Poesia Jack Afonso

Poesia Jack Afonso Nada será para sempre

12/21/2025

Presépio de 2025
Autor: J. Afonso

11/30/2025
09/11/2025

A GAVETA DA ALEGRIA
Autor: Jack Afonso

A gaveta da alegria, que guardava
Os fios de ouro de um fulgor passado,
Há tanto tempo que ninguém a abria,
Que o seu vazio se tornou pesado.

Cada promessa que não se cumpria,
Cada sorriso que nunca chegou,
Foi cinza, pó miúdo que acendia
Na escuridão que o tempo entregou.

E assim, sem gestos, sem um eco que doa,
O nada foi crescendo, em densidade.
Hoje, a gaveta já não desafoga,
Cheia do fardo da inospitalidade.

Não cabem nela mais melancolias,
Nem a ténue sombra de um gozo vão.
De tanto ver passar os longos dias,
Encheu-se de poeira e solidão.

É a plenitude amarga que se tece,
Um silêncio que se fez grito mudo.
A ausência que na alma não fenece.
A gaveta da alegria, cheia de ficar vazia, afinal, de tudo.

09/06/2025

AMOR TALVEZ SEJA ISSO…
Autor: Jack Afonso

Amar, talvez, seja isso, a arte
De ler nas entrelinhas do olhar,
No gesto breve que o corpo reparte,
O que a boca, por vezes, vai calar.

É no suspiro leve que se esvai,
Na pausa breve, quase impercetível,
No tom da voz que a alma nos desvenda,
Um segredo, um sentir indelével.

É mergulhar na alma num abraço,
Sentir o peso de um anseio profundo,
Preencher o vazio de cada espaço,
Com a verdade que nos inunda o mundo.

Não é na palavra dita, nem no alarido,
Mas no sussurro que a alma pressente,
No olhar que fala, mesmo entristecido,
O amor que a gente escuta, e sente.

09/05/2025

PEDRAS NO CAMINHO
Autor: Jack Afonso

Pedras no caminho? Sim, sem fim, as vejo,
Em cada passo, em cada meu ensejo
De avançar, de ir além, de não ceder,
Obstáculos que a vida faz crescer.

Não as desvio, não, eu não as deito fora,
Cada lasca guardo, cada pedra agora.
Com a paciência que se tece e amealha,
Transformo cada peso em minha muralha.

São cicatrizes do que me fez sofrer,
Lições gravadas que me fazem vencer.
Pedras ásperas, duras, sem polimento,
São a base firme do meu fundamento.

Pois sei que um dia, no porvir, na calma,
Com elas vou erguer o que me inunda a alma.
Um castelo forte, de torre e de muralha,
Onde a esperança jamais se espalha.

Cada pedra um degrau, um sonho feito chão,
A prova viva da minha superação.
Será um monumento à minha teimosia,
O meu lugar no mundo, a minha garantia.

09/01/2025

COMO É POSSÍVEL?
Autor: Jack Afonso

No mundo que se estende, vasto e belo,
Onde o sol se derrama em ouro e luz,
Como é possível, no peito de um singelo,
Nascer o ódio que a esperança reduz?

De onde vem essa sombra que consome,
Que apaga o brilho em tanto olhar?
A fúria em gestos que ninguém nome,
A lâmina fria que o corpo a trespassar.

Vemos a maldade em palavras sem perdão,
Em corações que se tornam ermos, gelados.
Que força oculta move tanta escuridão,
Por entre os campos que deviam ser sagrados?

Pergunto às nuvens, ao silêncio do regato,
Quem semeou o mal que nos dilacera?
Porquê a mentira, o cruel e ingrato ato,
Numa existência que a paz outrora tivera?

É a pergunta que a alma sempre eleva,
Um eco mudo sem resposta, sem sentido.
Como é possível tanta dor, tanta treva,
Num mundo que um dia foi prometido?

08/31/2025

O Dom Oculto
Autor: Jack Afonso

Quem mais sozinho caminha na estrada,
Tem a ternura mais pura no olhar.
A amabilidade, em flor desabrochada,
Que o mundo não consegue igualar.

E os mais tristes, com alma dorida,
Ostentam o sorriso mais belo,
Uma luz que à penumbra convida,
Com um segredo de força e de zelo.

Quem mais a dor na pele sentiu,
Guarda a mais pura sabedoria.
No coração que jamais sucumbiu,
Aprendeu a ler a melancolia.

E tudo isto, num só fado se encerra:
Não ver em outro a dor que sentiram.
A paz que à humanidade ofertam,
Pelo abismo que em si já viveram.

08/20/2025

A Lição do Astro Rei
Autor: Jack Afonso

O Sol, senhor do dia, rei dourado,
Em cume astral, de glória e esplendor,
Seu manto de luz, vasto e irado,
Domina o mundo, pleno de fulgor.

Mas mesmo ele, na sua alta grandeza,
Ao fim da tarde, em tom de despedida,
Com um rubor que pinta a natureza,
Dá um suave adeus à sua vida.

Não guarda para si todo o império, não,
Concede à noite um palco de quietude,
E em seu lugar, com nova inspiração,
A Lua surge, plena de virtude.

Com prata e calma, sem clamar fulgor,
Ilumina o breu, caminhos desvendados,
Um brilho humilde, de sereno amor,
Para os corações mais sossegados.

Assim, que a vida seja um aprender,
Com a lição que o Sol nos vem dar:
Que a nossa luz também tem de ceder,
Para que outros consigam brilhar.

07/30/2025

O CREDO DO AMOR
Autor: Jack Afonso

Que amor genuíno, alma que floresce,
Não murcha, não se esvai, jamais padece.
É chama perene, em brasa que se acende,
E cresce, e vibra, e a eternidade estende.
No fundo d'alma, doce e sem artimanha,
É o porto seguro que nunca desenganha.

Qual rio que busca o mar, sem cessar,
Num leito de carinhos, amor vai medrar.
No toque da mão envelhecida e terna,
No olhar que adivinha a dor mais interna,
Numa memória antiga que floresce ao invés,
Tecida em silêncios, em suaves revés.
É a história contada, sussurrada em segredo,
Um laço indissolúvel, um santo degredo.

Contudo, se este credo que no peito levo,
Esta férrea crença, porventura um ensejo
De um erro tão profundo, que me arrasa,
Se a minha alma ilude, e a verdade vaza,
Se o que afirmo em versos, com tal devoção,
Se prova quimera, mera ilusão...

Então, que as letras que esta pena lavra,
Se esvaiam no éter, sem mais palavra.
Que os versos que um dia sonhei em ter,
Se tornem miragens, sem nunca se conter.
E o coração humano, nessa senda escura,
Nunca provou afeto, ternura pura.
Não houve beijo, nem saudade ardente,
Nem alvorada partilhada, nem pranto clemente.
Porque se o amor finda, e ao pó regressa,
Ninguém amou deveras, em alma ou em prece.

07/23/2025

A Promessa no Altar
Autor: Jack Afonso

Conheço a história, meiga e verdadeira,
De uma amiga que vi no limiar de um novo ser.
No altar, entre dois sóis, alma certeira,
Decidia amar, para sempre pertencer.

A um, fora filha, guia e porto seguro,
Ao outro, esposa, prometia um amanhã.
Quando o padre inquiria, num tom puro,
"Quem esta mulher entrega, com a sua mão?"

Os olhos do pai, de pranto marejados,
A mão em seu braço, um nó que não deixava ir.
Os laços de uma vida, fortes e abençoados,
Que pareciam, ali, teimar em florir.

Foi então que ela, com voz quase um segredo,
Ao ouvido do pai, carinhosamente sussurrou:
"Podes soltar, pai, não tenhas esse medo,
Podes soltar, que o nosso amor nunca findou."

"Estou pronta, sim, para este novo trilho,
Para voar sozinha e o meu próprio rumo encontrar.
Sinto um pouco de receio, um pequeno brilho
De incerteza, mas sei que irei alcançar."

"Quero que saibas, pai, que eu vou ficar bem,
Que em mim vive a força, que sempre me deste.
Podes soltar agora, pai, vai além, muito além,
O amor que do teu coração em mim nasceste."

"Podes soltar agora, pai, sim, podes deixar...
Oh, eu vou ficar bem, pai, podes soltar."

07/22/2025

O ENSAIO DA ESSÊNCIA
Autor: Jack Afonso

O anseio pelo aroma que se eleva,
Da flor que em cores mil o sol nos beija,
Um sonho etéreo, que na alma tece a teia,
Mas quão poucos na terra a mão se leva.

Não veem o suor que a semente padece,
Nem a paciência que a raiz profunda aninha,
O espinho oculto, a labuta que a pele vinca,
A espera infinda que o botão amadurece.

Querem a glória, mas não a cicatriz,
O brilho efémero que a brisa ao fim desfaz,
Sem o murmúrio da terra que a vida traz,
Sem o silêncio que a alma faz feliz.

Perdem a essência, o rito ancestral,
A sabedoria que o cultivo ensina lento,
O abraço verde do puro sentimento,
E o amor profundo, nunca superficial.

Ó alma errante, que a beleza almeja,
Não temas o pó, a enxada dura e crua,
Pois só na terra onde a tua mão atua,
O verdadeiro perfume ao fim viceja.

É no esforço, na dor que a mão se macula,
Que a vida se desvenda, plena e vasta,
Que a flor mais rara, sem que nada a afasta,
No solo fértil da verdade se articula.

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