01/07/2023
Agradecemos e ao mesmo tempo, dividimos com vocês as palavras do produtor e jornalista Carlos Guimarães Coelho que assistiu o doc. "Juca: Memórias e Desmontagem de uma Peça e nos presenteou com essas lindas impressões.
"Uma construção artística é um território de várias curvas, uma estrada com diversos formatos que se desdobra de infinitas formas. Talvez por isso é que ela, no caso das artes cênicas presenciais, embora quase sempre atemporal, se configura com finitude, passando a existir apenas na memória de quem a consome. E isso tem muito valor, já que as memórias, geralmente, ainda que inconscientemente, são quase sempre muito seletivas.
É também um trajeto com revezamento entre seus passageiros, um puxando o outro até o destino de seu consumidor final. É o caso, por exemplo, do espetáculo Juca, referendado na vida e obra do poeta Juca da Angélica. Surgiu o personagem, no meio do mato, em vida aflorada por trabalho, serestas, boiadas, lavouras, infância, família, juventude, perdas e amores de uma existência como outra qualquer. Não era fictício. Se desenrolava na vida campestre com a sensibilidade das palavras, ao ponto de quase semianalfabeto se expressar espontaneamente na configuração poética. Descoberto por seres mais urbanos, foi transformado em livro. Parte da obra foi transformada em música. Lida por outros seres artísticos, foi transformado em peça teatral. Tocado por seres cênicos, resultou em documentário relevando a existência, a poesia impressa e a encenação da vida de um poeta do campo chamado Juca. Esse é o percurso da arte, sensações emergem do processo criativo e promovem desdobramentos, de modo a ser vista a fonte inspiradora em vários formatos, transformações e evoluções que a percorrem.
Assim foi com o documentário Juca – Memórias e Desmontagem de Uma Peça, envolvendo o Coletivo Porta 84, capitaneado pelo encenador e professor Luiz Humberto Arantes, e dirigido por Cristiano Barbosa e Eduardo Bernadt. Nele, há emoções contidas nas lembranças dos integrantes depoentes, não só por todo o processo da montagem e apresentações do espetáculo, mas também por tê-lo como um catártico processo de redescoberta de si mesmo, da infância, das cidades de origem que um dia foram corrutelas, das fazendas, reais ou imaginárias, com as quais conviveram, do avançar da idade e das referências que se estabeleceram a partir de personagens como o um dia existente poeta chamado Juca.
Camila Delfino, Geo Dias, Guilherme Almeida, Juliana Milani, Leandro Alves, Luciene Andrade e Wagner Júnior, órgãos do esqueleto teatral, não contiveram o lado emotivo em seus depoimentos. Deixaram aflorar, com o cheiro das matas, as experiências vividas por meio do Juca. Nesse sentido, o documentário traz à tona a intensidade da construção teatral, revelando o quanto ela é mais do que representar criações individuais ou coletivas e como ela vem do cerne humano chamado coração, uma profusão de sensações que vai diretamente ao encontro daquele ser, a fonte inspiradora, escondido no verde, na lua e no sol e refugiando-se na arquitetura das palavras. Necessário é destacar o fato de os documentaristas, Cristiano e Eduardo, terem acentuado suas sensibilidades estéticas e artísticas e também serem tocados por este elemento, o que os possibilitou à coleta dos depoimentos emocionados e da admiração pelo poeta que, em se tratando de uma carpintaria teatral, poderia ter sido apenas um mero chamariz para a presença cênica e não seria menos válido por isso. Mas, a cena atravessou esse limite e Juca – tanto na peça como no filme – para além das palavras, tornou-se carne e osso, alguém que existiu um dia e extraiu do mundo, no seu caso o exuberante mundo da natureza, a vida transformada em poesia, em livro, em música, em peça teatral e em filme.
O encenador Luiz Humberto Arantes tem o mérito de trazer para a cena personagens da vida real e transformá-los em potência artística com releituras acerca de suas existências. Fez assim com Grande Otelo, com Orlando Sabino, conhecido como o “monstro de Capinópolis”, o Juca da Angélica, assim como outras montagens, como a adaptação da obra de Vianinha, Xapetuba Futebol Clube. Conjuga sua experiência como ator e teatrólogo há décadas com a sua formação acadêmica como historiador, essa ancorada também na teatralidade, como professor titular do curso de Teatro da Universidade Federal de Uberlândia. Ele, no campo das experimentações artísticas e no desenvolvimento artístico do grupo que criou, busca trazer à cena o que de melhor pode ser captado na esfera do mundo real e potencializado no plano teatral. A ambientação para isso é tão favorável que, diferentemente da maior parte dos grupos teatrais, a formação deste coletivo permanece quase inalterada desde a sua formação. Como ele, os demais integrantes do coletivo colecionam histórias diversas e marcantes em montagens teatrais da cidade, no caso da atriz Luciene Andrade também musicais, talento que sempre empresta à cena. Isso sem mencionar a grade de filmagens dos “videomakers” Cristiano Barbosa e Eduardo Bernardt. Para desfilar a caminhada artística de todas as pessoas envolvidas, seriam necessárias muitas linhas. Por agora, basta delinear a ação realizada sobre Juca da Angélica, o que por si já diz muito.
O documentário, portanto, traz todo o processo inerente a uma montagem teatral, desde sua inspiração e primeiros fôlegos até o processo de pesquisa e de construções envolvendo o tema. Neste caso, há também a evidência do envolvimento afetivo, não necessariamente presente em todos os processos criativos. Talvez esse envolvimento até tenha sido descoberto a partir da construção videográfica do registro cênico que obteve sua trajetória de sucesso ao longo de dois anos. F**a assim o registro histórico e permanente de um processo teatral, ancorado na poesia, vida e obra de Juca da Angélica. "