16/06/2026
"O Mistério da Culpa Perdida"
Na Costa da Caparica existe um fenómeno extraordinário que merecia estudo científico. Sempre que acontece um problema, um incêndio ou mais um episódio de degradação, a culpa entra num nevoeiro tão denso que desaparece sem deixar rasto.
Os cidadãos perguntam: "Quem é responsável?" E a resposta chega rápida: "Foi o Polis." O Polis responde, a Câmara responde, outros respondem, e a culpa faz uma viagem turística entre gabinetes, relatórios e comunicados. No fim, todos falam e ninguém é o pai da criança.
Entretanto, os apoios de praia vão envelhecendo, alguns ardem, outros degradam-se, e o dinheiro público continua a circular com a elegância de um banhista em agosto. A manutenção parece ser uma espécie de lenda urbana: toda a gente já ouviu falar dela, mas poucos a viram.
O mais fascinante é a capacidade de gestão invisível. Quando há inaugurações, fotografias ou cerimónias, aparecem responsáveis por todo o lado. Quando há problemas, a velocidade com que desaparecem as responsabilidades faria inveja a qualquer campeão olímpico.
Talvez exista um novo modelo administrativo na Costa da Caparica: a gestão sem gestor, a responsabilidade sem responsável e a fiscalização sem fiscalizador. Um sistema tão moderno que ninguém percebe quem manda, mas todos sabem quem paga.
E assim seguimos, entre incêndios, explicações vagas e promessas de que "serão apuradas responsabilidades". Uma frase tão antiga que já devia ser considerada património local.
No final, sobra sempre a mesma pergunta: se todos dizem que a culpa é dos outros, quem está realmente ao leme? Ou será que o barco navega sozinho enquanto os contribuintes pagam o combustível? Afinal, na Costa da Caparica, o verdadeiro apoio de praia parece ser o apoio à transferência de responsabilidades. Isso, sim, funciona sem falhas.