19/05/2026
ESTRATÉGIAS DE SOBREVIVÊNCIA – TRADIÇÕES
ALIMENTARES NA MADEIRA
A Galeria Anjos Teixeira promove uma nova iniciativa no âmbito da programação “História com estórias”, como forma de assinalar os 50 Anos da Autonomia, desta feita abordando as “Estratégias de Sobrevivência – Tradições Alimentares na Madeira”, evento cultural que está agendado para o próximo dia 28 de maio, pelas 19h, à Rua João de Deus nº 12, no Funchal.
Qualquer observação atenta dos usos específicos das populações de menores recursos económicos leva à constatação da existência de produtos alimentares quase desconhecidos e que se situam à margem dos hábitos normais. Esses produtos alimentares, geralmente vegetais, constituem uma importante solução em períodos de fome e, afinal, muitas vezes são eles que permitem a sobrevivência de boa parte da população, e, como recurso extraordinário são objeto de algum grau de secretismo por parte dos seus utilizadores, o que contribui para que sejam geralmente ignorados pelas
classes mais favorecidas economicamente, que os veem com intenso desdém.
Porém, nos tempos mais recentes essas práticas têm vindo a ser “redescobertas” e até aproveitadas a nível gastronómico, sendo imperioso o seu estudo.
Na zona continental do nosso país podem mencionar-se, por exemplo, os “espargos bravos”, as “túberas”, os “míscaros” e outros tipos de cogumelos ou as beldroegas, entre muitos outros. Este fenómeno verifica-se também ao nível da Região Autónoma da Madeira e, por isso, ao comemorarem-se os 50 anos da Autonomia é fundamental chamar a atenção
para este tipo de tradições populares que contribuíram para o moldar das características
especificas desta Região e do seu povo.
De entre os alimentos utilizados pelos mais pobres na luta pela sobrevivência podemos focar, desde já, alguns exemplos respeitantes à Madeira, destacando-se, a “farinha de raiz de feiteira” - analisada por João Adriano Ribeiro em artigo publicado no DN de 8/7/1992 - ou a “norça”, já focada no séc. XVI por Gaspar Frutuoso ou ainda o “perrigil” no Porto Santo.
A importância das cíclicas e repetidas crises de fome desde o início do povoamento da Madeira foi exemplarmente estudada por Rui Nepomuceno no seu livro, As Crises de Subsistência na História da Madeira, e, portanto, a evocação das estratégias destinadas a combatê-las, constitui uma fundamental e imprescindível homenagem ao povo da Madeira e à sua capacidade para ultrapassar essas crises. Além disso, a nível da gastronomia, existe uma recente tendência para a
utilização de produtos originais e dotados de características regionais, num aspeto que interessa especialmente aos restaurantes e demais agentes turísticos da Madeira.
Esta iniciativa na Galeria Anjos Teixeira será coordenada pelo Dr. João Lizardo, que convidará outros participantes para intervir neste encontro. O Dr. João Lizardo, no exercício da sua atividade profissional de advogado contactou intensamente
com as populações rurais da Ilha da Madeira no âmbito dos processos para a extinção da colonia, a que acresce o seu interesse e a autoria de publicações sobre temas históricos.