10/02/2026
Partiu o Mágico Karter Mendes, o artista generoso, solidário e eternamente sonhador.
Deixou-nos um homem bom.
Neste momento de grande tristeza, endereçamos à família, aos amigos e a toda a comunidade as mais sentidas condolências.
Karter Mendes
O Mágico Solidário
Todos conhecem o artista Karter Mendes, o mágico bracarense que celebrou em 2022 cinquenta anos de carreira.
Karter nasceu Manuel Sousa Louro Mendes, no dia 24 de abril de 1954, no antigo Hospital de São Marcos, em Braga, e viveu a sua infância no centro histórico: primeiro na Rua Dom Gualdim Pais, a escassos metros da Catedral, depois na Rua de São Bentinho, com a casa de família voltada para a maternidade e, mais tarde na Rua do Anjo, quando o pai, Manuel Mendes, abriu uma tasca onde agora é a loja do Cardoso da Saudade - “O Guimarães”.
Karter foi o terceiro filho de uma prole de sete, mas o único a interessar-se, ou melhor, a apaixonar-se, pela arte milenar que é o circo. Pois bem, quando o circo chegava à cidade, muros, postes e painéis da construção enchiam-se de cartazes gaiteiros, com os nomes extravagantes dos artistas e a icónica lona circular a anunciar os espetáculos. Que bonitos e sedutores eram eles que tanta água e curiosidade faziam crescer nos olhos de Karter!
As aulas aconteciam de manhã, pelo que as tardes estavam por conta da liberdade e assim Karter esgueirava-se depois do almoço para o Parque da Ponte onde o circo assentava ferros e roulottes, sempre por altura do Natal, durante duas semanas, as melhores das 52 que o ano tem.
Karter gostava de TUDO o que o circo tem, incluindo os preparativos, os ensaios, o erguer da lona, os leões e todos os momentos que antecedem os fatos de lantejoulas e as preciosas palavras: - "Respeitável Público".
Assim, foi nas roulottes, a espreitar aqui e ali, que Karter aprendeu as primeiras palavrinhas do dialeto da magia e foi na qualidade de aguadeiro, a levar água da fonte do parque para os artistas, que conquistou a sua benevolência e o direito a assistir aos espetáculos sem trazer dinheiro de casa.
Existiria espetáculo mais épico que o circo? Mais completo? Mais único e plural ao mesmo tempo? Para Karter, não. E se havia arte que lhe transformava a retina dos olhos era a magia!
Depois de 15 dias a ser Natal todos os dias, vinha o resto do ano passado a suspirar por dezembro. Karter não apreciava jogar à bola com os outros meninos da sua idade, gostava antes de ensaiar truques ao espelho para uma plateia de um menino só, voltado para o seu reflexo. Com os primeiros troquinhos que amealhou, comprou o livro “Arte Mágica” de Eduardo Relvas, exemplar que ainda hoje conserva. Comprou baralhos de cartas, cordões e cartolinas.
O primeiro espetáculo de ilusionismo aconteceu na catequese, na festa de Natal, a convite do padre, que sabia das suas habilidades, tinha ele 10 anos. Não levou capa de mágico aos ombros, mas uma capa de estudante emprestada; não colocou uma cartola de cetim na cabeça, fez ele próprio uma em cartolina e ‘abracadabra’ aconteceu com uma varinha feita de cartão mais duro. Correu tudo bem!
Entretanto, o ensino primário chegara ao fim e, não havendo orçamento familiar para sustentar os estudos, Karter foi trabalhar para a Grundig apenas com 12 anos, nas linhas de montagem, primeiro de rádios de mesa, depois de autorrádios. Regressaria anos depois à escola, em período pós-laboral, para concluir o 12.º ano na Escola Secundária D. Maria II.
Karter trabalhou sempre na mesma fábrica até se aposentar e fez muitos espetáculos de Natal da empresa no Theatro Circo, sempre equilibrando os dois mundos: à semana um, nas folgas e feriados o outro.
Karter integrava ainda uma empresa de organização de espetáculos do Porto. Foi através dela que abrilhantou romarias e festas de verão por todo o Minho. No Gerês chegou a atuar em cima de um carro de bois, nada demais para um profissional que consegue tirar periquitos de lugares incomuns, e partilhou palco e camarim com artistas sonantes: Amália Rodrigues, Herman José e Nicolau Breyner, só para nomear alguns.
Mas foi sempre o Natal que marcou o ritmo da sua já longa carreira, não fosse o Natal envolto em magia e cada número de magia feito de manhãs de Natal. Só no Hospital de São Marcos, Karter realizou cerca de 30 espetáculos natalícios, até à mudança de localização, onde deixou de ser possível o evento. À cadeia de Braga, leva magia há cerca de 15 Natais e também já atuou na de Viana do Castelo. Por entre dezembros, proporcionou milhares de espetáculos e galas, perto de 6000, na sua maioria com fins solidários, revertendo a totalidade da bilheteira várias vezes para instituições da cidade. Atuou na RTP1, num programa da Praça da Alegria em 2022 e na TVI, no “Você na TV”, há quatro anos, em ambos os momentos de colete prateado.
Para conseguir ser o mágico em que se tornou, Karter investiu em livros quando ainda não havia internet; estudou na ‘Academia de Ilusionismo do Porto’, que já não existe, durante um ano; fez formação em técnicas de palco; assiste regularmente a atuações de outros artistas, vai aos congressos anuais “MagicValongo” e “Encontros Mágicos de Coimbra”, participa em festivais de circo, continua a praticar em casa, frente ao espelho, e todos os anos compra e estuda números novos para atualizar o acervo. Em casa, em caixas escrupulosamente organizadas e catalogadas, possui mais de 2000 números, com os respetivos acessórios e protocolos. E da mesma maneira séria com que encara a sua arte, regista todos os espetáculos que já realizou, com a descrição rigorosa do que fez e guarda com carinho todas as fotografias e cartazes desde o primeiro. Magia é Natal, Magia é Amor.
Além de artista, Karter fundou duas associações culturais. Na extinta ‘Associação Cultural Organizadora de Festivais Amadores’, durante 35 anos, organizou festivais e concursos da canção e foi neste contexto que foi a Fiscal (Amares), em agosto de 1983, convidar António Variações para atuar como artista convidado num festival dirigido a vozes emergentes. Graças à sua iniciativa, Braga assistiu ao único concerto do cantor nesta cidade, em novembro do mesmo ano e uma multidão conseguiu o seu autógrafo na sessão de autógrafos realizada no Posto de Turismo e ao longo do trajeto entre este e o antigo Hotel Turismo, durante a cerca de hora e meia que demorou a percorrer. Desde 2016, Karter preside ainda à ‘Associação Cultural Fado com Arte’ através da qual organiza espetáculos e grandes noites de fado.
Foi também em 2016 que Karter recebeu a Medalha de Mérito da cidade de Braga e já havia sido distinguido com o ‘Galardão a Nossa Terra’ na categoria ‘Artes Tradicionais Populares’ em 2005.
Hoje e para a frente, Karter quer, tão somente, fazer magia.
Nem sempre os números correram de feição, cedo aprendeu que em cima do palco nunca se emenda, nunca se insiste, passa-se ao próximo e que, por vezes, um erro colossal, como atear fogo acidentalmente às cortinas do palco, colhe a maior ovação.
Karter gostava ainda que a sua vida passasse a um livro o que, provavelmente, acontecerá porque a ser verdade que colhemos o que semeamos, Karter, da vida, não receberá menos do que o sonho.
Texto: Patrícia Ferreira
Fotografia: Carlos Teixeira
[A partir de uma conversa informal, realizada no jardim do Hotel Vila Galé, outrora edifício do Hospital de São Marcos, em 24 de agosto de 2023].