12/06/2026
BOAS FESTAS
(in newsletter de Junho)
Um rapaz, num plano mais elevado, aproxima-se com um copo na mão. Talvez para dele beber, pensamos, mas inesperadamente, é a nós que o oferece, o copo. Diz com entusiasmo: Bem-vindo à festa!
Estamos assim, sem o sabermos, dentro da festa que acontece à nossa volta. Embriagados pelos aromas e pelos seus sons, a festa rodeia-nos por todo o lado em Junho. O mês é sempre um mês de celebração, como se fosse agora que pudéssemos finalmente acordar da nossa longa hibernação de inverno. Para os estudantes, é o prenúncio do fim do ano lectivo e dos dias de trabalhar para as notas; para os trabalhadores, antecipam-se os fins-de-semana na praia, as filas para a ponte e as férias no Algarve; para os turistas, esses, é mais um mês daqueles em que não é suposto chover.
Seremos poucos, cada vez menos, os que não sentem vontade de celebrar. Celebrar o quê se o mundo parece arder à nossa frente? Celebrar o fim dos tempos, as invasões alienígenas, as hordas de zombies? Parece que não, mas somos muitos, cada vez mais os que, medrosos, não conseguimos pressentir mais do que um ou dois anos para o fim dos tempos. As tempestades, as ondas de calor, o preço do petróleo e a nova época desportiva irão matar-nos antes do tempo.
Mas na rua, esse lugar democrático, todos se encontram, os cada vez menos e os cada vez mais, os que aspiram e os que definham, trazem todos, em comum, um copo na mão. Um copo que inesperadamente nos podem oferecer, ou beber de um trago. Talvez tenha sido sempre assim a relação humana; o poder dar para o torto a qualquer momento, mas o ainda assim poder funcionar.
E se correr bem? E se funcionar mesmo? São as perguntas que ficam no ar sempre que se começa um novo projecto artístico com um grupo de estranhos. Esse processo de mediar expectativas, nunca demasiado baixas, nunca demasiado altas, de permitir que se chegue ao compromisso de aceitar as diferenças tempo suficiente até que a soma delas crie um objecto comum, não único, não exclusivo, intenso o suficiente para nos sentirmos parte dele o tempo suficiente, para desejarmos que não acabe e, sobretudo, para vir a ter saudades dele no futuro.
Cada projecto, cada grupo, cria uma família com características de família, disfuncional, claro. Um a um cria um primo distante, um irmão, uma tia, um avô ou um pai e uma mãe. Seremos, pois, a partir daquele início, uma família que terá de existir várias vezes por semana, várias horas por dia. Uma cada-família.
Nessas cada-famílias seremos nelas filhos, mais ou menos, rebeldes a assistir àquilo tudo com a vontade de mudar o mundo por fora ou de o destruir por dentro. Seremos, de facto, ali e naquele momento, cooperadores de uma ideia maior do que nós, talvez a principal característica intrinsecamente humana: fazermos, sentirmos que fazemos parte de algo maior do que nós. E se um grupo de estranhos consegue fazer um espectáculo de teatro funcionar, então a humanidade, toda ela, também pode almejar a funcionar.
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Em junho, finalizamos duas criações. Com o Clube de Teatro do Bombarda apresentamos a criação colectiva O Lado Errado do Muro, na Sala-estúdio Valentim de Barros, nos Jardins do Bombarda, no dia 14, pelas 16h00. Nos dias 20 e 21, estaremos com o GTFUL a apresentar Quatro Cenas da República Alexandrina, no auditório da Cantina Velha, pelas 19h00. Já no dia 25, celebramos o nosso sétimo aniversário.
Boas Festas,
Pedro Saavedra
Junho de 2026
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