20/07/2013
Revista Piranha, julho de 2013
Celso Fonseca & Ronaldo Bastos
Apaixonados por Berlim
Discos inspirados pela capital alemã não faltam: Lou Reed capturou em seu álbum cult "Berlin", no início dos anos 70, o espírito irreal da cidade, na época ainda dividida. David Bowie celebrou pouco depois com o fundamental "Heroes" as possibilidades de uma cidade- ilha e o U2, duas décadas atrás, prestou homenagem com "Achtung Baby", sua obra-prima pós-reunificação, ao charme rústico de uma metrópole que renascia. Porém de longe o mais surpreendente álbum tributo a Berlim surge nos dias de hoje, pelas mãos do duo brasileiro Fonseca/Bastos, que transformou a vibe multicultural de Berlim em um exótico "pop-pão-de-açúcar" entre o samba, o jazz e o funk.
No álbum que leva o incomum título "Liebe Paradiso" ouve-se uma coleção de canções atmosféricas e imagéticas, trabalhadas durante um período de quase 16 anos -no qual diversas viagens a Berlim aconteceram- pela dupla formada pelo cantor e guitarrista Celso Fonseca, festejadíssimo no Brasil, e seu igualmente famoso conterrâneo, o renomado compositor Ronaldo Bastos.
Ainda que não tenham relação direta, em suas letras, com Berlim, músicas como "Ela Vai Pro Mar", "Out of the Blues" e "O Tempo Não Passou" foram muito influenciadas pelo pulso acelerado da metrópole à beira do Rio Spree. "Vivi no final dos anos 60 em Paris, em seguida em Londres, e depois em Nova York", explica Ronaldo Bastos. "Inicialmente eu não fazia ideia se Berlim iria me influenciar, e de que maneira, mas imediatamente após a minha chegada fiquei fascinado por essa energia peculiar. Berlim se tornou na mesma hora um segundo lar para mim!" Um lar por adoção que deu muito impulso para o surgimento do que hoje se encontra nas prateleiras sob o título "Liebe Paradiso".
Fonseca/Bastos costumam definir o seu trabalho como um projeto multimídia no qual curtas, clips e fotos têm o mesmo valor do que a música que produzem juntos. "No meu modo de ver é muito mais do que música - vejo a nossa criação como uma forma de arte própria. Funciona com sons do mesmo jeito que funciona com música", completa Bastos. "Nós o chamamos de disco, porém na verdade é uma instalação sonora. Um objeto sonoro, uma escultura sonora. Para mim o disco tem mais em comum com pintura do que com música. Durante as nossas temporadas em Berlim, visitamos muito mais exposições de arte do que concertos de música." Impressões artísticas em torno da Ilha dos Museus, da Filarmônica, da torre de televisão e das ruas em constante transformação dos bairros Mitte e Kreuzberg. "Eu sempre pensava que os alemães eram um povo extremamente complicado com uma língua ainda mais complicada. Hoje me parece que a língua alemã tem uma sonoridade maravilhosa, ainda que eu não entenda uma única palavra..."
Thomas Clausen
Tradução Melissa Dullius