05/04/2026
Na rubrica “Sugestões de Leitura” de abril, trazemos hoje a recomendação da nossa vizinha Rita Cabral, que nos propõe a leitura de A Peste, de Albert Camus.
Partilhamos, de seguida, a sua crónica. Boas leituras!
“A Peste, de Albert Camus, foi um livro que me tocou, não só pela forma escorreita como é escrita, como pelo fino e magistral equilíbrio entre a severidade de uma doença e a necessidade entreajuda comunitária. A cidade de Orão, situada na costa argelina é subitamente afetada pelo misterioso aparecimento de ratos mortos durante um ano impreciso da década de 40. Uma doença que escala diariamente a um ritmo alucinante e em que a morte se encarrega de ceifar inúmeras vidas humanas torna-se o cumezinho quotidiano desta cidade. Um narradora misterioso, um médico preocupado, atento e equilibrado, um padre insensível e mordaz, um estrangeiro deserto para se escapulir da quarentena, famílias separadas, a solidão e o afastamento da população tornam este livro a materialização escrita e com as devidas adaptações, do que vivemos na pandemia COVID 19. A palavra que todos receiam proferir, a palavra que não quer calar, chama-se Peste.
A verdadeira peste não dilacera apenas corpos; expõe a fragilidade e a verdade escondida em cada ser humano, verdade essa que pode ser mais ou menos negra, consoante o íntimo de cada um.
Uma das frases que mais me marcou no livro foi “a peste manteve a cidade curvada diante de si”. Que ingénuos que somos em acharmos que somos tanto, quando, muitas vezes nada somos, apenas somos o nosso eu.
Será a Peste sempre negra? Ou existe na sombra da nossa alma uma claridade não descoberta mas ainda assim inata?”