23/12/2025
Eu trabalho com arte porque, de algum jeito, ela me trabalha também.
Ela me ensina a respirar quando o mundo grita, a ver com calma quando tudo parece pressa, a tocar com cuidado aquilo que não tem preço.
Na restauração, eu chego perto do que o tempo feriu.
Diante de uma obra antiga, não existe “só um serviço”. Existe encontro. Existe respeito. Existe a delicadeza de limpar sem apagar, de reparar sem mentir, de devolver luz sem roubar a história. Cada camada revela um segredo, cada trinca conta uma viagem, cada reintegração é um pedido silencioso: “me deixa continuar existindo”. E eu deixo.
Na arquitetura, eu aprendo que beleza também é abrigo.
Que um espaço pode acolher, curar, proteger. Que paredes guardam vozes, e que a luz — quando bem pensada — vira bênção iluminando o cotidiano. Arquitetura é isso: construir o lugar onde a vida se sente em casa. E quando é patrimônio… é como segurar a mão de quem veio antes.
Na pintura, eu mergulho com coragem.
Porque um quadro não nasce só de tinta — nasce de uma verdade interna que pede forma. A cor vira emoção, o gesto vira memória, e o silêncio da tela começa a falar. Pintar é oferecer ao mundo uma parte íntima do meu olhar… e confiar que alguém, em algum lugar, vai se reconhecer ali.
E na arte sacra, eu sinto o coração mudar de altura.
Cada dourado, cada símbolo, cada olhar de santo pintado ou esculpido parece lembrar uma coisa simples e poderosa: o sagrado também mora no cuidado. Não é só beleza — é presença. É reverência. É como se a arte dissesse: “aqui, o espírito pode descansar”.