15/08/2020
"Esperar tem sido minha sina desde que a órbita planetária entrou em desalinho.
Esperando eu sigo. Sigo esperando o dia em que, por descuido do impostor, o trono seja retomado e a vida ressurja no coração daqueles que como eu, apenas existem.
Espero o dia em que adentrarei tua casa, o cachorro a me receber, o rangido do piso de madeira a avisar que cheguei, ansiosa pelo abraço-casa que tu perpetuou em nós.
Os dias tem sido nebulosos desde aquele fatídico dia de março, quando me enclausurei em casa, pensando sair no mês seguinte: abril.
Não abril. Não abri as janelas e o quarto permanece escuro. Não abri meu peito e já nem sei se te matei sufocado aqui dentro ou só te guardo com receio de te deixar ir embora e morrer lá fora. Não abri o sorriso e já nem sei de que cor eles são. Não abri meus braços e mesmo assim pareço estar agarrada ao peso do mundo.
Esperar tem sido a unica coisa que faço. Desde que acordo espero o momento de permanecer imóvel, o calor a consumir meu corpo, os pensamentos a desajustar a mente. O sempre desejar silêncio no escuro do quarto, talvez como uma tentativa de resgatar tua respiração serena, ouvida às 3 da madrugada, nas noites em que ainda podíamos respirar o mesmo ar sem medo.
Esgotou-se os planos de seguir o plano.
Até a plantinha que eu pretendia registrar seu crescimento, morreu, por incapacidade minha de mantê-la viva. O cavaco ainda adormece os sambas de Ivone Lara que eu listei pra tocar... nenhuma nota, jamais ressoou por aqui.
As noites são tão silenciosas que é possível ouvir as estrelas, ou talvez eu apenas tenha perdido o senso; mas também podem ser tão barulhentas a ponto de eu sentir náuseas ansiando o silêncio.
Nas gavetas, acumulam-se os projetos de uma vida, talvez duas.
Apenas o sangue permanece regular, a escorrer do corpo como um aviso de que a vida segue, apesar do tanto dele que escorre. Contraditório, não acha?
Todos os dias, ouço que em algum lugar alguém é pisoteado na cara, o pescoço prensado com botas, o sangue a descer pelos lábios. Alguém é baleado acidentalMENTE ou passa de humano à macaco ou perde sua liberdade pela cor da pele ou apanha na cara por ser preto demais pra estar no mesmo espaço que o branco ou que morreu pelas mãos do marido ou que apanhou demais e o lábio não esboça mais sorriso... mil vão embora... assim em um só dia, em um dia só.
Continuo esperando a hora do link pra entrar na reunião, sem ter uma única palavra à dizer. Continuo esperando a hora do almoço, sem saber ao menos o que tem pra comer. À espera, na inércia. Repouso que meu corpo insiste em manter e meu cérebro Se recusa a contestar.
Há meses a inaptidão me acompanha. Há meses que navego nas redes e me vejo mais perto do fundo. Há meses visito minha conta bancária apenas pra ver, dia após dia os dígitos negativos aumentarem. A bestialidade daquele que 'governa' aos seus me toma de assalto à duvidar da necessidade de minha existência. Quem, sendo tão sábio, escolheria viver em tempos assim? Recluso em sua própria miserabilidade, sobrevivendo pelo canto das estrelas, acompanhado de sua própria solidão, respirando seu próprio ar virulento, tendo sua mente e corpo explorado (acompanhado de uma menção honrosa ao importantíssimo trabalho que você faz).
Esperar tem sido minha sina desde que a órbita planetária entrou em desalinho.
Ninguém é forte o tempo todo. Sobreviver é difícil quando a morte está logo ali.
No entanto, sigo esperando o dia em que adentrarei tua casa e o cachorro virá me receber, o rangido do piso de madeira avisará que cheguei. Ansiosa pelo abraço-casa que perpetuaremos em nós."
[...]
( Miquelle Silva)