Meus versos pra Ti

Meus versos pra Ti Trechos de livros e versos autorais

01/05/2021
25/11/2020
01/11/2020

"Aceito perder-te lentamente
Como uma mãe que descobre o crescimento dos filhos
Pequenos centímetros mês a mês
Sem amedrontar o coração
Acostumado a ter no colo um corpo risonho e choroso de seu bebê

Aceito perder-te lentamente
Ver teus dedos fazer co**ha em outras mãos
Teu colo ser morada de outro ser
Tua boca a sorver outro sabor.
Lentamente
Teus dedos soltarem dos meus
Como o deslizar da areia a marcar o tempo em ampulheta

Permita-me perder-te devagarinho
Não atropeles o tempo que meu coração precisa
Pra acostumar-se a tua perda
Não aceleres o relógio para ires embora
Permita-me acostumar-me com tua ausência
A tarde vazia a ocupar a casa a inteira
O silêncio a trazer-me tua voz de riso

[...]
Na necessidade de renascer em teu coração a chama
Peço a ti
Permita-me perder-te devagarinho
Não atropeles o tempo que meu coração precisa
Para acostumar-se com tua perda."

[...]
. (Miquelle Silva)

23/09/2020

"Brasil
Brasão
Brasa
Bras[il]eiro
Pau-brasil (profecia)
Pau que sangra
Que mancha os bichos
Os tecidos vegetais
Mancha o ar
Mancha o mapa
Mancha a marcha de vida
Escorre o magma
Dissolve a mata
Dissolve o mangue
Dissolve o Pântano
Brasil
Brasa
Bras[il]eiro
Pau que v***a sob o peso da brasa
Chamas teu povo
Teu grito é ignorado
Do alto escalonar
Um terráqueo impera
Glória ao Messias,
Dai glória
Glorif**ai o agro
Que põe a comida na mesa
Do alto escalão
Que na hora do rango
A carne em brasa
Do cordeiro
Sacia sua fome
Brasa
Brasil
Brasão
Brasa
Chamas teu povo
Tua gente é pequena
O dólar tá alto
A chama tá alta
Teu nicho esvaiu
Teus bichos morreram
Não há mais pau
Pau-brasil
Planta now
em brasa
Chamas
Brasil."

(Miquelle Silva)

15/08/2020

"Esperar tem sido minha sina desde que a órbita planetária entrou em desalinho.
Esperando eu sigo. Sigo esperando o dia em que, por descuido do impostor, o trono seja retomado e a vida ressurja no coração daqueles que como eu, apenas existem.
Espero o dia em que adentrarei tua casa, o cachorro a me receber, o rangido do piso de madeira a avisar que cheguei, ansiosa pelo abraço-casa que tu perpetuou em nós.
Os dias tem sido nebulosos desde aquele fatídico dia de março, quando me enclausurei em casa, pensando sair no mês seguinte: abril.
Não abril. Não abri as janelas e o quarto permanece escuro. Não abri meu peito e já nem sei se te matei sufocado aqui dentro ou só te guardo com receio de te deixar ir embora e morrer lá fora. Não abri o sorriso e já nem sei de que cor eles são. Não abri meus braços e mesmo assim pareço estar agarrada ao peso do mundo.
Esperar tem sido a unica coisa que faço. Desde que acordo espero o momento de permanecer imóvel, o calor a consumir meu corpo, os pensamentos a desajustar a mente. O sempre desejar silêncio no escuro do quarto, talvez como uma tentativa de resgatar tua respiração serena, ouvida às 3 da madrugada, nas noites em que ainda podíamos respirar o mesmo ar sem medo.
Esgotou-se os planos de seguir o plano.
Até a plantinha que eu pretendia registrar seu crescimento, morreu, por incapacidade minha de mantê-la viva. O cavaco ainda adormece os sambas de Ivone Lara que eu listei pra tocar... nenhuma nota, jamais ressoou por aqui.
As noites são tão silenciosas que é possível ouvir as estrelas, ou talvez eu apenas tenha perdido o senso; mas também podem ser tão barulhentas a ponto de eu sentir náuseas ansiando o silêncio.
Nas gavetas, acumulam-se os projetos de uma vida, talvez duas.
Apenas o sangue permanece regular, a escorrer do corpo como um aviso de que a vida segue, apesar do tanto dele que escorre. Contraditório, não acha?
Todos os dias, ouço que em algum lugar alguém é pisoteado na cara, o pescoço prensado com botas, o sangue a descer pelos lábios. Alguém é baleado acidentalMENTE ou passa de humano à macaco ou perde sua liberdade pela cor da pele ou apanha na cara por ser preto demais pra estar no mesmo espaço que o branco ou que morreu pelas mãos do marido ou que apanhou demais e o lábio não esboça mais sorriso... mil vão embora... assim em um só dia, em um dia só.
Continuo esperando a hora do link pra entrar na reunião, sem ter uma única palavra à dizer. Continuo esperando a hora do almoço, sem saber ao menos o que tem pra comer. À espera, na inércia. Repouso que meu corpo insiste em manter e meu cérebro Se recusa a contestar.
Há meses a inaptidão me acompanha. Há meses que navego nas redes e me vejo mais perto do fundo. Há meses visito minha conta bancária apenas pra ver, dia após dia os dígitos negativos aumentarem. A bestialidade daquele que 'governa' aos seus me toma de assalto à duvidar da necessidade de minha existência. Quem, sendo tão sábio, escolheria viver em tempos assim? Recluso em sua própria miserabilidade, sobrevivendo pelo canto das estrelas, acompanhado de sua própria solidão, respirando seu próprio ar virulento, tendo sua mente e corpo explorado (acompanhado de uma menção honrosa ao importantíssimo trabalho que você faz).
Esperar tem sido minha sina desde que a órbita planetária entrou em desalinho.
Ninguém é forte o tempo todo. Sobreviver é difícil quando a morte está logo ali.
No entanto, sigo esperando o dia em que adentrarei tua casa e o cachorro virá me receber, o rangido do piso de madeira avisará que cheguei. Ansiosa pelo abraço-casa que perpetuaremos em nós."

[...]

( Miquelle Silva)

09/04/2020

[...]
Eu estive grávida no mês passado.
Em pleno Março chuvoso.
Em meio aos temporais e frios noturnos...
eu estive grávida.

Grávida de sonhos. Palpáveis à cada novo dia ...
como um corpo à planejar o acolhimento de outro,
uma mãe, ansiosa pra encontrar,
pela primeira vez,
os olhos do “nascido de seu ventre”.
Os sonhos, assim como um feto,
necessita de um ser pra lhe servir de morada e
precisa dele pra permanecer vivo.

Mas justo no mês do meu nascimento, veio o ab**to...
e abriu em mim, um buraco cada vez mais denso,
palpável como os sonhos de outrora
sólido como um corpo no colo de alguém
extenso como o cordão umbilical que nos unia.

Justo no mês do meu nascimento
abriu em mim um espaço novo
a quem dei o nome de Vazio
e todos os dias ele toma de mim
o que no meu peito guardei
pra dar ao sonho que nasceria
e não tive a chance de conhecer.

Essa lonjura de outros corpos
dá ao Vazio a permissão de me ter por inteira
sempre assim, como me sinto agora
cheia de saudades de um ontem
onde eu me reconhecia
e sabia exatamente pra qual direção
meus passos deveriam apontar.

Essa lonjura de outros corpos
dá ao Vazio a permissão de me ter por inteira
e é sempre à essa hora,
quando o sol há muito já descansa
que ele reivindica exclusividade
ciente de que me terás como quer.

Justo no mês do meu nascimento
abriu em mim um buraco, à quem dei o nome de
Vazio, e
essa lonjura de outros corpos
dá ao Vazio a permissão de me ter por inteira
por tempo indeterminado
pelo tempo que durar a ausência."

(Miquelle Silva)

08/02/2020

"A tua palavra exige retorno. Eu sinto martelar aqui no peito o grito dos teus olhos. Pego minhas míseras palavras e lanço-as ao vento, na esperança de que chegue aos teus ouvidos e adentre teu peito cansado.
Mas quem ressurgirá com o eco de uma voz torpe? Quem haverá de reviver diante das infrutíferas tentativas de elencar a beleza da vida? Não há espaço para o belo aqui dentro. No entanto, eu me refaço, só para ver no teu rosto - ao menos uma vez à cada dia, pelos próximos 25 anos - aquele mesmo sorriso que acordou aqui dentro a voz de Eros, aquele mesmo balançar de olhos quando encontraram os meus, o mesmo riso contido ao rememorar histórias.
Eu não sei ressurgir os deuses, e tu és imponente demais para que eu, uma mortal moribunda, consiga te alçar ao Olimpo. Mas eu gostaria! Ah, como eu gostaria! Viveria mil anos só para continuar a dividir contigo segredos de liquidif**ador. Só para passar as noites sendo teus ouvidos, tuas contações de histórias à todo v***r. Tu me conta tuas dores e eu finjo que não sinto nada; tu me fala sobre teus sentimentos e eu finjo que não amo; tu me conta os teus sonhos e eu tento mostrar que estou bem na rotina que me aprisiona; tu me conta os teus segredos e eu os guardo com o cuidado de quem lapida diamantes. Teu coração é precioso demais.
(...) Eu não sei ser teu porto seguro. Eu naufrago em minha própria sequidão. Lembras? Sei que tu não exiges. Tu não exiges nada, mas tu precisa. Precisamos. Precisar...palavra pesada pra quem deseja apenas ser. Não precisamos precisar. Apenas somos. Tu és o que és. Eu sou o que sou. (...)
Viver é a palavra. Sem imposições. A única regra a ser mantida será àquela que exige tua voz pela manhã, teus poemas à tarde e teus segredos à noite.
As palavras me traem. Eu já contei esta traição. Eu precisava delas agora. Não palavras "geleia", quero as palavras "lar", morada de tuas dores. Quero palavras combatentes, para acertar em cheio teus ideias de "cessar".
Eu exijo que (r)exista, assim como tu exigias que minha caneta corresse o papel até alcançar olhos como os teus. Ávidos e atentos à poesia.
Não gosto de ordens, mas estou exigindo agora.
Tuas palavras exigem retorno. Eu sinto martelar aqui no peito o grito dos teus olhos. Estou lançando, agora, essas palavras, na esperança de que o vento as leve até teus ouvidos e elas adentram teu peito cansado.
(R)Exista!

. . . (Miquelle Silva)

20/01/2020

Hoje eu gostaria de tomar um porre
Do tamanho do que ainda resta da Amazônia
Entortar duas garrafas de vodca e
Fumar um maço de cigarro em 20 minutos
Ingerir gasolina até que
a brasa acenda meu peito
Me embriagar até que alguém me esqueça.

Hoje eu gostaria de desligar a aorta.
Eu gostaria...
Mas a verdade é que estou
cansada demais.
Cansada desta perda interminável
de desfolhar tudo o que toco
De arruinar planos e
Pôr fim à tudo o que chamo de 'meu'.

Como um parasita.

Posse profética.
Um à um
vão desabando aos meus pés.
Gatilho disparado à queima roupa.
Pesadelo infame.

Eu, Inquisição à queimar os corpos.
Eu, inJustiça à condenar os seres
ao cárcere da morte.
Como um deus que conheci
E fui muito feliz por tê-lo em meus braços.
Mas para cumprir minha sina
O sentenciei
À morte.
Assim como fiz como tantos outros.

Hoje,
esse deus dorme o 'sono dos justos'.
E imponente, ao seu lado
A vida resurge nos galhos da árvore que
maviosa, ocupa seu lugar ao sol.

Nascida na escuridão da noite
À arrastar vidas inteiras
E
Pétala por pétala
Desfolhar a beleza que
a vida se esforça pra manter."

( Miquelle Silva)

21/09/2019

"[...]
Ensaia um sorriso na revoada da aurora
Contempla teu rosto refletido nos meus olhos
Descansa teu corpo na correnteza do meu
Refaz as contas dos dias e aumenta minhas horas no relógio da tua vida
Repousa tua voz-canção nos meus ouvidos sedentos de ti
Encaixa teus dedos na flor do meu corpo e
Transporta-me ao céu da tua boca até que eu me esqueça de como encher os pulmões
Sussurra meu nome com a religiosidade de um griot
Compreende meu silêncio e minha inconstância
E se faz em mim até que percamos o medo de andarmos de mãos dadas.
[...]"

(Miquelle Silva)

05/09/2019

"só por essa noite, f**a

repousa tua cabeça no meu colo
me conta como foi teu dia
refaz, com palavras, o trajeto dos teus passos
deixa que o encaixe dos dedos conduza nossa dança
delineia com cautela e precisão os contornos do meu corpo

canta pra mim aquela 'música de velho'
com a letra que fala de amor com uma pitada de saudade
só pra que eu não me esqueça de como é a vida sem ti
enquanto eu me delicio com teu sorriso 'de canto da boca'

conta histórias de terror e assombração
as mesmas que teus avós um dia te contaram
e terei meu próprio cenário macabro enquanto tu massageia minhas costas
a ponto de eu não ter dúvidas sobre onde f**a o paraíso

só por essa noite...f**a
só por essa noite
mas se ela não for suficiente para que cantes, dance, repouse, pincele... volta amanhã
quando o sol se pôr
prolongaremos as horas até que o ciclo se repita
e eu perca a noção do tempo

volta amanhã
quando o sol se pôr

só por essa noite... mas se quiser
volta amanhã."

[Miquelle Silva]

29/08/2019

"Tatue a imagem do meu corpo na tua pele
até que ela sangre e tu se revire

Respire o aroma do meu corpo molhado
até que o ar se condense e tu percas o fôlego

Enlace os meus dedos nos teus
até que eles se desfaçam e reste apenas o suor

Engole a fumaça do quarto em chamas
até que o fogo se apague e tu não saibas mais como respirar

Inaugure no teu peito um altar em meu nome
até que eu me canse de reinar sobre teu 'corpo-súdito'

Revele aos deuses a minha existência
até que eu seja posta no Monte Olimpo a governar

Guarde em tua memória o som da minha voz
até que os teus ouvidos aprendam a escutar o silêncio

Grave em tua pupila a cor dos meus olhos
até que o sol permita às estrelas aparecer durante o dia

Abrace a ausência que ficou ao teu lado
até que perceba o quanto eu já estive presente

Reconheça a divindade que emana dos meus poros
até o dia em que teu corpo retorne ao pó

enquanto isso, seguirei a reinar
até que reconheçam nossa existência matriz."
[fragmento] (Miquelle Silva)

Endereço

Tomé-Açu, PA
6868000

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