28/06/2026
O Suficiente
Durante muito tempo acreditei que o dinheiro era a raiz de quase todos os problemas da humanidade.
Parecia uma conclusão inevitável.
Sem dinheiro, desapareceriam a corrupção, a exploração, a ganância, talvez até uma parte significativa das guerras.
Mas bastou recuar alguns séculos.
Muito antes da primeira moeda existir, já havia homens dispostos a conquistar reinos, possuir terras, acumular riqueza, impor a sua vontade e dominar os outros.
O dinheiro nunca criou esse impulso.
Apenas lhe deu uma unidade de medida.
Se não existisse dinheiro, provavelmente encontraríamos outra forma de medir aquilo que desejamos possuir.
Porque o verdadeiro problema nunca esteve no dinheiro.
Sempre esteve na nossa dificuldade em reconhecer quando o desejo deixa de nos fazer crescer e começa a consumir-nos.
Mas também seria injusto culpar o desejo.
Foi ele que nos fez atravessar oceanos, construir cidades, descobrir a ciência, pintar quadros, escrever livros e procurar respostas para perguntas que ninguém tinha feito antes.
Sem desejo não existiria progresso.
O problema nunca foi desejar.
O problema é esquecer.
Esquecermo-nos daquilo que já temos enquanto perseguimos aquilo que ainda nos falta.
Talvez seja por isso que a gratidão seja tão importante.
Não porque nos impeça de sonhar.
Mas porque nos recorda que alguns dos maiores privilégios da nossa existência são precisamente aqueles que deixámos de notar.
Um teto.
Água limpa.
Uma refeição.
Roupa.
Uma cama onde dormir.
A possibilidade de regressar a casa.
Durante grande parte da história da humanidade, tudo isto teria parecido extraordinário.
Hoje chamamos-lhe normalidade.
Talvez a gratidão seja apenas a capacidade de devolver o espanto ao que se tornou habitual.
E talvez o equilíbrio de que tanto falamos não esteja entre possuir muito ou pouco ter.
Mas entre continuar a construir sem deixar de agradecer.
Continuar a sonhar sem deixar de habitar o presente.
Porque, no fundo, a felicidade talvez nunca tenha consistido em possuir tudo.
Talvez consista apenas em chegar a um momento da vida em que conseguimos dizer, com inteira serenidade:
Tenho o suficiente para ser grato.
E, precisamente por isso, ainda posso continuar a sonhar.
Hugo
🖤🙃🖤