10/05/2024
"Li uma história de um pesquisador europeu do começo do século xx que estava nos Estados Unidos e chegou a um território dos Hopi. Ele tinha pedido que alguém daquela aldeia facilitasse o encontro dele com uma anciã que ele queria entrevistar. Quando foi encontrá-la, ela estava parada perto de uma rocha. O pesquisador ficou esperando, até que falou: "Ela não vai conversar
comigo, não?". Ao que seu facilitador respondeu: "Ela está conversando com a irmã dela". "Mas é uma pedra." E o camarada disse: ""Qual é o problema?"."
"Assim como aquela senhora hopi que conversava com a pedra, sua irmã, tem um
monte de gente que fala com montanhas.
No Equador, na Colômbia, em algumas dessas regiões dos Andes, você encontra lugares onde as montanhas formam casais.
Tem mãe, pai, filho, tem uma família de montanhas que troca afeto, faz trocas. E as que vivem nesses vales fazem festas para essas montanhas, dão comida, dão presentes, ganham presentes das montanhas.
Por que essas narrativas não nos entusiasmam? Por que elas vão sendo esquecidas e apagadas em favor de uma narrativa globalizante, superficial, que quer contar a mesma história para a gente?"
Ailton Krenak - Ideias para adiar o fim do mundo