26/08/2026
Caldas da Rainha
99 anos de cidade
A 26 de agosto de 1927, o Decreto n.º 14 157 elevou a vila das Caldas da Rainha à categoria de cidade. O diploma reconhecia o desenvolvimento alcançado graças à atividade dos seus habitantes, à importância das termas, ao crescimento demográfico e ao florescimento da indústria.
A elevação foi o culminar de um período de afirmação económica, urbana e cultural. Como assinala a historiadora Isabel Xavier, as Caldas procuravam ultrapassar a condição de estância termal marcada pela sazonalidade e afirmar-se como centro urbano e económico entre o sul do distrito de Leiria e o norte de Lisboa. A expansão demográfica, as obras públicas, o comércio, a indústria, a cerâmica, as artes e as exposições económicas regionais contribuíram para essa transformação.
A quinta Exposição Agrícola, Pecuária e Industrial, realizada entre 21 e 28 de agosto de 1927, coincidiu com a elevação a cidade e deu projeção nacional à capacidade produtiva da região. A confirmação da elevação foi conhecida nas Caldas no dia 25, originando manifestações públicas de regozijo que mobilizaram a população, as filarmónicas e os Bombeiros Voluntários. As celebrações prosseguiram no dia seguinte, com uma sessão solene e a presença do Presidente da República, Óscar Carmona.
Este percurso resultou da ação conjunta da Câmara Municipal, da Associação Comercial e Industrial, da Comissão de Iniciativa das Termas, da Gazeta das Caldas e de várias personalidades locais, entre as quais José Saudade e Silva, António Montês, Paulino Montês e Júlio Lopes. Num período marcado pelo movimento regionalista, estas entidades procuraram afirmar as Caldas não apenas como destino termal, mas como centro de comércio, indústria, produção agrícola, turismo, conhecimento e cultura.
As artes desempenharam um papel relevante neste processo. Em 1925, no âmbito das comemorações do quarto centenário da morte da Rainha D. Leonor, José Malhoa aceitou o convite da Associação Comercial e Industrial para pintar o retrato da fundadora. A obra, concluída em 1926, foi apresentada na Casa dos Barcos, no Parque D. Carlos I, numa iniciativa que contribuiu para a aproximação do pintor à sua terra natal e para o movimento que conduziria à criação de um museu de arte nas Caldas.
Em 1927 foi inaugurado no Parque D. Carlos I o busto de Rafael Bordalo Pinheiro, oferecido pela Comissão de Iniciativa. Nesse mesmo ano, a cerâmica artística e as artes plásticas ocuparam pavilhões próprios na exposição regional. A cultura não acompanhava apenas o desenvolvimento da nova cidade: participava ativamente na construção da sua imagem e da sua identidade.
O impulso de modernização prosseguiu nos anos seguintes. Em 1930 ficou concluído o estudo de urbanização encomendado pela Câmara Municipal a Paulino Montês três anos antes. Em 1933 foi criado o Museu José Malhoa, inaugurado provisoriamente na Casa dos Barcos a 28 de abril de 1934. O edifício próprio, projetado por Paulino Montês e Eugénio Correia, seria inaugurado em 1940, tornando-se o primeiro edifício construído de raiz em Portugal para acolher um museu.
A 15 de setembro de 1935 foi inaugurada, no Largo Conde de Fontalva, a estátua da Rainha D. Leonor, obra do escultor Francisco Franco. A homenagem à fundadora completava um ciclo de afirmação simbólica da cidade através da arte, iniciado ainda antes de 1927 e prolongado durante a década seguinte.
A elevação a cidade reconheceu, assim, uma transformação construída ao longo de várias décadas, assente numa história secular iniciada em torno do Hospital Termal, mas projetada através da economia, do urbanismo, da indústria e da cultura.
Hoje, o Museu do Hospital e das Caldas assinala os 99 anos deste momento maior da vida cívica caldense.
Decreto n.º 14 157, de 26 de agosto de 1927, Diário do Governo, I Série, n.º 186.
Isabel Xavier, intervenção histórica reproduzida em “O papel decisivo da Gazeta na elevação das Caldas a cidade”, Gazeta das Caldas, 6 de setembro de 2015.
“Recorde o 26 de Agosto de 1927: o dia em que Caldas passou a ser uma cidade”, Gazeta das Caldas, com transcrição de notícias publicadas em agosto de 1927.
Dóris Santos, Museu de José Malhoa. Como se faz um museu de arte: imagem e discurso(s), dissertação de mestrado, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2005.
Matilde Tomás do Couto e Dóris Santos (coord.), Liga dos Amigos do Museu José Malhoa — Como nasce um museu, Caldas da Rainha, Liga dos Amigos do Museu José Malhoa, 2013.
Jorge Mangorrinha, O Hospital Termal das Caldas da Rainha: Modernidade (1485) e Património, ARTis ON, 2020.