11/12/2025
POETAS D'ALMA: O Festival que Escreveu, em Colectivo, a Possibilidade de um Mundo Novo
Maputo tornou-se a capital de uma utopia audível e visível. Por onze dias, de 20 à 30 de Novembro, o VII Festival Internacional de Poesia e Artes Performativas - Poetas D’Alma, sob o tema “A Possibilidade de um Mundo Novo”, transformou a cidade num organismo poético. Galerias, ruas de bairro, casas-museu e centros culturais pulsaram como órgãos de um mesmo corpo, movidos por um sangue feito de palavras, ritmo e luz. Foi uma cartografia do afecto, uma prova prática de que o futuro não se prevê, mas constrói-se colectivamente, sílaba a sílaba.
O festival começou, significativamente, no IGR - Instituto de Guimarães Rosa, na baixa da cidade de Maputo, com uma exposição curada por Jorge Dias sobre a Consciência Negra ergueu-se como um contra-ponto vital. “A arte não é um acessório da nação; é a sua respiração e a sua memória crítica”, afirmou o curador. A mostra honrou José Craveirinha e Mia Couto, mas inclinou-se, com especial reverência, para as mulheres guerreiras, arquitetas da resiliência moçambicana. Dessa força ancestral, emergiu a voz de Paulina Chiziane, cujas palavras definiram o tom do festival: “Isto é a celebração da nossa ancestralidade. A poesia é a ferramenta para resgatar as vozes que a história quis apagar”.
A Transmissão da Chama: Encontros nos Lugares de Origem
O Poetas D’Alma operou numa lógica de proximidade. Após a abertura oficial, os artistas nacionais e internacionais foram conduzidos em peregrinação aos lugares-semente da cultura moçambicana. A visita à residência de Paulina Chiziane foi um ritual de transmissão íntima. O encontro com Mia Couto, por sua vez, foi uma semente lançada ao vento. Num jardim sombreado, o escritor recebeu o Colectivo e, após ouvir relatos do movimento, declarou: “Vejo neste festival uma árvore jovem, mas com raízes profundas. Continuem. A poesia de vocês não decora o mundo; ela pergunta, desarruma, reconstrói. Sigam escrevendo o universo que sonham”. Suas palavras, “Jovens, façam poesia e salvem o mundo”, transformaram-se num mantra que ecoou em todos os sotaques presentes.
A jornada prosseguiu até ao bairro do Aeroporto, à Casa Museu Malangatana. Lá, sob a orientação do artista Manguiza Malangatana, filho do pintor-poeta, o workshop sobre o mestre foi uma imersão tátil no seu universo. “Tocar nos seus pincéis, nos seus pigmentos de terra, é entender que a cor pode ser uma oração e um grito”, partilhou Thaíse Monteiro, poeta brasileira do Goiânia Clandestina. A emoção foi selada por Manguiza Malangatana Ngwenya, que, visivelmente comovido, afirmou: “Meu pai falava através das formas e das cores. Hoje, vejo a chama dele acesa em vocês. Malangatana estaria muito feliz pela vida que este colectivo dá”.
O Olhar que Revela o Invisível: Uma Aliança pela Imagem
Um dos momentos capitais, ainda pouco narrado, foi a visita ao Centro de Documentação e Formação Fotográfica (CDFF). Num gesto de profunda generosidade intelectual, a diretora Cecília Gonçalves conduziu os artistas de várias nacionalidades pelos arquivos do centro. Num silêncio reverente, ela apresentou a obra monumental do Mestre Ricardo Rangel, pioneiro do fotojornalismo moçambicano. “Rangel não fotografava eventos; fotografava o intervalo entre os acontecimentos. O olhar cansado de um trabalhador, a espera num autocarro, a luz poeirenta da tarde nos subúrbios de Maputo. Ele ensinou-nos a ver o extraordinário no tecido simples do dia”, explicou Gonçalves, enquanto folheava cópias de contacto que eram verdadeiros poemas visuais.
Para honrar esta visita, o CDFF preparou uma exposição especial com fotografias de Rangel, uma sessão Jam de Poesia Jazz e Mbira com o músico e construtor de instrumentos tradicionais, Maneto e Féling Capela, criando um diálogo silencioso e poderoso entre a imagem do passado, a música acústica e palavra poética do presente. “É uma convergência natural”, reflectiu Cecília Gonçalves. “A poesia e a fotografia de Rangel partilham a mesma missão: fixar a verdade fugidia, dar dignidade ao instante, questionar o que é visto”.
Deste encontro, nasceu mais do que inspiração; nasceu um compromisso. O CDFF e o Poetas D’Alma firmaram uma parceria estratégica. “Esta aliança”, anunciou Gonçalves, “visa criar oportunidades concretas para jovens fotógrafos e investigadores. Queremos residências, bolsas de estudo e publicações que cruzem o olhar da lente com o olhar da palavra. O futuro da memória visual de Moçambique depende destas pontes”.
A Trilha Sonora da Resistência e os Palcos da Inclusão
O festival soube orquestrar uma paisagem sonora tão diversa quanto a sua poesia. O concerto SOUL’ACÚSTICO foi uma celebração da fraternidade entre os artistas: a cantora poeta e compositora Flávia Carolina, do Brasil, a cantorane compositora de Eswatini, Leebombo e o cantor e compositor, Bhaka Yafole, enquanto a noite CLAVE DE SOUL aprofundou esse diálogo íntimo. O tributo FALA FELA elevou a energia ao transportar para Maputo o espírito de insuborduição do Rei do Afrobeat, Fela Kuti. A música, tal como a poesia de Fela, mostrou-se uma arma política dançante, um chamado à liberdade que ecoou pelas noites da capital no Mar À Vista.
Nos bastidores e no palco, a ética da inclusão foi um pilar. A performance teatral do Colectivo Goiânia Clandestina, do Brasil, foi um marco: acompanhada por interpretação em Língua de Sinais, garantiu que a sua mensagem de resistência periférica atravessasse todas as barreiras sensoriais. Foi a materialização do princípio que orientou o festival: diversidade é ser convidado; inclusão é ser chamado para dançar no centro.
O Legado: Um Poema que Não Termina
O encerramento, ao som da curadoria histórica dos DJs Maskoff e Dub Rui (este também baixista dos 340ml), não foi um ponto final. Foi um ponto de viragem. O festival deixou sementes plantadas: pinturas colectivas com a participação do público serão doadas à comunidade da Mafalala, uma parceria vital com o CDFF, e uma Feira do Livro que levou fragmentos deste mundo novo para casa.
Ao anunciar o tema para 2026, “Diálogos Globais: Arte, Poesia e Resistência”, o Poetas D’Alma confirmou a sua natureza de movimento perene. Em Maputo, durante aqueles onze dias, a possibilidade de um mundo novo deixou de ser uma abstração. Tornou-se respirável na alma, visível nas fotos de Rangel, palpável no aperto de mão entre Mia Couto e os jovens poetas, audível no silêncio respeitoso perante a obra de Malangatana, ensinamentos ancestrais da Paulina Chiziane.
O festival provou que o mundo novo não é um destino a alcançar, mas um verbo a conjugar no presente colectivo. É tecer, como fizeram as mulheres ancestrais. É fotografar, como ensinou Rangel. É incluir, como mostrou o Goiânia Clandestina. É, acima de tudo, continuar. Foi um poema escrito a muitas mãos, uma primeira estrofe poderosa de um épico que mal começou.