O Balcão Cristal é o nosso poiso. É o nosso coração. É o nosso pulmão. É a nossa respiração. É um espaço de toda a Cidade do Funchal e aberto a todas as propostas que possamos acolher. A propriedade, sita à Rua de Santa Maria, 206, foi cedida, pela Câmara Municipal do Funchal, em março de 2016 à Teatro Feiticeiro do Norte, por contrato de comodato. A inauguração oficial deu-se no dia 29 de outubro
de 2016. Embora seja um espaço com dois andares, tem o tamanho mínimo para que possamos regressar a casa sem que jamais percamos a visão de itinerância e de viagem pelo mundo. Para além do propósito - nenhum maior que outro - de acolher a Teatroteca Fernando Augusto e de ser o espaço de logística, ensaios e de apresentações das criações da TFN (estas últimas, sempre que se revelem possíveis e, naturalmente, dentro das condições exigidas pela lei), ao assumir-se a responsabilidade de gerir um espaço, pretende-se a sua dinamização, dentro da malha urbana em que se insere, em diálogo com a mesma e com todos os agentes pertinentes que a fazem, para fins culturais por parte da TFN com a sua programação, sem absoluto prejuízo de acolher, naturalmente e como nos propomos outras iniciativas de carácter cultural que não apenas das área das artes performativas - e isto é para nós fundamental. Todo o trabalho logístico na dinamização do Balcão é um processo moroso e desmedido que, ao olhar público, veste-se de labuta invisível. Estamos em contínuo diálogo, aferindo e apalavrando com realidade local e nacional possibilidades de interacção, sempre no sentido de melhor servir o Funchal e a Região Autónoma da Madeira no tocante à criação artística. Não ousamos pretender que o Balcão Cristal seja um ‘teatro’, até porque pelas suas características não o pode de todo, mas, talvez antes de tudo, um lugar de convivialidade, acolhimento e, passe a veleidade, de produção de pensamento. De resto, a este intento, nada estamos a inventar, refira-se que muitos modelos de possibilidades de ‘programação’ nos inspiram e já existem, como o da Comédias do Minho e o da Mala Voadora Porto (que vão mais além do facto de serem ‘companhias de teatro’). Não quer isto dizer que os imitemos - que os imitaríamos mal e não faria sentido a réplica - mas são uma base que nos alicerça e inspira. Salvaguardadas as distâncias em que os projetos citados se inscrevem e se desenvolvem e até mesmo os seus meios, não deixam os mesmos de nos nortear ainda que não nos coíbam, de todo, de saber que o lugar pede sempre não apenas um modelo que se julga ser o perfeito, mas antes a atenção ao que ao mesmo pode dar e que será sempre novidade e talvez venha a servir de modelo não estanque para outros propósitos. Pelo acima exposto, é perene na nossa memória a seguinte frase de Rigo 23: «(...) O movimento, o movimento, em direção a uma cultura mais forte, mais pujante, não pode ser uma corrida a 'qual é o primeiro a chegar aquilo de bom que se faz lá fora?'. A ideia de cultura, aqui na Madeira, é, um pouco, qual é o primeiro a chegar aquilo de bom que se faz lá fora? Quando aquilo, bom que se faz lá fora... nada se faz lá fora, na verdade... Tudo se faz cá dentro... d'algum lugar. E acho que a nossa corrida não deve ser a ver qual é o primeiro a chegar aquilo de bom que se faz lá fora, mas qual é o primeiro a fazer alguma coisa, cá dentro, que 'os de lá de fora' querem ver. Que 'os de lá de fora' querem ouvir, que 'os de lá de fora' querem ler…»*.
* Rigo 23, Artista Plástico, Ativista, a 17 de abril de 2012 (depoimentos filmados em junho de 2010 e agosto de 2011) no programa Madeira Cultura, Episódio 18 (exibido na RTPM), uma Produção da Delegação Regional da Madeira da Ordem dos Economistas no contexto da VI Conferência Anual do Turismo.