18/02/2017
O título "holocausto" para se referir ao hospício de Barbacena é bem apropriado porque o hospício foi comparado a um campo de concentração nazista (nas palavras de Franco Basaglia). Veremos homens, mulheres e crianças transportados em vagões de trens ao manicômio (lembremos das ferrovias que conduziam os judeus, homossexuais, ciganos, e demais vítimas para os campos de Auschwuitz), e quando lá chegavam no hospital Colônia, estes eram despidos e tinham suas cabeças raspadas. Os internos sofriam todos os tipos de humilhações, reduzidos a um estado de natureza, de animalidade ou de “vida nua” (lembrando Aganbem), de desumanização. O manicômio foi um local de horror em que ocorreu um genocídio de pessoas inocentes. Assim como em Auschwuitz, onde os corpos das vítimas eram utilizados para material de consumo (os cabelos das vitimas, por ex, serviam para produzir tecidos) , os cadáveres do hospício de Barbacena também foram comercializados para as faculdades de medicina, transformados em lucro e em mercadoria (nas “peças anatômicas” eram taxados preços). Ou seja: tanto nos campos de concentração nazista quanto no hospício de Barbacena encontramos a mesma lógica que vigora por trás da racionalidade responsável pela produção do irracional e da barbárie: em nome da ciência e de sua racionalidade instrumental, voltadas para a dominação totalitária daqueles que são considerados “inúteis”, “frágeis”, “diferentes”, “fora da norma”, “doentes”, cometem-se as maiores atrocidades e se produz o Horror – e na maior parte das vezes tendo como pano de fundo a pretensa eficácia científica sob o discurso da “neutralidade”. Vide o surgimento histórico da psiquiatria higienista para “tratar” e “curar” os doentes e seus desdobramentos como instrumentos de Poder. Enfim, sobre os dados que apontam que mais de 60 mil pessoas foram mortas no hospício (o que é horrível demais constatar isso) e das comparações que se faz do hospício ao genocídio nazista, remetemos ao texto de Adorno “Para Elaborar o Passado”. Adorno problematiza a disposição atual de se negar ou minimizar o ocorrido dos totalitarismos, referindo-se a uma humanidade sem memória. Ora, também presenciamos isso aqui no Brasil a respeito do silêncio com relação às atrocidades cometidas no hospício. Então Adorno também se refere neste texto aos argumentos que dizem: “não morreram tantos judeus, tantas pessoas assim”..., ou: “não foram 5 milhões de judeus que morreram, mas 3 milhões, ou, em Barbacena foram só 60 mil comparado ao horror do holocausto, ou, a milhões de pessoas que morrem no Brasil por fome, etc”, Sobre isso, ele escreve: “na contabilização de tais cálculos, na pressa de ser dispensado de uma conscientização recorrendo a contra-argumentos, reside de antemão algo de desumano”. Ele aponta sobre o recalque da culpa e da responsabilidade da humanidade com relação aos efeitos perversos de nosso processo civilizatório. E, para finalizar, a citação de um trecho do livro “Eclipse da Razão” de Horkheimer: “Os mártires anônimos dos campos de concentração são os símbolos da humanidade que luta para nascer. A tarefa da filosofia é traduzir o que eles fizeram numa linguagem que será ouvida, mesmo que suas vozes finitas tenham sido silenciadas pela tirania". O livro e o filme, então, deram voz a estes mártires condenados pelo saber psiquiátrico, pela sociedade e pelo Estado autoritário brasileiro.
Ana Paula de Ávila Gomide - Coordenadora do Em Cena