01/02/2026
SOBRE O AMIGO JOSÉ REI
Os tempos estão difíceis: cinzentos, chuvosos, frios, agressivos, devastadores. As depressões atmosféricas puxam as outras. Os amigos vão partindo, deixando a memória, a saudade, a admiração e o processo de entendimento da nossa condição finita.
Os redatores deste Espaço Livre de Opinião, hoje extrapolam os limites da freguesia de Amoreira e pensam na vizinhança “Vau”, o modo de atravessar um rio, a pé. Para os Casais deste Rio, lugar maior que o aglomerado antigo, há poucos anos, JOSÉ MANUEL RODRIGUES REI veio viver, solitário, para a freguesia. Não sabemos o seu enquadramento familiar e não nos interessa. O nosso conhecimento pessoal deveu-se à sua orgulhosa, afirmativa e determinada condição de «camarada». Fora-o, como presidente de junta da freguesia da Costa da Caparica, era-o aqui como militante e interventor no contexto concelhio. Esta condição não o impediu de ser versátil, prestável, respeitador, colaborador. A comunidade vauense acolheu-o, acarinhando-o.
Há cerca de dois meses, tomámos um café na Amoreira. Hora e meia de conversa, ainda em ambiente de Natal, sentíamo-lo com esperança de vida, satisfação, felicidade, narrativas de feitos concretizados e ainda capaz de viver ativamente. Ligavam-nos os valores democráticos e humanistas, vivências protestantes do tempo da “outra senhora”, históricos do percurso democrático de abril, peripécias, opiniões sobre o concelho e a realidade enganadora do mesmo. Com outras boas pessoas, que não comem meninos ao pequeno almoço, de quando em vez participávamos nas “avaliações” das politiquices dos eleitos locais, num determinado local, qual sociedade secreta sem o ser, irmandade ou fraternidade. Quase ninguém sabia da sua vida pessoal. Isso não era para ali.@
Naquela conversa de café, a dois, expressou-nos a satisfação de viver no Vau. Com emoção e olhos lacrimejantes de orgulho, descrevia-nos que certo dia lhe bateram à porta. O carro estava lá mas não o tinham notado a sua presença. Preocupados, queriam saber se lhe acontecera “alguma coisa”.
Aconteceu há quase 15 dias. Foi encontrado caído na sua casa já com longas horas de cadáver. A notícia cedo se difundiu. O pesar e o desconhecimento de pormenores, sem família pessoal por perto, solitário como veio, pela primeira vez, passar o rio não a vau mas de carro, não facilitou a percepção da realidade que nos ajudasse a digerir a notícia triste.
Hoje no funeral, soubemos dos esforços de “camaradas” de armas, combatentes na Guiné, dois amoreirenses, um deles que se esforçou, decisivamente, para libertar o corpo das galfarras hospitalares e judiciais, conseguindo-o. Pelo Vau, alguém providenciou um funeral católico. O POVO… lá esteve. Vimos, também emocionados, elementos da ASSOCIAÇÃO RECREATIVA, DESPORTIVA E CULTURAL VAUENSE, com a sua indumentária desportiva, de homenagem ao seu antigo dirigente José Rei. Desceu à terra com um “cachecol” da ADRC, na modesta urna.
O José Rei, gostaria de ter “ouvido” um “Acordai” do tomarense Fernando Lopes Graça, ou “Amigo maior que o pensamento” de José Afonso, mas… é de louvar o que nestas aldeias ainda se consegue fazer como atitude de gratidão e estima. Que exemplo.
Um abraço sentido aos «camaradas» armas, cujos almoços decisivamente organizava, como aos de partido. Afinal… a democracia e o humanismo, por aqui, ainda estão vivos. Um alento nestes momentos tristes