Galeria de Crónicas & Estórias

Galeria de Crónicas & Estórias Com esta página pretende-se partilhar com os seguidores crónicas, contos, estórias e episódios quotidianos narrados num cunho literário.

31/07/2024
05/05/2021

“COROA DOS CORNOS” = QUEM NÃO DÁ DINHEIRO É CORNEADO…

Antes de mais nada quero deixar bem claro, que não tenho nada pessoal contra o jovem… Tenho outras preferências musicais e até acho a música bem nice (falo do beat, do rítimo e das piadas também).

Agora vamos falar um pouco desta letra que tem estado a deixar os manos mal dispostos e algumas manas com sorrisos elasticados.

Acho que o jovem cantor deu eco às vontades mais profundas do íntimo de muitas mulheres. Yah… Faz tempo que algumas damas já queriam dizer isso aos boys mas faltava coragem e de repente eis que surge uma música dessas e pronto, agora é só partilhar esta música até chegar aos ouvidos e tímpanos mais reguilas…

Não sei por que becos e túneis a nossa sociedade anda, mas é deveras preocupante e até contraditório numa sociedade onde há cada vez mais mulheres defendendo a igualdade de direitos, ver a esmagadora maioria delas, se identificando com uma letra que na sua essência “meticaliza” a mulher!? Pensava que amor fosse um sentimento recíproco, cumplicidade, confiança, atenção, carinho, desejar o bem do seu parceiro e vice-versa, vitórias e derrotas partilhadas até chegarmos aos “fogos que ardem sem se ver”, mas ao ter escutado essa música percebi que amar é dar cabelo, perfume, pagar as contas, renda, e etc. e quem não consegue essa façanha nos dias que correm, pode até estar em qualquer lugar, mas continuará à beira de receber um “par de guampas” pela parceira.

Bem… a música só evidencia a parte do homem ser traído pelo que não consegue ou não quer proporcionar a sua parceira e eu como não sei cantar fiquei na expectativa de saber o que a mulher deve oferecer para também não ser traída!?

Se os ricos com os bens que têm também são traídos, logo está evidente que não são apenas os bens que vão frear uma traição iminente. Já estamos cansados de ouvir que “quando dás amor te traem pelo dinheiro e quando dás dinheiro te traem por amor”… Acho que precisamos inverter a nossa forma de pensar… Não é o traído que deve ser educado, é o traidor que deve ser ensinado que o facto da pessoa não te dar o que desejas não significa que não esteja fazendo o seu máximo para isso ou te amando de verdade. Outra coisa, ninguém está obrigado ficar com quem já não tenha sentimentos. Até Bill Gates está a se divorciar, então se vocês acham que não dá para continuar, saibam terminar de forma educada e não se escondam atrás de músicas para proliferar o “marrandzismo social”.

Vamos ser sinceros e prácticos aqui… Quer receber? Aprenda a dar. Mulher gosta de se sentir amada, o homem também. Mulher gosta de Iphone, o homem gosta Jordans no pé. Mulher gosta de carro confortável, homem gosta de jantes especiais nesse mesmo ruca. Mulher ama surpresas em datas especiais, homens também ficam sem jeito quando no lugar de dizerem apenas “Feliz aniversário meu Rei” também fazem-no uma surpresa agradável. Mulher gosta de homem que estudou, que trabalha e para o qual dinheiro não seja problema… Por acaso já apareceu um homem a dizer que detesta mulher rica, que tenha estudado, que tenha seu próprio carro e que seja bem resolvida financeiramente? Pode parecer brincadeira, mas nos dias que correm todos nós estamos procurando por pessoas que nos acrescentem algo de positivo em nossas vidas e não facturas e dores de cabeça. Mulher detesta homem “mão-de-vaca”, concordo perfeitamente, mas o homem actual também detesta mulher que não ajuda em nada. Não preciso continuar a lista para fazer-vos perceber que o amor está acima destas todas coisas e que muita coisa hoje não dá certo porque a nossa sociedade está sendo ensinada a “coisificar” e a dar preços à coisas de valor. Ainda vão terminar em vídeos no “Whatsapp por gostar de coisas”. Enfim, é dever de ambos se proporcionarem bons momentos e boas coisas num relacionamento.

Terminando, não critiquem o jovem cantor, pode ter apenas retratado o que se vive actualmente. Acho que é para isso que os artistas servem e concordemos todos que mesmo cantando uma letra polêmica, a sua música ainda é melhor que de muitos mestres do ruído que diariamente se propagam aqui na terra do atum.
Marley Macuane

MINHA PRIMA TAMBÉM É MARANDZA!O sol se envelhece, ganha o tom alaranjado e deita-se no poente. A lua rejuvenesce, tem um...
05/07/2019

MINHA PRIMA TAMBÉM É MARANDZA!

O sol se envelhece, ganha o tom alaranjado e deita-se no poente. A lua rejuvenesce, tem um tom enevoado e exibindo-se elegantemente. É feriado, o habitual frenesim dos dias comemorativos paira no ar. A agitação toma conta do bairro George Dimitrov, o som alto vem de todos os flancos, forma um cocktail sonoro que cria ruído e pruridos nos ouvidos. A população agita-se, quer curtir, por isso rasteja de tanto álcool consumir.

Há carne na brasa, há mulheres na rua que desfilam quase nua. As mamanas esperam que os filhos se deitem, momento de beberem o ansiado vinho, os jovens aguardam que a lua se eleve, altura de explorarem novos ninhos. Os mais velhos conferenciam e os mais novos se apreciam. Meia-noite. Abandono o leito, saio de mansinho do lar, driblando a atenção da esposa que mergulha num profundo sono.

Entro no bar e comemoro com os amigos a fuga de casa. Enfio um naco de carne na boca e trago um copo de licor. Canto desafinado, a música é conhecida, é do momento, é do Bow. Mando vir algumas cervejas, mais uma caixa e depois outra. – Quem matrecar a moça mais elegante da noite vai txilar cem por cento mahala, diz o meu amigo Mutarara. Gosto do desafio, os outros também.

O desafio inicia. Lanço os radares para rua, mas o álcool pesa-me a mente e embacia-me a vista. Agito cabeça e desfaço-me da visão turvada, contemplo agora com mais claridade. Cruzo a rua e caminho babando enquanto aprecio as marandzas que passam por mim. Todas são do tipo pesado, corpo laureado de curvas e contra-curvas, rabo avantajado, cintura dilatada, outras nem tanto. Descarto-as. Elas desdenham-me.

O sorteio recai sobre uma catorzinha do tipo ligeiro. Ela é baixinha, tem corpo fino, veste uma mini-saia, tem cabelos que atingem o rabo raso e usa lentes de contacto. Tem os lábios pegajosos, encarnados, de tanto batom aplicado. A moça caminha sorrateiro até ao fim da rua da Carpintaria, a um local de pouca iluminação. Apresso-me e alcanço-a, não há tempo a perder.

– Olá!
– Oi! – reage com voz fina, meiga, voz de inocência.

Forço a conversa. Na primeira investida, achegou-me mais próximo, tento roubar um beijo mas noto que ela está assustada, parece fugindo de algo.
– De mim? Não pode ser, sou muito bom nisso para ser reprovado, cogito.

Penso numa solução rápida, infalível. Convido-a para o bar, disponibilizo-me a pagar as contas. Prometo cerveja, petisco e cabelos postiço, dos mais caros que se tem no mercado. Ela recusa. Faz-se de difícil, penso. Pego a mão franzina e arrasto-a até a um local iluminado. Fico boquiaberto, pasmado, paralisado. Reconheço a mocinha. Procuro no dorso do chão um buraco onde enfiar a minha vergonha, minha tão grande vergonha.

– Joaninha, minha prima, afinal também és marandza.
– Suca, e o primo é um xidakwa. – ralhou deixando-me em prantos.

As moças há pouco desprezadas riram-se de mim até chamar atenção dos meus amigos, que também gargalharam até urinarem nas calças.

– Hooo... é bom, diziam eles.

M***A CHALEQUE

UMA NOITE COM CHIFRENoite enluarada, as estrelas tilintam alternadamente no céu. Estevão olha pela janela do quarto as c...
07/09/2018

UMA NOITE COM CHIFRE

Noite enluarada, as estrelas tilintam alternadamente no céu. Estevão olha pela janela do quarto as curiosas constelações que se formam no firmamento, deita-se no seu leito e cerra os olhos. Ao fundo ouve um som que lhe espanta o sono. Música, agitada e dançante.
Recebe uma chamada do amigo Nathaniel convidando-lhe para a farra. Receia, pensa, justifica-se, diz não ter dinheiro para pagar as contas. Desliga o celular e passa a mão ao queixo. Medita.
De súbito mira num perfume sobre a cabeceira. Põe o frasco no bolso e vai caminhando em direcção ao bar onde o amigo já se encontra.
Entra no estabelecimento, saúda os homens que bebem e soltam gargalhadas. Dirige-se à mesa e comenta com amigo que não tem dinheiro, mas traz consigo um perfume de marca, caro, valiosos, bem-cheiroso, cujo preço de venda seria bastante para comprar duas caixas de cervejas e sobraria ainda para pagar algumas garrafas de bebida espirituosa.
Nathaniel diz, outrossim, não ter dinheiro para custear as despesas da noite. Revela, porém, ter alguns trocados para pagar alguns copos.
Os homens mandam vir a bebida. Erguem os braços, levam os copos ao alto e brindam. Entornam o líquido nas goelas ávidas e viciosas de álcool. Estevão birra, estremece a cabeça desfazendo-se do arrepio que lhe cruza a vértebra. – A bebida está boa – comenta. Toma um trago e mas outro.
Uma silhueta vislumbra-se nas próximas da entrada. A figura vem caminhando num gingar vulgar. Caminha devagar apoiando o esculpido corpo sobre os saltos altos que criam pequenos poços no dorso arenoso.
Estevão sorve mais um gole. Deixa a cerveja do lado e vai já tomando alguns tragos de Whisky e depois Gin. Quer mais, viver adrenalina, desafia agora o vinho que se diz ser francês.
Já no bar, os olhos fitam a moça que vem chegando rodando a bolsa numa das mãos. Jovem alta, negra, traje um vestido justo, brilhante e curto. Beija a mão, simula soprar o beijo e distribui gratuitamente pelas mesas que ladeiam o tapete vermelho por onde percorre.
Os homens uivam e extasiam-se. Tecem elogios baratos sobre jovem.
Nathaniel incita o amigo ao consumo de álcool. – Toma que tu mereces – afirma enquanto entorna a bebida no copo do Estevão.
A moça interrompe a marcha olha aos lados e sorteia a mesa onde se sentar. Os Jovens convidam-na a ocupar os assentos das suas respectivas mesas.
Nathaniel ganha coragem. Chama a moça. Ela aceita atraída pelo brilho do relógio Rolex do seu pulso. As garrafas espalhadas pela mesa servem igualmente de chamariz.
A moça achega-se a mesa puxa a cadeira e toma o poiso. Assusta-se. Tenta levanta-se mas Nathaniel força a sua permanência na mesa segurando-a pelo braço.
Estevão procura arregalar os olhos mas já sem vitalidade para o efeito. Aponta o dedo na jovem. Tenta balbuciar algumas palavras mas Nathaniel o repreende. Estevão levanta-se e dá um, dois e três passos. Tropeça com tapete e o corpo cede à força de gravidade, cai.
Nathaniel convida a moça, propõem um passeio e promete-lhe um presente.
Amanhece. Estevão é expulso do local. Os proprietários do bar dirigem-lhe palavrões, criticam-no por beber e não pagar. Ele não se lembra de detalhes da noite anterior mas promete pagar oportunamente as contas.
Vai à casa da namorada. Ali, na esquina, próximo ao bar. Está com a aparência desmazelada mas é recebido. A namorada serve-lhe água para o banho, depois enxuta carinhosamente a água do corpo com uma atoalha macia. Manda-o sentar para relaxar. Estevão força a memória e pronuncia palavras desconexas procurando atribuir alguma lógica às imagens que lhe orbitam a mente.
A namorada passe-lhe a mão pela cabeça, diz que um par de ferimento abriu-se-lhe pela testa e solicita o silêncio. Ao relaxamento. – Cale amor, não force a memória que isso não faz bem.
De seguida diz que o banho não foi suficiente para abafar a catinga que do seu corpo ainda exala.
Passa o perfume. Estevão aplica-o, sorve o cheiro. Olha para o frasco, percorre novamente o olhar sobre recipiente. Pensa, desconfia, identifica e desvenda.
– Grita e chora. Mariaaaaa, Mariaaaaa, afinal eras tu!

M***A CHALEQUE

A BELDADE QUE VI NA TRANSIÇÃO DO ANOO relógio marcava vinte e três horas e cinquenta minutos quando decidi sair à rua pa...
12/01/2018

A BELDADE QUE VI NA TRANSIÇÃO DO ANO

O relógio marcava vinte e três horas e cinquenta minutos quando decidi sair à rua para celebrar o reveillon com os amigos, vizinhos, entre outros, que alegremente dançavam e bebiam na noite amena do último dia do ano. O habitual frenesim característico desta época pairava sobre ambiente.
Uns vaticinavam o que seria o novo ano. Outros se queixavam por não terem logrado os seus objectivos no ano que chegava ao fim.
Permaneci calado olhando para o céu e apreciando a lua que timidamente reluzia ofuscada pelas nuvens. Na rua, havia muita bebida alcoólica, carne de porco à brasa. Homens e mulheres aguardavam o ano novo.
De súbito, uma beldade cruza a rua a passos extremamente lentos deixando todos fascinados.
A temperatura eleva. Aos homens brotam-lhes bolhas de suores que se desfazem humedecendo a melaninosa pele. Os homens transpiram e suspiram.
Vozes ululam ante tamanha beleza e proferem elogios de toda sorte.
A embriaguez desvanece-se como o orvalho enxugado pelo calor do corpo. As visões outrora embaçadas ganham gradativamente nitidez. Contemplam as saliências do esculpido corpo da jovem que galga a rua em brando passo.
Jovem alta, pernas grossas, corpo que lembra a imagem de um violão. Pele macia, escura, cor de cacau.
Cabelos longos e lisos bailam ao sopro do vento num encantado vaivém. A jovem passa a mão pelas costas e emenda o penteado prendendo as madeixas sobre a nuca.
Em procissão, jovens seguem a beldade. Do ar sorvem o belo perfume que emana. Soltam alaridos e assobios. Os olhares poisam sobre as curvas do corpo.
Os solteiros babam, deliram, envergam todo esforço na contemplação da figura. Saciam os olhos. Os homens adultos de cabelos e barbas grisalhos, e outros já calvos soltam tímidos olhares.
Os casados esforçam-se em não contemplar a beldade, mas os olhares se rendem e fixam-se imóveis sobre a bunda, decote e lábios carnudos da musa. As mulheres invejam-na e simulam esconder o rosto com a palma da mão, mas apreciam a sua beleza pelos interstícios dos dedos.
O relógio já marca zero hora, em meio a forte algazarra da celebração do ano novo, um carro Toyota Corolla passa sobre um charco agitando bruscamente a água que vai directo sobre o corpo da beldade.
– Aí, minha maquilhagem! – Grita a jovem. – Molhei toda. Todinha mesma.
A celebração do ano novo é quase interrompida. Regista-se um pleno silêncio. Os homens lamentam pelo sucedido. As mulheres soltam risos de gozo e os olhos enfartam-se de contentamento.
Ali mesmo, em frente a todos. No cruzamento entre quatro ruas. A beldade desfaz-se das vestes. Calçado. Meias-Saia. Mini-Saia. Blusa. Sutiã.
A multidão contempla o que antes as vestes escondiam. Pernas e braços músculosos. Costas e peito peludo. A dentadura é retirada da boca esvaziando as bochechas. A peruca é retirada da cabeça e arremessada ao chão e vê-se agora uma cabeça raspada serpenteada por veias.
Acometidos por tamanho sentimento de decepção, os homens gritam, murmuram, chamam nomes à figura que vai correndo com as vestes na mão.
Em uníssono, os jovens exclamam: - Afinal, não era bonita coisa nenhuma!
– Isso é para vocês homens aprenderem que nem tudo que brilha é ouro. – Diziam as moças do bairro em jeito de gozo.

M***A CHALEQUE

O cronista M***a Chaleque fará parte, hoje (29.11), do painel de oradores, no âmbito da Semana das Artes, que vai aborda...
29/11/2017

O cronista M***a Chaleque fará parte, hoje (29.11), do painel de oradores, no âmbito da Semana das Artes, que vai abordar o tema: “As artes em tempo da internet: desafios e oportunidades”, a ter lugar no Centro Cultural Brasil- Mocambique, às 17 horas. Farão igualmente parte do painel os jovens bloguistas, Eliana Nzualo, Lourena Drummond e Elias Mabjaia.

Participe!

O EMBARAÇO DAS MEIAS FURADASAcordei entusiasmado, e não era para menos. Tinha uma entrevista de emprego marcada para as ...
08/09/2017

O EMBARAÇO DAS MEIAS FURADAS

Acordei entusiasmado, e não era para menos. Tinha uma entrevista de emprego marcada para as primeiras horas do dia. Tomei o meu habitual banho e, como era de se esperar, seleccionei a melhor roupa do meu guarda-fato. Decidi vestir o meu terno Giorgio Armani, que meu tio me comprara na Itália quando lá visitou ano passado.
Sempre soube que as mulheres levam muito tempo para se vestir. Mas, confesso que hoje me senti como uma dessas mulheres, que levam horas a fio fazendo a maquiagem em frente ao espelho. Duas horas depois, estava eu já todo trajado. Aliás, faltavam-me vestir as meias para de seguida estrear os meus sapatos novos que a minha mãe me oferecera no meu aniversário.
Inclinei para tirar o único par de meias que eu guardara na última gaveta da cómoda. Quando tirei, notei que as mesmas estavam furadas. – Oh, o que é isso? – gritei inconformado, mas nada podia fazer. Os ratos já tinham dado cabo de todas elas.
Os ratinhos tinham roído as meias fazendo com que os meus dedos ficassem todos à vista. Aqueles pequenos mamíferos me tinham pregado uma partida!
Pensei em cosê-las de forma a minimizar o dano causado pelos ratos. Porque eu gastara, porém, muito tempo em frente ao espelho e para evitar um eventual atraso, decidi sair mesmo com aquelas meias furadas.
– Ninguém vai notar. Quem pode ver meias estando elas no interior de sapatos? – Pensei, conformado com a situação.
Enquanto saía de casa em direcção à paragem dos transportes públicos, recebi elogios de toda sorte:
– Está lindo querido! – bradavam as minhas vizinhas em delírio.
Tomei o primeiro "chapa" que me apareceu e meia hora depois estava já bem perto do local onde se marcara a entrevista.
Para o meu infortúnio, um carro passou em alta velocidade na rua pela qual eu seguia, onde tinha águas paradas, fazendo com que os meus sapatos ficassem molhados e grudados de lama.
Dirigi-me às pressas até à esquina onde habitualmente os polidores fazem os seus trabalhos.
- Que b***a! - Vociferei ao ver tanta gente que lá esperava polir os seus sapatos.
Aproximei-me.
De súbito, reconheci um dos polidores de sapatos, o meu vizinho Mutarara. Mesmo assim, continuei no meu cantinho aguardando que a minha vez chegasse.
De repente, ouvi uma voz chamando pelo meu nome… Era ele, Mutarara. - Vem cá, por favor, não precisa cumprir a b***a. - Disse procurando-me ajudar.
Me acheguei todo confiante.
Contei-lhe o que me acontecera e ele logo se prontificou a limpar os meus sapatos. Respirei fundo, pois já estava muito atrasado à entrevista.
Estiquei o meu pé, colocando-o sobre a caixa na qual Mutarara p**e os sapatos.
Todos olhavam para mim e não entendiam o por quê de eu ser o primeiro a limpar os sapatos, uma vez que tinha sido o último a chegar naquele local.
Murmuraram.
Com ares de superioridade, lancei um olhar de desprezo aos homens.
– Ele é um boss, é só olhar para a maneira como está vestido. Meu brother, na vida manda quem tem dinheiro. – consolavam-se.
Chiando, ajeitei a gravata e fingi não lhes ouvir.
– Amigo, tens de tirar os sapatos para que eu os possa melhor limpar. – Informou-me afavelmente o meu vizinho.
– O quê? - Questionei desesperado.
– Eh, é isso aí. Os sapatos estão muitos sujos e só posso limpar caso os tire dos teus pés.
– Não dá para limpar... nem terminei a frase e Mutarara já abanava negativamente a cabeça. – Não dá, camarada. – frisou.
– Hei, tira logo os sapatos, pois também estamos a espera. Tira lá isso aí. – Ralhavam impacientes os demais clientes.
Não podia ir à entrevista com os sapatos sujos, afinal, a maneira como nos apresentamos conta bastante para o nosso êxito na avaliação.
– Mermão, tira logo isso. – ordenou um cliente já com cara de poucos amigos.
Sem opção nenhuma, tirei vagarosamente o primeiro sapato todo envergonhado. Notando que a minha meia estava furada, os homens que atentamente me observavam puseram-se a gargalhar. Quis sumir naquele momento.
Sentindo medo dos homens que me ameaçavam, Mutarara emudeceu-se.
– Agora tira o outro! – Diziam os clientes em jeito de gozo. Tira logo pah! – determinou um deles já com os punhos cerrados. Com medo, obedeci.
Na sequência, os homens puseram-se a rir até lacrimejarem.
Por fim, nem limpei sapatos, nem fui à entrevista.

M***A CHALEQUE

Todas as sextas-feiras, fique atento às nossas crónicas!

AFINAL NÃO É ACADÉMICO, É COBRADOR!Te aproximaste de nós já todo empolgado com a conversa, embora não estivesses context...
09/08/2017

AFINAL NÃO É ACADÉMICO, É COBRADOR!

Te aproximaste de nós já todo empolgado com a conversa, embora não estivesses contextualizado acerca do assunto que fazia com que vibrássemos e soltássemos gargalhadas no fim de cada intervenção. Quando, tecendo opinião sobre um dos temas, colocaste fim ao jeito de abordar assuntos segundo as regras de bar, em que ganha razão aquele que mais profere palavras, ainda que, o que se diz não constitui verdade.
Confesso, particularmente, que fiquei impressionado com a maneira que comentavas os assuntos relacionados à política, economia, sociedade, cultura, entre outros. O teu comentário era sempre quase merecedor de aplauso, se bem que cada um de nós que te escutava não se atrevia a o fazer. Apenas pairavam algumas questões nas nossas mentes relativas à tua identidade ou ocupação: – Que curso ele está a frequentar? Ou que curso frequentou? Onde? Será que é docente universitário?
Monopolizavas toda a conversa porque tínhamos que pensar e repensar antes que emitíssemos qualquer tipo de opinião. Para além, do cuidado que tínhamos, de fazer uma revisão linguística dos nossos pensamentos antes que os mesmos fossem exteriorizados. Realmente era necessário tomar muito cuidado, já que a impressão que nos era transmitido era de que se tratava de um verdadeiro académico a pessoas com quem conversamos.
O teu rico, diversificado e difícil vocabulário eliminava as desconfianças que ainda ousavam em emergir nos nossos intelectos, de que estávamos diante de um indivíduo dotado de um vasto conhecimento. Até que, decidi de forma inconveniente deixar transparecer que frequentava a universidade, se bem que isso fosse absolutamente desnecessário, tendo em conta o tipo de assunto que eu comentava. Não tardou, os outros quatro companheiros fizeram o mesmo, com a pura intenção de mostrar que, assim como eu, não se tratavam de pessoas quaisquer, mas sim de universitários.
Continuaste comentando os assuntos inteligentemente, sem sequer mencionar nada relacionado à tua formação ou ocupação. O nosso esforço de haver deixado transparecer de que éramos universitários foi em vão, pois ao longo da conversa não conseguimos abordar nenhum dos temas de que debatíamos com sucesso. Não conseguimos suplantar o teu rico conhecimento, o que, cá entre nós, era a nossa intenção e assim tencionávamos para fazer valer o nosso nível académico.
Não sei como surgiu a nossa conversa, lembro-me, porém, que a mesma chegou ao fim quando um carro de marca Toyota Hiace se aproximou perto de nós, buzinando. – Josito! – gritou o motorista chamando por ti, protagonista da nossa conversa, detentor de muita admiração e apreço durante as cinco horas da intensa e longa conversa que tivemos naquela manhã de sexta-feira.
Estranhámos o nome Josito, pois não nos parecia ser digno de um indivíduo inteligente. Mas logo ficámos certos de que o motorista realmente chamava por ti quando correspondeste erguendo o braço. –Vamos trabalhar, preciso de ti para cobrar os passageiros – afirmou o motorista.
Te despediste de nós educadamente. Quando, ainda tentando acreditar que não se tratavas de nenhum académico, mas sim de um cobrador, questionei-te inconvenientemente acerca da tua ocupação, pois todas as evidências mostravam que te tratavas de um cobrador. – O que fazes mesmo? A tua resposta não tardou: – sou cobrador – respondeste dirigindo-te ao MINI-BUS.
Atónicos, exclamamos em uníssono, – afinal não é académico, é cobrador!

M***A CHALEQUE

Óptima semana a todos os seguidores da Galeria de Crónicas & Estórias! Continuem ligados aos nossos textos.
11/07/2017

Óptima semana a todos os seguidores da Galeria de Crónicas & Estórias! Continuem ligados aos nossos textos.

16/02/2017

O AZARENTO 14 DE FEVEREIRO II

Havia muito tempo que a Rossana não me ligava, nem mesmo para saudar. A última vez que ela entrou em contacto comigo foi quando inventou uma estranha estória de que sua carta de condução tinha sido apreendida e necessitava de 5 mil meticais para que a tivesse de volta. Cego que eu era naquele tempo, diga-se, matreco, dei-lhe o valor e a moça prometeu-me devolver logo que fosse possível. Não preciso mais dizer o que aconteceu.
Para o meu espanto, ontem, 14 de Fevereiro, a jovem voltou a contactar-me. Por volta das 17 horas, recebi uma notificação no meu celular. Quando olhei para o cell, vi uma mensagem não lida e curioso, pus-me a espreitar o conteúdo.
- Oi baby, tudo bem! - Lia-se na mensagem.
Fiquei curioso, pois não tinha aquele número registado no cell. Decidi dar, por isso, uma olhada no perfil para ver se reconhecia a pessoa que me enviara a mensagem. Senti-me como se estivesse diante de um espelho, pois doutro lado via a minha própria imagem.
Tentei adivinhar de quem se tratava aquele número.
- Estranho, alguém está usando a minha foto em seu perfil. - Balbuciei, procurando alguma explicação para o que eu via. Cada vez mais ficava confuso quando olhava para aquela foto na qual eu aparecia de terno e gravata, num ambiente executivo e profissional. Modesta à parte, eu estava elegante naquele retrato, o que me tem caracterizado, sem exagero.
Decidi ligar para o número. Doutro lado da linha, uma voz meiga atendeu-me afavelmente. Reconheci num só instante aquela angelical voz que repentinamente me trouxe recordações de um amor nunca correspondido. O meu coração bateu forte, tive alucinações - contemplei com visão turva: anjo, flecha, coração...
- Rossana. - Pronunciei o nome involuntariamente.
- Oi mor! Não imaginas o quanto te procurei. - Afirmou.
- Sério? Cá estou. Se não te importas, podemos sair para assistir ao jogo de mais logo: Paris Saint-Germain v.s Barcelona FC.
A jovem logo aceitou. Combinamos o local, o Mimmos próximo da minha casa.
Na hora combinada, eu estava já a espera da Rossana. Vi-a triunfalmente entrando no estabelecimento numa ginga sem igual. Trazia uma saia justa e curta que evidenciava celulites, varizes e outras manchas mal-vindas. Sua tissagem era exageradamente longa, seu batom vermelho e cremoso quase impedia os movimentos dos lábios. Trazia piercing no umbigo e notável tatuagem por cima das nádegas.
Jovens, adultos e idosos fitaram olhos na moça. Adversários de clubes, esqueceram a rivalidade e uniram olhares para apreciar a indescritível beldade que se dirigia a mim.
- Fique à vontade, pode se sentar. - Solicitei.
A moça sentou-se.
Respirou fundo e ofegante, aliviando-se do cansaço que o salto alto lhe causara.
Pedimos algo para comer: dose de frango, chips, refrigerante e para sobremesa, sorvete.
Ela disse ter descoberto que me amava e por isso me procurara naquele dia.
- Mas por que apareceste logo no dia 14. - Questionei.
- Para celebrarmos o amor, baby. – Reagiu ajeitando as madeixas.
Fingi acreditar.
"Peixe não cai duas vezes no mesmo anzol", diz o ditado. Rossana olhava atentamente em mim. Distanciou o seu assento, cruzou as pernas, tornando a saia mais curta. Ajeitou o sensual decote.
Fiz-me de tolo e concentrei-me no jogo. Já me sentia incomodado, muito perturbado com a presença da jovem.
Faltando cinco minutos para o fim do jogo. Decidi ir ao banheiro. Pedi permissão para tal.
Rossana, ficou na mesa, com ares de poderosa tomando já o sorvete. Esperou-me, cansou-se. Notou que poucos clientes permaneciam naquele lugar.
De súbito, um dos serventes apareceu para lhe apresentar a conta de tudo quando se havia consumido - 3500 meticais.
- Desculpe-me, mas não tenho dinhei…
- Nem vale tentar mana moça. - Interrompeu-lhe o servente com cara de poucos amigos.
- Senhora, não queremos desculpas aqui. Aquele jovem com quem estavas disse-nos que irias pagar a conta, não é isso? - Inquiriu.
Gaguejando, trémula e vulnerável, Rossana procurou se justificar sem êxito.
- Hei, madame, paga conta ou limpa a nossa casa-de-banho. - Ordenaram os serventes de forma copiosa.
- Ya, é isso mesmo.- Agitaram-se.
Não sei o que mais aconteceu. Apenas fiquei a saber que logo pela manhã Rossana foi vista suja, imunda, com a maquilhagem desfeita e inclusive sem a tissagem que trazia no nosso encontro.

Pronto, vinguei-me.

Agora, falta tu mana moça que me pedes dinheiro todo fim de mês.

M***A CHALEQUE

31/12/2016

Bom dia e bom final de ano a todos nossos amigos e seguidores... Para que entrem 2017 com um pouco mais de leitura e reflexão, estão todos convidados a ver o texto "O ÚLTIMO ALARME DO ANO" já disponível nesta página.

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George Dimitrov, Benfica
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