16/08/2026
A Pontuação do Inefável
Subo ao palco. O cronómetro dispara: três minutos. Cento e oitenta segundos para dizer tudo o que a vida inteira não conseguiu calar. À minha frente, três jurados — ou quatro, ou cinco — com paus de 0 a 10. Eles vão escrever números. Eu vou escrever alma. E no fim, alguém levanta um placar. Alguém vence. Alguém perde.
Mas espera. Se a arte não se mede, porque é que o slam insiste em medi-la? Porque é que pegamos no mais subjetivo dos gestos — a palavra dita em voz alta — e o submetemos à tirania da nota? Não seria mais honesto apenas partilhar, apenas ouvir, apenas aplaudir sem hierarquia?
A resposta, e aqui vai o mergulho fundo, é esta: a competição no slam não é sobre encontrar o melhor poeta. É sobre criar a tensão necessária para que o poeta se ultrapasse a si mesmo.
O atleta corre contra os outros, mas sabe que o seu verdadeiro adversário é o seu próprio recorde. No slam, o poeta sobe ao palco e o verdadeiro adversário não está na cadeira ao lado, com a caderneta na mão. O verdadeiro adversário está dentro: é o medo de não ser ouvido, a vontade de agradar, a preguiça de ser genuíno, a memória que falha, a voz que treme. A competição é apenas o pretexto — o arame farpado que nos obriga a dançar no fio sem cair na banalidade. Sem o placar, talvez nos instalássemos na zona de conforto do suspiro. Com o placar, somos atirados para o abismo da urgência. E é na urgência que a verdade aparece.
Mas há uma armadilha mortal: quando o poeta começa a jogar para a nota. Quando escolhe o tema que agrada, o verso que arranca palmas fáceis, a piada que desarma o júri. Nesse instante, ele traiu a sua própria voz. Deixou de ser artista para ser atleta de ginástica olímpica — a fazer o exercício que sabe que os juízes gostam de ver. E aí, meus amigos, a arte morre. O slam transforma-se num circo de acrobacias retóricas, onde o vencedor é o mais hábil a manipular a empatia do júri, não o mais corajoso a expor a sua fratura.
Porque o juiz, ali sentado com a sua caneta, não é um oráculo. Ele não carrega a Verdade Absoluta. Ele carrega apenas o seu próprio estômago, as suas próprias memórias, a sua própria fome. Quando ele dá um 10, não está a dizer "este é o melhor"; está a dizer "este tocou-me a mim, agora, aqui, com esta luz, com este cansaço que trago". Se o mesmo poeta subisse ao palco cinco minutos depois, com outro júri, a nota seria outra. Se subisse noutra cidade, noutra língua, com outra plateia, a história seria outra. O que prova, de forma incontornável, que o placar não mede a obra — mede o encontro entre a obra e aquele corpo específico que a julga.
E no entanto — e aqui está o paradoxo que poucos compreendem — o slam precisa da competição. Não para definir quem é o melhor, mas para obrigar a plateia a prestar atenção. Num mundo de distrações infinitas, o gesto competitivo segura-nos o olhar. Diz-nos: "Isto é a sério. Há algo em jogo." E esse "algo" não é o prémio, não é o troféu. É a possibilidade de sermos atravessados. A competição é a moldura que segura o quadro na parede; não é o quadro. E sem moldura, o quadro cai.
Por isso, o poeta de slam que verdadeiramente compreende o seu ofício não sobe ao palco para ganhar. Sobe para não se arrepender. Para sair dali e saber que disse o que tinha de dizer, com a carne na voz, com os nervos à flor da pele, sem calcular o efeito. Ele aceita o placar como quem aceita o tempo: uma condição externa, um dado de jogo. Mas o seu olhar está fixo noutro lugar — no fundo do poema, onde os números não chegam.
E quando o vencedor é anunciado e a plateia aplaude, o poeta que perdeu sorri. Porque ele sabe que a sua obra não pesa menos. Ela apenas pesou diferente para aquelas pessoas, naquela noite. E se um único par de olhos brilhou, se uma única garganta se apertou, se uma única alma se sentiu menos só — então ele já venceu a única competição que importa: a corrida contra o silêncio.
No fundo, o poetry slam é uma mentira generosa. Diz que vai eleger o melhor, mas na verdade faz algo muito mais profundo: obriga-nos a testemunhar. Obriga-nos a estar ali, vivos, com os paus de 0 a 10 na mão, a fingir que podemos medir o infinito. E nesse fingimento, por breves instantes, a poesia deixa de ser um luxo solitário e torna-se um desporto colectivo — não do corpo, mas do espanto.
Por isso, na próxima vez que vires um slam, não perguntes quem ganhou. Pergunta: Quem se despiu? Quem tremeu? Quem nos deixou mais ricos do que nos encontrou? Esse é o único placar que interessa. E esse, esse nunca aparece no ecrã. F**a gravado no ossos de quem ouviu.
Autor desconhecido , porem texto contém uma verdade conhecida