26/08/2021
As pedras e as memórias têm um tempo que não cabe no curto lapso de uma vida humana.
As pedras e as memórias têm, muitas vezes, um peso que a nossa simples mortalidade não consegue suportar.
Transformar vinte e um blocos de dez toneladas em algo que possa ser lido hoje e daqui a muitos amanhãs, sempre de forma diferente por cada olhar construído pelas memórias plantadas pela educação, pela aculturação, pelo preconceito do momento, é um desafio para o escultor/criador cuja vida não passa de um mero instante na régua cronológica das pedras que transforma.
Mas, por muito curto que seja, este é o nosso tempo e somos também desafiados a inscrever nesse desenho do escultor uma leitura viva, uma narrativa sobre aquela construção através da expressão do corpo embalado pelo som, como se a música fosse a escultura da expressão da bailarina que nos leva de viagem sobre as pedras que o escultor “moldou”.
Tudo isto a acontecer num espaço despovoado, aberto ao que o futuro lhe trouxer pela construção que a Cidade for capaz de concretizar.
Há 40 anos, Évora foi invadida por criadores que deixaram as suas obras espalhadas pelo espaço público, no âmbito do Simpósio de Escultura em Pedra, num momento de irrepetível dinamismo em torno da arte de criar, esculpindo o aparentemente impossível de moldar.
As pedras, que costumamos ter como inamovíveis, puseram a cidade em movimento.
Com esta criação pretende-se evocar esse momento, fugindo a nostalgias anquilosantes e afirmando a criação como plataforma de futuro que outros construirão com ferramentas ainda por inventar.
O Pedro Fazenda, a Nélia Pinheiro e o Victor Gama irão esculpir a pedra e, certamente, irão ser moldados por ela.
A nós compete-nos sonhar com a transformação deste mundo de pedras, memórias e esperança.
18 de Julho de 2021
Eduardo Luciano