04/06/2020
O Raízes do Brasil Centro Cultural de Capoeira, organização de promoção e preservação da capoeira e de outras práticas africanas e afro-brasileiras, que conta com pólos de trabalho nacionais e internacionais, vem a público comentar os últimos acontecimentos e apresentar a sua posição sobre os assuntos.
O Brasil e o mundo entraram em um caminho sem volta nas últimas semanas. Não porque o que estamos vendo ocupar lugar de destaque na mídia na última semana é algo fora do comum, mas exatamente pelo fato que agora situações cotidianas passaram a tomar proporções mundiais e históricas. O ano de 2020 não ficará marcado na História apenas como o ano em que a humanidade enfrentou o coronavírus. Ficará, se depender de nós, marcado principalmente como o ano onde a questão racial finalmente tomou o lugar que lhe diz respeito: o centro dos debates, discussões, preocupações e, principalmente, o centro das ações.
Nos EUA, França e Reino Unido as massas populares, encabeçadas pelo movimento negro, saíram às ruas protestando contra a violência policial e o racismo. Motivados pela criminosa ação do policial D. Chauvin que estrangulou e sufocou, em plena luz do dia e em uma via pública de Minneapolis (EUA), a garganta do segurança preto, George Floyd, o movimento negro e a questão racial toma o centro dos noticiários, das discussões em redes sociais, dos debates intelectuais e dos bate-papo entre amigos. Com um grito de revolta, novamente como tantas outras vezes na história, o povo preto precisa de ver mais um dos seus ter sua vida interrompida por atos de ódio e racismo para que possam ser ouvidos em seus gritos por liberdade e emancipação.
Enquanto tudo isso acontecia mundo afora, aqui no Brasil ficamos sabendo através de matéria do jornal O Estado de São Paulo do último dia 02 de junho, que Sérgio Camargo, Presidente da Fundação Palmares, principal órgão de promoção e preservação da cultura africana e afro-brasileira em nosso país, se referiu ao movimento negro como “escória maldita” que abriga “vagabundos”, além de caracterizar uma Yalorixá (posto popularmente conhecido como mãe-de-santo no Candomblé) como uma “macumbeira” e “filha da puta”. Como se não bastasse tamanha reprodução de caracterizações criminosas e racistas, Camargo ainda afirmou que “não vai ter nada para terreiro na [Fundação] Palmares enquanto eu estiver aqui dentro. Nada. Zero. Macumbeiro não vai ter um centavo.” e, em outro momento, ainda afirma que “(...) não vai querer emenda dessa gente aqui. Para promover Capoeira? Vai se ferrar”.
É importante ressaltar que não viemos a público apenas porque Sérgio Camargo agride a capoeira e desrespeita, menospreza e profana a história de nossos Mestres. Mas porque ataca nossos ancestrais, nossos detentores dos saberes e raízes sagradas das práticas do nosso povo e de nossa cultura. As palavras e a postura de Sérgio Camargo não são próprias dele. São palavras do colonizador, dos pensamentos particularistas do branco dominante que oprime e explora, que encontram eco na desenfreada disputa por prestígio, atenção, reconhecimento e poder que o sistema capitalista nos impõe, colocando oprimidos contra oprimidos.
Por isso, Sérgio Camargo é apenas a expressão de algo maior, mais denso, profundo e enraizado em nossas vidas. Essas palavras não são um acontecimento isolado, estranho e incomum na realidade brasileira. São, na verdade, a expressão do racismo estrutural que viceja e determina inúmeros aspectos da nossa sociedade. É contra as formas desse racismo, em todas as suas expressões, que devemos dedicar nossas forças.
Uma Capoeira que não se coloque com uma postura radicalmente anti-racista, que não combata tanto as expressões do racismo como suas origens e que se negue a resgatar o significado histórico das lutas por liberdade e emancipação contra os colonizadores, os escravagistas e os defensores da opressão, está fadada ao fracasso e à diluição de sua prática na forma de mera mercadoria, que pode comercializada, negociada e profanada por quem quer que seja, perdendo seu caráter de revolta e de grito de liberdade de um povo até hoje oprimido e explorado. Que esses acontecimentos recentes sirvam para aprofundar a conscientização da nossa comunidade de capoeiristas, que nosso vínculo ancestral se fortaleça no sentido da proteção de nossos Mestres e preservação dos nossos saberes ancestrais.
É pela Capoeira de raiz que nós somos Raízes do Brasil!