27/03/2026
*Mensagem nacional alusiva ao Dia Mundial do Teatro, 27 de Março de 2026.
Por Joaquim Matavel,
Mano Q**m.
Celebra-se hoje o Dia Mundial do Teatro. Grande m***a! Hoje celebramos a nossa arte, celebramo-nos a nós próprios. Foi com surpresa que recebi o convite para escrever a mensagem nacional do Dia Mundial do Teatro. Mano Q**m, queremos que escrevas a mensagem do Dia Mundial do Teatro. Orei. Tentei dar aquelas desculpas esfarrapadas como se algo fosse mudar. Em vão. A ordem em forma de pedido estava dada. Não havia volta. O director havia indicado o actor que deveria encarnar o personagem de autor da mensagem. Luz, acção!
O teatro faz parte de mim. O teatro tem sido a minha vida. Mas o teatro foi apenas um encontro ocasional que hoje é a minha vida. O teatro escolheu-me e aceitei. Era ainda muito novo e hoje um homem adulto ainda ligado ao teatro. Hoje podia falar do que sei sobre o teatro em Moçambique no pós-independência. Do teatro como veículo de construção do homem novo, do teatro jovem que fervilhava nas escolas, igrejas, empresas, do teatro na comunidade para prevenção do HIV-SIDA e de outras doenças, do teatro para o multipartidarismo. Da venda ou destruição dos cinemas e outros locais onde se podia fazer teatro, da transformação dos anfiteatros nas escolas em salões de festa, da marginalização do teatro e seus fazedores, dos festivais e outras iniciativas que foram sendo criados para a sobrevivência do teatro. Enfim, faria o testemunho do que sei e vivi ao longo dos anos ligado ao teatro, até decidir, com os meus colegas, criar o Festival de Teatro de Inverno, hoje Festival Internacional de Teatro de Inverno. Mas certamente teremos um dia e momento para isso.
Hoje vamos apenas celebrar o teatro. Começo a minha celebração perguntando-me a mim próprio e a todos vós se depois de mais de 50 anos de independência temos um teatro moçambicano ou teatro de Moçambique. Um teatro genuinamente nosso, que nos representa em qual Mapiko, Chigubo ou Nyau. Um teatro que caracteriza profundamente o nosso povo, sendo reflexo da nossa cultura, crenças, histórias do dia-a-dia. Que preserva a identidade local, critica a sociedade e molda valores na interacção actor e plateia. Ou permaneceremos num tubo de ensaio entre experimentos, pseudo-superioridades criativas e outras?
Por que a classe do teatro vive representando até na vida real e não consegue unir-se? Será a classe do teatro reflexo da situação da nossa sociedade? Rotulamo-nos ou aos outros como amadores, de teatro comunitário, semiprofissionais, profissionais, independentes, de cinema e televisão, da academia ou frutos da experiência. Rotulamo-nos como antigos, novos e revolucionários, do norte, do centro, do sul, como se o teatro se importasse em ser o que é fora das fronteiras regionais. Criamos barreiras ou ilhas teatrais onde cada um habita por conveniência ou por contágio ideológico. O teatro não deveria ser o palco para essa peleja, mas sim o local ideal para a catarse e a cura das nossas feridas. O teatro deve constituir a forma de nos aproximar, de contar histórias, partilhar experiências, de ser família, de nos definirmos como um povo. É o que nos faz diferentes e únicos.
Infelizmente, ano após ano, vemos o desvalorizar da nossa cultura e, de igual modo, do nosso teatro, que muitas vezes é visto como apenas entretenimento no lugar de ser considerado essencial para o desenvolvimento humano e social. O teatro é um espaço de reflexão e de crítica, é uma forma de explorar a nossa imaginação e emoção. É uma arte que nos ensina a olhar o mundo com outros olhos, a compreender outras realidades e a sentir outras emoções.
Um razeja dado a todos os fazedores e amantes de teatro no nosso país, iniciados ou experientes, amadores ou profissionais, a todas as iniciativas de promoção do teatro em Moçambique, que mantêm viva esta arte do faz de conta tão importante para o nosso desenvolvimento cultural e humano.
Hoje, Dia Mundial do Teatro, reflictamos sobre de que forma nós próprios podemos mudar a forma como nos olhamos e como a sociedade olha para nós. Feliz Dia Mundial do Teatro. Grande m***a. Hoje celebramos a nossa arte, celebramo-nos a nós próprios.
Mano Q**m, Maputo, 27 de Março de 2026.