02/11/2024
Povo no Poder ou Poder Contra o Povo?
Hoje, na Avenida Samora Machel, assistimos a mais uma peça teatral, onde a liberdade de expressão colidiu com a censura e a intimidação.
A ironia não podia ser mais amarga: várias pessoas tentaram marchar pacificamente em direção à estátua de Samora, eterno símbolo de um sonho de liberdade, mas que se desvanece cada vez mais. Esta foi a cortesia da nossa polícia: disparos, gás lacrimogéneo, balas de borracha e o eco da opressão.
No meio da confusão, entre gritos e correria, estavam crianças e idosos – aqueles que, em qualquer sociedade que se preze, deveriam ser protegidos e respeitados. Mas aqui, no “Estado de Direito Democrático” que nos é assegurado, são apenas mais alvos numa batalha desigual.
Vejo, na verdade, uma estátua impotente que daria tudo para falar, mover aqueles braços e impor a ordem que nos falta.
No mesmo dia, noutro ponto, a norte do país, em Nampula, tivemos registos de 7 óbitos e diversos feridos. Mas para outros, isto não é um assunto que deva estar na ordem do dia.
O povo, que deveria estar no poder, ou está no chão, falecido, banalizado ou a lutar para respirar. O poder, que deveria servir o povo, permanece altivo, indiferente, como uma estátua a observar a sua própria falência.
Não me restam dúvidas: o protagonismo que Samora sonhou para o seu povo, infelizmente, não passa de um conceito utópico.
Mas assim seguimos, com um “Estado de Direito Democrático” que se desfaz ao primeiro protesto, uma democracia que só ganha forma nas palavras bonitas dos discursos oficiais, enquanto a realidade é marcada pelo som de passos a fugir e o cheiro amargo do gás lacrimogéneo.