12/06/2025
Será que ainda existem profetas hoje?
Por: Xisto Fernando
A figura do profeta é uma das mais fascinantes — e controversas — da fé cristã. No Antigo Testamento, os profetas eram homens e mulheres levantados por Deus para anunciar verdades duras, confrontar reis, denunciar injustiças e guiar o povo. Eram, em suma, mensageiros de Deus, não de si mesmos. Hoje, porém, a paisagem é outra: os "profetas" proliferam nas redes sociais, nos púlpitos televisivos, nas igrejas neopentecostais. Uns vendem bênçãos, outros fazem promessas, e muitos parecem mais adivinhos do que servos.
Mas afinal, existem ainda profetas hoje? E se Deus continua a falar profeticamente, será o título de “profeta” ainda adequado? Ou talvez estejamos a usar palavras bíblicas fora do seu tempo, contexto e função?
Deus fala, sim, mas nem tudo o que brilha é profecia
Não há dúvidas de que Deus continua a comunicar-se com os seres humanos. Ele fala pela Escritura, pelo Espírito, pela consciência, por sonhos, por visões, pela arte e, em ocasiões raras, até por palavras específicas dirigidas a situações concretas. Esta forma de falar — que muitos identificam como “profética” — ainda pode ocorrer. Sim, Deus pode levantar vozes que desafiem, inspirem e apontem caminhos.
O problema não está em Deus falar, mas no uso e abuso do título “profeta”. Muitos dos que hoje se autointitulam assim parecem mais preocupados em prever casamentos, detectar “inimigos espirituais” ou antecipar transferências bancárias milagrosas. Profetizam sucesso pessoal, e não arrependimento. A sua linguagem é frequentemente vaga, teatral, e, curiosamente, sempre favorável ao ouvinte. São profetas que nunca enfrentam reis, apenas os bajulam.
No Novo Testamento: apóstolos, não profetas
Jesus, ao formar os alicerces da Igreja, não chamou profetas, mas apóstolos (Mateus 10:1-4; Lucas 6:13-16). Os apóstolos foram enviados com autoridade para ensinar, curar, fundar comunidades e testemunhar a ressurreição. O dom da profecia existia, sim, no seio da comunidade cristã primitiva (ver 1 Coríntios 14), mas nunca foi confundido com a missão apostólica nem com o papel institucional dos profetas do Antigo Testamento.
Apostolicamente, o foco estava na proclamação do Evangelho e na edificação da Igreja, e não em previsões personalizadas. Os profetas neotestamentários — como Ágabo — tinham um papel complementar, não central.
Profetas ou apóstolos: o que é mais relevante hoje?
Será que o título “profeta” faz sentido nos dias de hoje? Em parte, sim, se entendermos profecia como o dom de comunicar uma verdade divina com impacto transformador. Há pregadores, escritores, activistas, artistas e líderes espirituais que, mesmo sem usarem esse rótulo, profetizam com a vida, com a palavra e com o exemplo. Talvez não sejam "profetas" no sentido clássico, mas são vozes proféticas no meio do ruído.
Por outro lado, há também quem se autoproclame “apóstolo”, outro título que exige cautela. Apostolado, na sua raiz, significa “enviado”. Em certo sentido, todo cristão comprometido com o Reino é um “apóstolo” — enviado ao mundo com uma missão. Mas, biblicamente, o apostolado implicava um chamado directo de Cristo, algo único e não replicável. Por isso, usar “apóstolo” ou “profeta” hoje como título hierárquico, é mais fruto de vaidade do que de vocação.
Qual é, então, o verdadeiro papel dos profetas e apóstolos hoje?
Se por profeta entendermos alguém que discerni os tempos, denuncia o pecado, chama à justiça e aponta para Deus — então sim, ainda há profetas. Mas raramente usam esse nome. Muitos são incómodos, marginalizados, esquecidos. São os que dizem o que poucos querem ouvir.
Se por apóstolo entendermos alguém que é enviado com uma missão clara de fundar comunidades, levar a Palavra e guiar os fiéis com autoridade espiritual humilde, também podemos reconhecer essa função. Mas sem cair na armadilha do título pomposo.
Conclusão: mais serviço, menos títulos
Deus continua a agir. Continua a levantar homens e mulheres que falam com coragem, discernimento e compaixão. O que falta não é profecia — é humildade. Não é inspiração divina — é responsabilidade espiritual.
Mais do que saber se ainda existem profetas, talvez a pergunta seja outra: estamos a escutar os verdadeiros? Ou estamos demasiado entretidos com os espectáculos dos falsos?