22/12/2025
Bem-Haja, AlbiNotícias pela entrevista!
Ao longo de cinco décadas de criação artística, João Robalo construiu um percurso marcado pela cerâmica, pela pintura e por uma forte ligação ao território de Castelo Branco. Nesta entrevista, o artista fala, na primeira pessoa, sobre o seu trajeto, as suas influências, os desafios de criar fora dos grandes centros e os projetos que continuam a dar forma ao seu trabalho.
ALBINOTÍCIAS - Como se apresentaria enquanto artista a quem ainda não conhece o seu trabalho?
JOÃO ROBALO - Enquanto artista sou, João Robalo, ceramista e pintor, certificado pelo CEARTE desde 2003 nas modalidades da cerâmica figurativa, pintura cerâmica e arte do vitral, assim como azulejaria, pintura a óleo e carvão, pintura em porcelana, pintura mural e restauro de antiguidades e arte sacra. Formador no Centro de Formação Profissional de Castelo Branco na área da cerâmica, orientador de artes plásticas na Universidade Sénior de Castelo Branco em 7 polos de freguesias e também no meu ateliê em Castelo Branco. Sou natural de Escalos de Cima freguesia de Castelo Branco e comecei a meter as mãos no barro ainda na escola primária onde ganhei um concurso com o meu primeiro presépio. A partir daí nunca mais parei de evoluir e fiz este ano 50 anos de percurso artístico que comemorei com uma exposição “BARRO E ALMA – A CERÂMICA COMO EXPRESSÃO VIVA” que esteve patente de 2 de agosto a 26 de outubro no Museu Francisco Tavares Proença Júnior em Castelo Branco.
ALBINOTÍCIAS - De que forma a sua ligação a Castelo Branco e à região influencia a sua criação artística?
JOÃO ROBALO - A minha ligação com Castelo Branco e a região contribuiu em muito para aquilo que sou hoje enquanto artista. Sempre fui muito ligado às minhas raízes, à minha aldeia e à natureza pois sempre tive a liberdade de poder explorar os campos onde comecei por recolher o barro com que fiz as minhas primeiras peças: peneirava-o para lhe retirar as impurezas, amassava-o para poder moldar as peças e depois cozia-as no fogo da lareira. Claro que eram peças imperfeitas, mas vendia-as todas porque as pessoas achavam que tinha muito jeito e depois com o dinheiro que realizava ia comprando materiais de pintura e pincéis. Naquela altura, em Castelo Branco não havia lojas onde pudesse comprar material de arte e ia com a minha irmã a Lisboa comprá-lo pois não podia ir sozinho porque ainda era um miúdo.
Atualmente sou um artista conceituado, com trabalhos espalhados um pouco por todo o mundo e já com um cariz muito próprio. As minhas obras têm sido apresentadas em várias exposições quer nacional quer internacionalmente.
ALBINOTÍCIAS - Em que áreas artísticas trabalha e que temas ou preocupações estão mais presentes nas suas obras?
JOÃO ROBALO - As minhas áreas artísticas são sobretudo a cerâmica e a pintura. Seja pintura mural ou em tela. Os temas são variados pois trabalho muito por encomenda e aí vou de encontro ao que o cliente pretende muito embora sempre com o meu cunho pessoal.
Criei ao longo dos anos uma expressão plástica de corpos esguios e de rostos sem traços visuais expressivos, mas que saltam à vista de quem os vê e aprecia, que pinto a óleo ou em azulejo, sendo hoje a minha imagem de marca. É uma linha que desperta muita curiosidade e me tem dado muito prazer desenvolver até em pintura mural, o que prova o apreço de quem me pede este tipo de obra.
As minhas preocupações são acima de tudo, fazer um trabalho com rigor e seriedade, utilizando produtos de qualidade, respeitando o ambiente e com o mínimo de resíduos possíveis. Também crio obras a partir de materiais que encontro na natureza e no mar.
ALBINOTÍCIAS - Que momentos, projetos ou experiências marcaram de forma decisiva o seu percurso artístico?
JOÃO ROBALO - Houve tantos projetos e experiências que me marcaram ao longo destes 50 anos de percurso artístico que seria difícil nomear todos. Mas recordo sempre com grande emoção o momento em que a minha mãe, achando que eu tinha um dom, fez numa divisão de nossa casa o meu primeiro ateliê, tinha eu 10 anos. Outro momento, foi aos 11 anos, a ida da RTP à exposição coletiva na Casa do Povo de Escalos de Cima, onde fui entrevistado para o programa PAÍS REGIÕES.
Muitas exposições se seguiram, mas as que mais me marcaram foi sem dúvida a de Paris numa celebração de Abertura às Artes após COVID numa homenagem ao artista plástico CHRISTO, que morreu devido ao vírus do covid19 e este ano a exposição comemorativa de 50 anos percurso artístico no MFTPJ.
Desfiles e Exposições, destaque para:
Junho de 2015- realizei juntamente com a minha esposa Salete Robalo, na Praça Manuel Cargaleiro, em Castelo Branco, o Desfile Inédito “Atrás da Máscara”, no qual conjugámos moda e cerâmica, com a minha coleção de Máscaras de cerâmica, chamando ao mesmo tempo a atenção para o flagelo da violência doméstica, tendo seguidamente exposto a mesma no Museu Francisco Tavares Proença Júnior em Castelo Branco.
Julho de 2016- Desfile Surpreendente “Atrás da Máscara” em Escalos de Cima e a exposição no Núcleo Etnográfico da Lousa.
Maio de 2021- participei em Paris, com uma obra de minha autoria, juntamente com vários artistas internacionais, numa Celebração, pós-Covid19, de Abertura às Artes e aos Terraços, numa homenagem ao artista plástico CHRISTO, no Espaço Art Paris Divin, Saint Honoré, Champs Elysées.
Sala da Nora em Castelo Branco, exposição As Máscaras de João Robalo “Outras Epidermes da Vida”.
Setembro de 2021- 1º lugar no concurso 7 Estrelas da Arte Contemporânea e Património Histórico Edificado da Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa, com o Mural Colcha de Castelo Branco - Árvore da Vida, símbolo maior do bordado de Castelo Branco, de 9x8mts, em homenagem a todas as bordadeiras da região.
Julho de 2022- A exposição “As Máscaras de João Robalo. Outras Epidermes da Vida” viajou até ao Museu de Renda de Birlos, integrada no programa da Mostra Internacional de Renda de Birlos-Peniche 2022, que esteve exposta até final de outubro.
Arte Mural, destaque para:
“Árvore da Vida” em Escalos de Cima-Castelo Branco, dedicado ao bordado de castelo branco e às bordadeiras, 1º lugar no concurso 7 Estrelas da Arte Contemporânea e Património Histórico Edificado da Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa.
“As Cegonhas”, em Póvoa de Rios Moinhos - Castelo Branco.
“Regadio da Melancia e do Melão” em Ladoeiro - Idanha-a-Nova.
“Resineiros” em Santo André das Tojeiras - Castelo Branco.
“A Forneira” Casa do Forno em Castelo Branco.
“Cristo Resineiro” em Corgas - Proença-a-Nova.
“O Mercado-Raízes de Alcains” em Alcains.
“Vida Académica” em Castelo Branco.
ALBINOTÍCIAS - Como avalia o panorama cultural e artístico da região de Castelo Branco?
JOÃO ROBALO - Para mim, o panorama cultural e artístico da região de Castelo Branco ainda tem muito caminho a percorrer. Apesar de ter muita gente a desenvolver esta área a maioria não tem a visibilidade necessária o que acaba por ser um trabalho mais individualizado e sem espírito comunitário. Precisamos de nos unir e não desvalorizar o trabalho de cada um. A Arte é o caminho da liberdade individual, mas também deverá ser o caminho da criatividade sem rótulos. Talvez seja por isso que o trabalho artístico ainda é visto como um hobby, o que não é verdade pois fazemos da arte, o nosso ganha-pão, com atividade aberta nas finanças e impostos a pagar.
ALBINOTÍCIAS - Quais são os principais desafios de ser artista fora dos grandes centros urbanos?
JOÃO ROBALO - Os principais desafios para um artista fora dos grandes centros urbanos são naturalmente nunca desistir e ser persistente. Criar ou pintar todos os dias e não ter vergonha de mostrar os seus trabalhos mesmo que o critiquem. As críticas se forem construtivas também nos ajudam a evoluir. Aprofundar as técnicas, visitar museus, conviver com a natureza que nos ajuda a descobrir novas tonalidades. Conhecer outras culturas e viajar também é muito importante para as aprendizagens.
ALBINOTÍCIAS - Que projetos está atualmente a desenvolver ou tem previstos para o futuro próximo?
JOÃO ROBALO - A minha cabeça está sempre cheia de projetos, mas neste momento estou a ultimar uns painéis e outros estão para começar. São obras para particulares que me vão ocupar por muito tempo, a par das aulas e formações no CFPCB e USALBI, que me permitem transmitir o meu saber e sinto o maior orgulho com os resultados alcançados, tanto no plano das aprendizagens como no plano da confiança.
ALBINOTÍCIAS - Que conselho deixaria a jovens artistas da região que estão a iniciar o seu percurso?
JOÃO ROBALO - O meu conselho é: trabalhar, trabalhar e nunca desistir!