemente estavam sem papel higiénico. Fiquei desiludido. Ser estudante a tempo inteiro durante três, quatro, cinco anos, não era para mim. A minha mente ansiava por mais.

O meu primeiro trabalho foi como caixeiro numa loja de roupa. Gostei da experiência e conheci muitas pessoas, incluindo o meu primeiro amor. Trabalhámos juntos durante um ano. No final desse período, tivemos um desentendimento e tivemos de decidir quem é que deixaria a loja. Argumentei que deveria ser ela a sair, uma vez que não fui eu que fui apanhado a fazer um atendimento personalizado ao chefe no armazém da loja. Ela não aceitou a minha sugestão, falou com o “seu amigo” e acabei por sair mais cedo do que pensava. Durante um tempo, achei que poderia seguir a minha carreira profissional atrás de um balcão de loja de roupa, mas o destino tinha outros planos.
Entretanto, a minha mãe falou com uns conhecidos dela e conseguiu que me contratassem para trabalhar num banco como gestor de contas. Não tinham experiência na área bancária quando fui contratado, mas hoje posso afirmar com orgulho que sei o que é uma taxa de juro, um depósito a prazo e uma ordem de penhora de conta.
No entanto, estou a ficar cansado de estar atrás de um balcão todos os dias, a responder a questões sobre dinheiro. Sou uma pessoa simples que se aborrece facilmente quando se trata de falar sobre dinheiro, ainda mais quando não é o meu dinheiro. Os meus interesses são outros. Recentemente, aprendi a cozinhar e, se tivesse oportunidade, gostaria de matricular-me numa escola de hotelaria para aprender mais sobre sobremesas e sanduíches gourmet. No entanto, isso não é possível. Não posso abandonar um emprego arranjado pela minha mãe. É provável que ela tenha cobrado muitos favores para eu poder estar a trabalhar atualmente nesta instituição. Não posso desiludi-la. Nem voltar para a casa dela.
A menos que… use a técnica Rubiales para me pôr a andar dali para fora. É isso mesmo! Na segunda-feira, quando chegar à agência, vou pedir para falar com a gerente do balcão. Invento um assunto qualquer para falarmos que faça com que tenhamos de ficar fechados no seu gabinete durante algum tempo, e quando estiver para sair da reunião, levanto-me repentinamente, aproximo-me dela e afinfo-lhe um linguadão. Ela, certamente, ficará incrédula com o meu gesto e acusar-me-á de assédio sexual. Como não é habitual eu ter reuniões com a gerente, tenho a certeza de que os meus colegas vão ficar a olhar através das paredes de vidro para ver o que se passa no gabinete e, assim, testemunharão tudo. Serei despedido com justa causa e impedido de voltar a trabalhar num banco, ou mesmo com pessoas em geral. Como não fui apanhado a roubar ou a incentivar clientes a investir as suas poupanças em investimentos arriscados, posso ficar descansado em relação à opinião que a minha mãe terá de mim; ela sabe que sou mulherengo desde os tempos em que jogava basquetebol e até acha alguma piada a essa faceta. Tenho a certeza de que não ficará chateada comigo. Com sorte, até patrocinará o meu curso de culinária.
Nunca pensei que o machismo pudesse ser-me tão útil.
Bem, já tenho algo para me entreter amanhã quando chegar ao trabalho. Se, entretanto, não voltar a escrever-vos, é porque fui preso, ou a minha gerente apaixonou-se por mim e serei obrigado a fugir da cidade.

Quando éramos crianças, todos tínhamos o sonho de um dia desempenharmos uma determinada profissão. Eu queria ser informático. Esse desejo surgiu devido à má vontade dos meus progenitores em não per…

Centenários Antecipados A empresa Izidoro decidiu comemorar o seu centésimo aniversário no ano em que completa noventa e...
24/08/2023

Centenários Antecipados

A empresa Izidoro decidiu comemorar o seu centésimo aniversário no ano em que completa noventa e cinco anos de existência. Atingir um século de atividade é um feito ao alcance de poucas empresas, e como tal, para não correrem o risco de ficar de fora desse grupo restrito, a marca decidiu antecipar os festejos do seu centenário. A marca de produtos de charcutaria e de origem vegetal (desde que foram ameaçados por 3 alunos da Escola Artística António Arroio), está de parabéns e isso é que interessa. Não só pelos seus noventa e cinco anos, mas também por se propor a reformar a ideia de ser velho. Ser idoso entroncava-se com a sabedoria, depois passou a ser sinal de despesa e aborrecimento. E nada como uma bela salsicha para mudar, novamente, o paradigma da velhice. Quem sabe no futuro não vejamos uma marca de pneus a mudar o paradigma dos carecas?

Na minha família também temos o hábito de anteciparmos as celebrações dos aniversários. A minha prima, por exemplo, influenciada pelos Morangos com Açúcar, fez com que os meus tios celebrassem o seu décimo oitavo aniversário, quando fez doze anos. A ideia de atingir a maioridade estava tão presente nas intenções da miúda que os pais tiveram de comprar-lhe um Opel Corsa de 2003, que permaneceu parado na garagem durante seis anos. Quando finalmente fez dezoito anos, os meus tios viram a sua estimada filha a vender o carro para os ajudar a pagar a dívida que tinham contraído para lhe oferecer um T1 em Telheiras, quando completou 15 primaveras. Não foi um grande ajuda, todavia, o que conta é a intenção. O meu avô, há uns anos, também foi convidado pelos filhos e pela esposa para a festa do seu octogésimo aniversário, no dia em que completava setenta e oito anos. Foi um evento muito giro. Contou a presença dos familiares mais chegados, dos ex-colegas do trabalho e com uma deliciosa cabeça de porco como prato principal; cabeça essa que continha um rosto muito semelhante ao que o meu avô apresentou durante toda a festa. No mesmo dia, a minha prima aproveitou para anunciar que se ia divorciar do rapaz que tinha conhecido na noite anterior, no Lux. Foi o único momento do dia que vi o meu tio a expressar um sorriso. Espero que a minha família nunca abandone esta tradição.

O slogan da campanha do centenário da marca, no ano em que completa noventa e cinco anos de existência, é “todos nós precisamos de celebrar”. E é verdade, a menos que paguemos quinhentos euros por um quarto na Penha de França; nesse caso, é melhor descansarmos um pouco. Celebrar faz com que nos esqueçamos dos problemas que nos atormentam, como, por exemplo, a idade; o que acaba por ser contraditório. Não tenho nada contra a incoerência, devo dizer. A questão é: como vamos celebrar? Não sei. A Mãe Kikas, entretanto, reformou-se. Porém, nem tudo são más notícias, tenho uma sugestão: não seria interessante a marca adicionar alguns elementos químicos, como cafeína, glucuronamida e ácido ascórbico (algo como um Guronsan), à composição dos seus produtos (torna-los numa espécie de Guronsan)? Assim, a Izidoro assegurava-se que todos os seus clientes podiam seguir, literalmente, a sugestão deixada pelo slogan da sua campanha, sem sofrerem, no dia seguinte, as consequências físicas e psicológicas de uma típica celebração. Evitando deste modo, o surgimento de reclamações, como aconteceu, por exemplo, com os clientes da Red Bull que esperam, até hoje, pelo crescimento de um par de asas na zona dorsal do seu corpo. Esta inovação na composição dos produtos, também podia alargar a população alvo da marca; podiam continuar a patrocinar festivais de música, mas em vez de andarem por lá a distribuir brindes a bêbados, davam-lhes antes uma lata de salsichas. Um comportamento que iria provocar uma grande satisfação nos felizardos que aceitassem a lata, no dia seguinte, claro. A isto chama-se Responsabilidade Social, meus caros.

Feliz aniversário, Izidoro.

A empresa Izidoro decidiu comemorar o seu centésimo aniversário no ano em que completa noventa e cinco anos de existência. Atingir um século de atividade é um feito ao alcance de poucas empresas, e…

Tecnologias e coisas associadas O novo sistema operativo da Apple, o iOS 7, a ser lançado em setembro, virá com uma func...
17/08/2023

Tecnologias e coisas associadas

O novo sistema operativo da Apple, o iOS 7, a ser lançado em setembro, virá com uma funcionalidade especialmente útil para os condutores. Não se trata de uma aplicação que nos permita agredir fisicamente um condutor de outro veículo que nos tenha ultrapassado perigosamente, sem sairmos do nosso carro. Também não é uma aplicação que mude ou repare um pneu autonomamente. Mas sim, uma funcionalidade que, através do Visual Look Up, nos permitirá reconhecer objetos simplesmente apontando a câmara do telemóvel. Isso possibilitará que saibamos o significado dos símbolos que aparecem no painel de controlo e no tablier do carro. Devo admitir que não esperava um avanço tecnológico deste calibre. Após termos colocado o Homem na Lua e de termos conectado os quatro cantos do mundo através da internet, surge agora uma aplicação que nos poupa o esforço mental de ler o manual de instruções do carro.
Para quem não sabe, o “livrinho” que costuma estar guardado no porta luvas, juntamente com os documentos do carro, a carta do seguro e a nove milímetros, é o manual do carro. Este livro é muito útil para quem deseja saber mais sobre o funcionamento do veículo e para aqueles momentos em que a bateria do telemóvel acaba e não temos nada com que nos entreter enquanto esperamos numa fila de uma bomba de gasolina, prestes a sofrer um aumento significativo no preço dos combustíveis. No entanto, é verdade que o manual do carro está a tornar-se obsoleto. Felizmente, o inventor desta aplicação decidiu partilhar a sua invenção com os outros. Depois do flagelo que foi termos de ler Os Maias no ensino secundário, chegou o momento de sermos poupados para o resto da vida. Se esta aplicação tivesse existido há alguns anos, teria sido muito mais simples e rápido compreender o conceito de incesto, e talvez até tivesse evitado que o meu cão tentasse acasalar várias vezes com a sua irmã, na minha sala de estar — algo que, curiosamente, o Afonso da Maia também não conseguiu evitar, o que me deixa com menos peso na consciência.
Na minha opinião, a nova funcionalidade da Apple que mencionei anteriormente deveria ser estendida a outros contextos. Por exemplo: revelar quem está a dizer a verdade no caso Marquês, quando é que as taxas de juro vão descer ou para identificar qual é o funcionário das finanças mais paciente para nos atender — encontrar um funcionário das finanças bem-disposto na Linha de Sintra não é tarefa fácil. Bastaria apontar a câmara do telemóvel para o objeto em questão e o mistério estaria resolvido. Se Deus Nosso Senhor me conceder saúde, talvez um dia testemunhe este avanço tecnológico.
A Apple anunciou que o seu novo iPhone 15 trará novidades que prometem revolucionar o mercado dos smartphones, como a inclusão de dois ecrãs (segundo os rumores), mais botões e um preço acessível (este último ponto é falso). Por sua vez, as empresas de tecnologia a operarem em Portugal, divulgaram, hoje, que deixarão de pagar horas extraordinárias com dias de folga (esta última frase apresenta conteúdo falso). Uma medida que veio provocar-me um enorme transtorno, dado que já tinha acordado com a minha contabilista que este mês lhe pagaria os serviços prestados com folgas (esta última frase apresenta conteúdo verdadeiro, mas que infelizmente não se concretizou).
Espero que o novo smartphone e o sistema operativo que a Apple está prestes a lançar tenham muito sucesso e que, no futuro, se encontrem maneiras de lidar com o incómodo de ter um telemóvel que recebe chamadas (Este último parágrafo apresenta conteúdo sincero da autoria da minha avó; distraí-me e quando dei por isso, ela já tinha assumido o controlo do teclado do computador, peço desculpa).
A Apple anunciou que o seu novo iPhone 15 trará novidades que prometem revolucionar o mercado dos smartphones, como a inclusão de dois ecrãs (segundo os rumores), mais botões e um preço acessível (este último ponto é falso). Por sua vez, as empresas de tecnologia a operarem em Portugal, divulgaram, hoje, que deixarão de pagar horas extraordinárias com dias de folga (esta última frase apresenta conteúdo falso). Uma medida que veio provocar-me um enorme transtorno, dado que já tinha acordado com a minha contabilista que este mês lhe pagaria os serviços prestados com folgas (esta última frase apresenta conteúdo verdadeiro, mas que infelizmente não se concretizou).

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O novo sistema operativo da Apple, o iOS 7, a ser lançado em setembro, virá com uma funcionalidade especialmente útil para os condutores. Não se trata de uma aplicação que nos permita agredir fisic…

Taxas de Juro e a Despedida dos Peregrinos As taxas de juro voltaram a subir. Esta foi a nona subida no espaço de um ano...
06/08/2023

Taxas de Juro e a Despedida dos Peregrinos

As taxas de juro voltaram a subir. Esta foi a nona subida no espaço de um ano. Com este aumento, o BCE fixou a taxa permanente de depósitos em 3,75%, o valor mais elevado dos últimos vinte e dois anos. No entanto, estamos na semana em que o Papa decidiu aparecer por cá. Não quero ver ninguém desanimado! “Deus dá com uma mão, mas tira com a outra”, sempre ouvi dizer. A menos que seja cumprimentado pelo nosso Presidente Marcelo; nesse caso, arrisca-se a executar apenas uma das ações, dado que não terá membros superiores para realizar a ação contrária. Está na hora de alguém dizer ao Marcelo que não se pode cumprimentar um octogenário com aquela robustez, mesmo que se trate de alguém que lidera um grupo de indivíduos que têm por hábito cumprimentar crianças com protuberâncias robustas. Felizmente, correu tudo bem e o Papa estará presente no Parque Eduardo VII, íntegro, com eloquência e na companhia de duas profissionais do s**o que se disponibilizaram para lhe mostrar os cantos à casa.

Agora, com as taxas de juro a aumentar e as pessoas a entrar em incumprimento nos pagamentos dos créditos à habitação, é óbvio que o nosso governo irá providenciar medidas para auxiliar as famílias neste momento delicado, a fim de que não percam as suas casas. Estou a brincar; em princípio, eles não tomarão nenhuma medida relevante, pelo menos. Além disso, estão as férias a aproximar-se, os familiares vindos de fora e os incêndios que também provavelmente quererão manifestar-se. Portanto, o melhor é começarmos a empacotar as coisas de casa e a pensar num local acolhedor para pernoitar. A minha prima Júlia já iniciou o processo de empacotamento dos seus pertences há uma semana e está radiante. Nunca pensou que, ao mudar-se para a garagem dos sogros, encontraria tantas fotografias do marido quando ainda tinha cabelo. Entretanto, comprou dois beliches para acomodar a família, um fogão a gás e três botijas de oxigénio. Segundo a Júlia, isso deve ser suficiente para aguentarem até que a inflação baixe. Por seu turno, o meu antigo vizinho, Moisés, que se mudou para um barracão durante a pandemia, ligou-me a dizer que ocupou o barracão ao lado para receber uns peregrinos durante esta semana e está a equacionar derrubar as paredes que os unem para ampliar a sua habitação; o seu único receio é não encontrar uma lona suficientemente grande para cobrir a falta de telhado nos dois barracões. Mas nada disso afeta a sua boa disposição e a qualidade de vida que tem aproveitado nos últimos anos. Grande Moisés! Tenho saudades de ser vizinho deste tipo.

Agora, se considerarmos unir o útil ao agradável, apresento-vos uma proposta um tanto excêntrica, mas que poderá ajudar as famílias que se veem impossibilitadas de pagar os seus créditos à habitação a terem um teto onde dormir: aproveitar as estruturas montadas nas escolas, pavilhões desportivos e igrejas para receber os peregrinos das Jornadas Mundiais da Juventude e canaliza-las para acolher os endividados. Sustentabilidade e pragmatismo seriam os pilares desta proposta. Se as famílias obrigadas a abandonar as suas casas devido ao aumento das taxas de juro fossem acolhidas nas escolas e pavilhões, muitos dos seus problemas diários deixariam de existir: redução das despesas mensais; possibilidade de estudar, fazer a catequese ou praticar uma modalidade desportiva à noite, após deitarem os seus filhos; entre outras vantagens. Para aquelas famílias que gostam de acampar, também poderíamos aproveitar a estrutura do palco milionário para receber as tendas dos endividados; teriam ali um espaço agradável, um belo jardim circundante e sombras, que, como sabem, são essenciais para quem gosta de acampar.

Bem, é altura de nos despedirmos dos nossos estimados peregrinos que nos trouxeram tanta esperança, alegria e cheiro a suor, e dar as boas-vindas aos novos proprietários de imóveis penhorados.

(Costa, não te esqueças de mencionar o meu nome quando colocares em prática a minha proposta para o aumento das taxas de juro. Sou um artista, vivo dos direitos de autor).

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Jornadas Mundias da Juventude Seria injusto falar das Jornadas da Juventude e não referir os mais de 4800 abusos se***is...
02/08/2023

Jornadas Mundias da Juventude

Seria injusto falar das Jornadas da Juventude e não referir os mais de 4800 abusos se***is na Igreja Católica ao longo de sete décadas, anunciados pela comissão independente. O concelho de Lisboa é a cidade onde se verificou mais casos de abuso sexual. O Papa Francisco viu Lisboa como o local ideal para receber as Jornadas Mundiais da Juventude, da mesma forma que milhares de padres viram a cidade para iniciarem as mais constrangedoras e repugnantes jornadas da Igreja Católica portuguesa. Já que estamos no verão, sugiro que os nossos governantes acompanhem o raciocínio de Sua Santidade e que no próximo ano tenham a ousadia de celebrar o Dia Mundial da Criança no Resort da Praia da Luz. No entanto, aproveito para tranquilizar os mais inquietos: as jornadas da juventude decorrerão durante o dia, num espaço público e sob os holofotes da comunicação social de todo o mundo. Não se preocupem. Aparentemente, os inconvenientes provocados por este encontro são apenas o corte de algumas estradas cruciais para a circulação de quem trabalha no centro da cidade, os restaurantes repletos de peregrinos com bolhas nos pés e um aroma intenso a água benta e hóstias de camarão, que ameaça arreliar até os apreciadores de quadros de parede com a imagem de Jesus da Nazaré, frequentadores de restaurantes de cozinha chinesa, aos domingos.

Quem não está contente com a vinda do Papa, para além daqueles que não verão os seus crimes perdoados, é a minha mãe, como empresária do ramo do turismo. Embora seja apologista destes eventos de grande dimensão, a minha progenitora não gosta da sua duração. Defende que os eventos deveriam durar menos tempo, para não condicionarem a circulação dos turistas. Segundo as suas palavras apreensivas: “se estes crentes decidirem ficar por cá, corremos o risco de não ter espaço para receber os turistas que estão para vir. Às palavras da minha mãe, acrescento um pedido ao senhor Moedas: conseguiram correr com os jovens portugueses e com os idosos de Lisboa, mas não nos tirem um mês de verão com turistas. Como terá a minha mãe condições para gerir cinco lojas de artesanato local, sete tuk-tuk’s e duas barcaças de passeio se durante um mês se, entre as sete colinas, tivermos o mesmo grupo de beatos a passear terços na Avenida da Liberdade e a beber sumos de laranja à porta dos supermercados? É imperativo encontrar uma forma de compensar os empresários do ramo do turismo por este inconveniente que trará consequências incalculáveis.

As Jornadas da Juventude são, se repararem com atenção, idênticas às Jornadas Parlamentares que os partidos políticos organizam ao longo do ano. Em ambos os casos, temos um encontro, numa cidade escolhida pelas lideranças do grupo, que abriga pessoas de vários pontos do mundo (ou regiões do país) que representam uma determinada ideologia cujo principal objetivo é falar sobre assuntos triviais, enaltecer o poder alcançado ao longo dos tempos e, quiçá, pernoitar em co**ha com a colega de Leiria, que só têm a oportunidade de ver em eventos como estes. Lamento nunca ter participado em nenhum evento semelhante aos referidos. Contudo, fico radiante por saber que os meus impostos contribuíram para o divertimento dos demais envolvidos. Não seria coerente da minha parte criticar a forma como estes eventos são financiados. Recordo-me com certa nostalgia dos meus tempos de festivaleiro: dormir em tendas de desconhecidos, falar dos meus sonhos e ambições enquanto fumava um charro do tamanho do Shaquille O’neal. Bons tempos. E a verdade é que se não fossem os fundos disponibilizados pelos meus pais, nunca teria tido a oportunidade de experienciar tal coisa.

Espero, sinceramente, que as jornadas corram bem, que ninguém se aleije e que finalmente reconheçamos que não somos um Estado Laico sem qualquer pudor.

O Papa Francisco viu Lisboa como o local ideal para receber as Jornadas Mundiais da Juventude, da mesma forma que milhares de padres viram a cidade para iniciarem as mais constrangedoras e repugnan…

Ironia e corrupção É refrescante ligar a televisão e ser informado de que altos responsáveis da Altice Portugal estão a ...
26/07/2023

Ironia e corrupção

É refrescante ligar a televisão e ser informado de que altos responsáveis da Altice Portugal estão a ser investigados por suspeitas de corrupção. São dias como este que sinto o quão sou importante para o universo; o quanto este infinito espaço conspira a meu favor para poder ter um tema novo e familiar sobre o qual escrever. Gostava de partilhar convosco a minha posição sobre o tema da corrupção, muito influenciada pela experiência do meu primo Albano.
Este meu familiar, durante muitos anos, gozou de uma relação profunda com a corrupção. Era conhecido na aldeia como “Albano das Inspeções”. A sua arte consistia em transformar carros com deficiências em carros com a inspeção regularizada, prontos a circular na via pública, em apenas 10 minutos e a troco de 50 euros. Ao fim de dez anos, a sua relação com a corrupção terminou e o meu primo foi despedido e condenado a dois anos de prisão com pena suspensa. Passado uns tempos, soube que o antigo homem das Inspeções tinha arranjado emprego num supermercado perto da sua casa. A reconciliação do Albano com a corrupção não tardou a acontecer. Após se estabelecer como empregado de caixa exemplar, começou a não registar todos os produtos que os seus amigos iam adquirir ao supermercado; em cinco produtos, só registava dois. Em compensação, os seus amigos levavam produtos do supermercado para o meu primo, que depois os revendia nas mercearias da aldeia. Quando o Albano foi despedido após o segurança do supermercado ter descobrido o seu esquema, a minha tia Lurdes teve um princípio de trombose, mas antes, confrontou o seu filho com a tendência deste para ser envolver com a corrupção. O Albano, perspicaz como era seu timbre, não se deixou afetar pelas palavras nem pelo estado de saúde da sua mãe e respondeu-lhe: “o problema não está em mim, está nas pessoas honestas que não percebem que teriam muito mais a ganhar se se enamorassem com a corrupção”.
Ora, depois de alguma reflexão, concluo que a proposta do meu primo Albano é bastante sensata e de tentadora adesão. Se todos nós formos corruptos, a corrupção deixa de ser discriminada. O mesmo se aplica ao álcool: se todos formos bêbados, já ninguém se sentirá mal por tentar entrar numa casa que não é sua depois de uma noite de copos com os amigos. É possível que a solução para a corrupção passe por despenalizar o recurso à mesma e acabar de vez com os sonsos dos honestos que ainda acreditam que existe um paraíso à sua espera quando falecerem; como diz o meu primo: “não corrompem nem deixam corromper; só estorvam quem quer fazer o seu pé de meia”. É devido aos honestos que o nosso país não anda para a frente, sou levado a crer.
Quem já chegou à mesma conclusão que o meu primo Albano foi o Rui Rio. Vejam como ele reagiu às buscas na sua casa por suspeitas de corrupção: com ironia. Uma ironia idêntica àquela que utilizamos quando somos confrontados por alguém que diz algo demasiado óbvio sobre nós: “Uma besta, eu? Não… até me ofereci para ir tratar da burocracia à funerária quando o teu pai faleceu após o ter atropelado numa passadeira… não entendo o porquê dessas considerações sobre a minha pessoa, Fernando”. Dada a minha admiração pela ironia, tenho pena que não tenhamos tido acesso às reações do Ricardo Salgado e do Sócrates quando estes também viram as suas casas revistadas pela PJ. Creio que perdemos uma sessão de elevada eloquência linguística, que poderia servir de inspiração para muitos futuros corruptos. Onde andava a comunicação social quando mais precisávamos dela?
Bem sei que, caso a despenalização da corrupção andasse para a frente, o pé de meia do meu primo Albano comparado com o do Armando Pereira seria como umas palmilhas tamanho 35 nos sapatos de Gulliver. Contudo, também não podem querer que os problemas sociais deste país se resolvam todos de uma só vez. Primeiro, eliminamos os honestos e permitimos que toda a gente possa corromper à sua vontade sem ser marginalizada por isso, depois logo trataremos de analisar quais serão as medidas mais adequadas a tomar para equilibrar a balança das desigualdades sociais — se calhar, começar por colocar os mais pobres a fazer companhia aos honestos não fosse uma má ideia —, mas vamos deixar isso para outra altura. Calma. Como diz o outro, “Lisboa não se reconstruiu num só dia”.
Bem sei que, caso a despenalização da corrupção andasse para a frente, o pé de meia do meu primo Albano comparado com o do Armando Pereira seria como umas palmilhas tamanho 35 nos sapatos de Gulliver. Contudo, também não podem querer que os problemas sociais deste país se resolvam todos de uma só vez. Primeiro, eliminamos os honestos e permitimos que toda a gente possa corromper à sua vontade sem ser marginalizada por isso, depois logo trataremos de analisar quais serão as medidas mais adequadas a tomar para equilibrar a balança das desigualdades sociais — se calhar, começar por colocar os mais pobres a fazer companhia aos honestos não fosse uma má ideia —, mas vamos deixar isso para outra altura. Calma. Como diz o outro: “Lisboa não se reconstruiu num só dia”.

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Jeitinhos, Jeitaços, JeitõesNo meu tempo, os professores eram exigentes; até demais. Mas acabavam por dar um “jeitinho”,...
16/07/2023

Jeitinhos, Jeitaços, Jeitões

No meu tempo, os professores eram exigentes; até demais. Mas acabavam por dar um “jeitinho”, quando precisávamos. Recordo-me de uma história contada pelo meu tio, quando andava no Liceu, que exemplifica na perfeição esta afirmação: um dia, na aula de Ciências, o António, que se encontrava tapado por faltas, após receber das mãos da professora um teste com nota negativa, reagiu espontaneamente, dizendo:”. Foda-se!”. Perante o vernáculo, a professora repreendeu o António e expulsou-o da sala. Este, consciente de que, indo para a rua, iria chumbar por faltas, desatou um longo e penoso pedido de desculpas à professora, repleto de arrependimento e promessas.
O pânico manifestado pelo António sensibilizou de tal forma os colegas que até os mais atinados decidiram interceder a seu favor junto da mestra, pedindo-lhe que perdoasse aquela falta disciplinar e evitasse assim que o António chumbasse à disciplina. A professora, numa primeira instância, não cedeu em nada do que já havia decidido. Porém, após ser assediada pela turma toda com um tão veemente pedido de clemência para com o António, lá voltou com a sua decisão atrás, retirando-lhe a falta. Mas disse-lhe: “Só te perdoo esta falta porque gostei da forma como os teus colegas se mobilizaram para te ajudar. Caso contrário, estarias chumbado! É a tua última oportunidade!” — esta era uma professora que, claramente, se emocionava quando via o Salgueiro Maia na televisão.
Bom, na aula seguinte ao sucedido, outro aluno foi expulso da sala devido ao seu mau comportamento. Ao retirar-se da sala, deixou a porta a aberta. Como o António se sentava próximo da saída, a professora pediu-lhe que a fechasse. O António, que depois do sucedido na aula anterior se apresentava em sala de aula com uma garimpa acima do que era habitual, decidiu aceder em grande ao pedido da professora: levantou-se da cadeira e aplicou um pontapé rotativo na porta, fazendo com que esta se fechasse com um enorme estrondo. Todos na sala se assustaram, incluindo a professora, que imediatamente expulsou da aula também o António.
Resumindo: a professora deu o chamado “jeitinho”; todavia o António era parvo. Presentemente, os professores deixaram de dar “jeitinhos” para passarem a dar “jeitaços”. Veja-se o que aconteceu em alguns colégios do Ensino Privado: alunos com notas inflacionadas; 40% das notas são de 19 e 20 valores. De facto, os professores deixaram de dar “uns pozinhos” nas avaliações finais dos alunos, para estes conseguirem passar à sua disciplina, para neles começaram a injetar quilos de co***na, a fim de que lhes seja possível ingressar em Medicina ou em Finanças. Já no Ensino Público, não se verifica a injeção de dr**as nas notas dos alunos (até ver), mas sim a aplicação de pacemakers, para que estes não fiquem retidos nos anos escolares que frequentam; mesmo que já tenham desistido de aprender os conteúdos programáticos definidos para aquele ano letivo.
As estratégias utilizadas tanto pelas escolas privadas como pelas escolas públicas dão um “jeitão” ao governo: quantos mais alunos saírem do Ensino Secundário, mais alunos terão as universidades. Quantos mais alunos frequentarem as universidades, mais licenciados o País terá. Quantos mais licenciados, mais mão-de-obra qualificada haverá, logo, verificar-se-á um aumento nas importações.
Em Portugal, os licenciados ganham menos do que um mineiro no Chile. Portanto, será que vale a pena um professor perder a sua dignidade a injetar dr**as ou a colocar pacemakers em alunos, para depois estes chegarem ao mercado de trabalho e não conseguirem auferir um ordenado digno? Eu acho que sim. Quantas vezes assistimos àquele número espetacular no supermercado protagonizado por um pai e um filho, em que o filho quer levar a loja toda quando, afinal, o pai só precisa de comprar um desentupidor de canos? Muitas! Quem é que leva sempre a melhor? O filho. Porquê? Porque, se o pai colocar os pesos na balança, constatará que mais vale comprar um s**o de bullycaos e quinze pacotes de gomas do que ouvir o filho a chorar a tarde toda e correr o risco de chegar a casa e não conseguir justificar o sucedido à mulher, acabando por ter de jantar arroz de trombas.
Está na altura de os professores aprenderem com os pais: mais vale um aluno e o Ministério satisfeitos do que correr o risco de se tornar, eternamente, o secretário que redige a ata dos Conselhos de Turma.

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De facto, os professores deixaram de dar “uns pozinhos” nas avaliações finais dos alunos, para estes conseguirem passar à sua disciplina, para neles começaram a injetar quilos de co***na, a fim de …

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