04/09/2024
AOS (ÀS) HOMÉRICOS (AS) ATORES E ATRIZES DE TEATRO, COM GRATIDÃO
Dia 19 de agosto. A pagela do calendário registra: dia do ator. E traz uma mensagem de Auguste Rodin: “ama a tua vocação com paixão, ela é o sentido da tua vida”. Na companhia das letras, exalto os (as) trabalhadores (as) dos palcos. Exaltação de profissionais após ter participado da “Maratona Homero Ilíada Odisséia”, realizada pela “Cia Ilíadahomero de Teatro”, uma experiência teatral apresentada pela Caixa Cultural de Fortaleza, no período de 13/08 a 18/08 de 2024. Corporifico um espectador afetado pelo que vivenciou. Seis espetáculos protagonizados por atores e atrizes vocacionados e apaixonados pelos seus ofícios artísticos. Raquel Rizzo, Andressa Medeiros, Jonatas Medeiros, Fernando Marés, Daniel Dantas e Leticia Sabatella. Sob a direção do polímata Octavio Camargo, eles (as) assumiram a exigente tarefa de interpretar os cantos 1, 20 e 24 da Ilíada e os cantos 5 e 6 da Odisséia. Na tradução de Manoel Odorico Mendes, eles (as) deram shows de interpretação. Melhor escrevendo, ministraram aulas de atuação teatral.
Sou um educador, frequento teatros e levo os seus conteúdos para a sala de aula. Shakespeare, em diálogo com Maquiavel, para pensarmos o conceito de poder. “O doente imaginário” de Molière, para os (as) alunos (as) da área da saúde. Sociologia com o “auxílio luxuoso” da dramaturgia de Nelson Rodrigues. Dias Gomes, com “O pagador de promessas”, em uma exposição sobre “As formas elementares da vida religiosa”, obra clássica de Émile Durkheim. As peças de Plínio Marcos e as suas cortantes navalhadas sociológicas. Vejo semelhanças profissionais entre professores e atores, em seus sedutores, edificantes e suados ofícios. Na imaginação sociológica, Augusto Boal e Paulo Freire debatem sobre “a encenação como prática pedagógica”. Evoco um fundamental mestre da história do teatro brasileiro: Antunes Filho.
Nas seis encenações da “Cia Ilíadahomero de Teatro”, as palavras homéricas encontraram as suas performáticas traduções. Em um projeto de teatralidade essencial, faladas ou em libras, nas pronúncias e nos gestos, substantivos, artigos, adjetivos e verbos são nucleares nas montagens teatrais. Dicionários são vocalizados. A literatura recebe elogios encenados. A luz incide sobre os intérpretes e os textos que verbalizam. A plateia é ativa na sua atenta escuta. Todos os sentidos em excitação. Arteiros educadores, éticos, com convicção e responsabilidade, na condução dos fazeres artísticos e seus desdobramentos educativos e políticos. Espetáculos realizados por quem tem consciência da gravidade das arteirices e seus impactos sociais.
“O primor de seus versos”, louvados pelos gregos. Poesia que “mistura grandes pensamentos” e descreve “guerras e massacres”. Poemas no “campo de batalha” “das couraças recém-lustradas e dos escudos cintilantes/ Dos que se chocavam” (BRECHT, 2022, p.262). Com “refinamentos francamente amaneirados”, os “poemas homéricos” citam os “deuses celestes, siderais e fulgurantes, o sol e o raio”. Divindades dos “deliciosos cantos” de Homero, que “devia andar pelo mar Egeu” “lá por 750 a. C”. O teatro, “um gênero visionário ou espetacular”, “extraordinário e mágico”, se originou “de uma cerimônia ou ritos religiosos” gregos. “Máscaras” e a humana “necessidade de sua maravilhosa fantasmagoria”. Nos palcos cênicos, “um mundo imaginário” no qual “é sempre um Monte Tabor onde ocorrem transfigurações” (ORTEGA Y GASSET, 2021, p.166). “A farsa”, “uma das vísceras de que vive nossa vida”, engendra a existência do teatro.
Para Homero, luzes na ribalta. Com inspiração e transpiração, os homéricos atores e atrizes mostraram a nobreza e os suores da profissão de ator/atriz. As dores e as delícias do trabalho de darem vida a personagens complexos. Estes, protagonistas da dramaturgia de escritores clássicos, profundos conhecedores das ambiguidades e paradoxos humanos. Nada do que é humano é indiferente ou estranho às suas escritas. São promotores de estudos sobre os nossos lados sombrios e luminosos. Assassinamos e tocamos flauta. Fazemos amor e guerras. Condições humanas levadas para os palcos pelos trabalhadores (as) teatrais. Antes da estreia, os meses de ensaios, estudos, decorar as falas, preparação vocal e corporal, leituras. Ler é atividade básica para a formação dos atores/atrizes. As escolas de arte dramática apresentam um conjunto de pensadores, referências teórico-metodológicas para quem objetiva encenar um texto teatral, vestindo as máscaras da comédia e da tragédia.
Nas prateleiras das livrarias, na parte reservada para as artes, encontramos uma significativa diversidade de títulos voltados para a formação dos atores/atrizes. Estes (as) atuam em um campo de posições estéticas, correntes, escolas e tendências sintonizadas e conflituosas entre si. Concepções e direções cênicas em conformidade com variados interesses, entre os quais os políticos. A quem agrada ou desagrada o projeto cênico montado? A literatura produzida para quem atua na arena teatral reflete uma arte que é concebida na sua relação dialética com os conflitos sociais, motores da história. Estes movimentam os contextos históricos em que os artistas estão atuando. Dentre eles, os que atuam de modo torto, cortante, munidos de incômodas navalhas verbais.
Seleciono alguns livros disponíveis para os leitores interessados no conhecimento das teatralidades, nos seus diversos fazeres e projetos. Dentre estes, os que desvendam máscaras sociais. Teatros no plural, atravessados por questões ideológicas. Nas suas variadas vertentes, afinam ou desafinam em relação às expectativas das classes dominantes? Incomodam os poderosos? Estão dominadas pela lógica do mercado, focada nas bilheterias? A serviço de quem empregam as suas forças de trabalho? São “intelectuais orgânicos” das rupturas ou do conservadorismo? Sem querer ser reducionista, com motivação brechtiana, são perguntas de um trabalhador que lê e vê a complexidade do campo teatral.
Na bibliografia básica dos primeiros passos nos conceitos, teorias e métodos teatrais, anotei as seguintes referências: “Sobre a profissão do ator”, de Bertolt Brecht; “O texto no teatro” e “Moderna dramaturgia brasileira”, de Sábato Magaldi; “Manual mínimo do ator”, de Dario Fo; “A arte do ator”, de Richard Boleslavski; “A arte do ator”, de Jean-Jacques Roubine; “A tragédia grega”, de Albin Lesky”; “Para o ator”, de Michael Chekhov; “Teatro do oprimido e outras poéticas políticas”, de Augusto Boal; “A análise dos espetáculos”, de Patrice Pavis; “O jogo teatral no livro do diretor”, de Viola Spolin; “A construção da personagem” e “A preparação do ator”, de Constantin Stanislavski e o questionador texto de Denis Guénoun: “O teatro é necessário?”.
Emito um SIM maiúsculo, com o farol humano de Zé Celso Martinez Corrêa. Nos atos de quem vê “com os olhos livres”, quebra clichês, desmunheca e enfurecido, desafina “o coro dos contentes”, valorizo o discurso de um pensador do “teatro espelho nosso”. Um operário de opinião, com voz ativa e comprometido com a liberdade, “na ação teatral, no movimento”. Um oficineiro decolonial, crítico, desconstrutor e amoroso no seu compromisso com a “gestação de uma nova humanidade”. Não “na base do bom-mocismo”, mas deseducando, provocando, desmistificando, procurando “caminhos através da ação”. Ira teatral transformando mentalidades, sendo “instrumento de educação popular” e conjugando os verbos inovar, descobrir, romper, reivindicar, subverter. Na “conscientização da nossa realidade”, “a eficácia do teatro político”. “A arte pela arte”, criadora, agressiva, violenta, “solta e livre”, não “carneira” (MARTINEZ CORRÊA, 1998). Espíritos de rebanho destoam dos teatros radicais, engajados, das ruas e que dão voz e vez aos oprimidos, excluídos e invisíveis.
Do ponto de vista sociológico e humanístico, “o significado social do fazer teatral” exige “o estudo constante” das condições sociais em que vivemos. O conhecimento destas é regra elementar para atores/atrizes com “o senso de responsabilidade perante a sociedade”. Uma vida social diversa e complexa a ser por eles(as) captada, em congruência com a perspectiva brechtiana. Nesta, a importância dada aos seres humanos e a defesa da “sensibilidade social” como sendo “absolutamente necessária para o ator” (BRECHT, 2022, p.126). Provocativo, Brecht questiona e a pergunta não perde a sua atualidade: “o que os nossos atores estão realmente fazendo?”.
“A sociedade do artista” abre para um ativismo norteado por “uma proposta interativa e intersubjetiva de tomada de consciência”. Em uma “participação concreta e ativa”, artistas práticos conjugam o verbo despertar em um relacionamento com públicos a serem conscientizados. Estes são diversos e recebem toques e disparos das provocações feitas pelos encenadores. Plateias compostas por diferentes participantes, manifestam recepções variadas às mensagens veiculadas pelo espetáculo visto. O teatro pensa e promove uma introdução às ciências humanas e sociais através das suas concepções cênicas. Em movimento, a crença no “valor da ação” artística e do “poder transformador, política e eticamente transformador e formador da arte”. Na micropolítica de uma comunicação teatral, “vejo, entendo, portanto, ajo” (HUCHET, 2023, p.175).
Em “uma relação emotiva e intelectual” com uma obra de arte, a descoberta de “uma visão do mundo e do homem” lida em uma experiência sensível. Os (as) dramaturgos (as), como Samuel Beckett e outros (as), vistos (as) como pensadores (as). Teatrofilô: as mais belas questões da filosofia nos textos de algumas peças teatrais. “Ser ou não ser” é questão atemporal. Em provocativas adaptações, Hamlet pode ser transportado para o cotidiano de uma favela da periferia capitalista. Antígona “está entre nós”, na ótica da atriz Andrea Beltrão. Leitores de obras artísticas, medimos “a força do artista” nas situações em que encena as suas escolhas: o desinteresse “de tudo quanto sucede à sua volta” ou a escolha brechtiana de “denunciar os horrores do mundo em que vive”. Desinteressado ou artivista da denúncia, enfrentará “o juízo da história” (ECO, 1986, p.241).
Ao assumir o desafio de encenar Homero, a “Cia Ilíadahomero de Teatro” honra o fazer teatral ao mostrar a face realista de uma atividade que demanda por um arregaçar das mangas. Um exercício apaixonado de um trabalhador que tem horários para cumprir, disciplina para estudar, riscos a correr, incertezas rondando e contas para pagar. Com o fim da temporada de seu monólogo, o que fará o ator? No dia seguinte, estará desempregado? Quando surgirá outra proposta de emprego? E os editais? O “glamour” fantasioso propagandeado pelas caras e bocas das ilhas midiáticas, esconde o lado sacrificial e duro de um trabalho a demandar por valorização, reconhecimento e regulamentação. Ser ator/atriz não é para qualquer um. Desbanalizemos a ideia da facilidade de sê-lo. Quem está preparado para encarar um canto de Homero ou um Otelo shakespeariano? Nos palcos giratórios, em circulação, haja paixão ou amor para viver uma personagem por mais de dez anos. É necessária a identificação, a entrega e o talento para uma profissão preterida pela lógica mercantil da sociedade em que vivemos. “Vida a crédito” do “compro, logo sou” e do “sou visto, logo existo”. Na liquidez dos tempos, assim vivemos agora. Uma pergunta para os pais, em um mercado que tem olhos prioritários para o curso de medicina: o que vocês diriam para a sua filha de 20 anos que quer ser atriz?
Destaco a singularidade do ator/atriz de teatro. Na encenação, ao vivo e a cores, no contato direto com o público, as exigências são particulares. Longe de mim desmerecer os atores/atrizes das telas. Todos (as) merecem louvações. Atuar nas mais diversas linguagens, quando surgem as oportunidades, é uma experiência enriquecedora, uma chance de ser testado em vários veículos, cada um com a sua especificidade. Na televisão e no cinema, uma maior visibilidade do ator/atriz, pode estimular a ir vê-lo (a) na peça de teatro em que está atuando. Às vezes, vemos uma magistral interpretação de um ator no teatro e tempos depois, ele é visto trabalhando em um papel sem destaque, periférico, de uma novela televisiva e sendo refém de índices de audiência. Ofertas limitadas para uma concorrida disputa. A alienação do trabalho é experimentada em todos os campos profissionais. No Brasil, quantos atores/atrizes vivem exclusivamente de rendas geradas por empregos teatrais? Na hora de quitar os boletos bancários, o ator/atriz, de carne e osso, muitas vezes se vê diante de situações nas quais são limitadas as possibilidades de escolha. Por onde anda o fulano e a beltrana? Ausentes dos holofotes, o sumiço de alguns deles (as) tem uma causa: desemprego. Quando cruzo com atores/atrizes, desejo “merda”! É um dos modos de desejar boa sorte no linguajar teatral.
E agosto seguiu reverenciando os artistas no dia a eles (as) dedicado: 23. Para clarear os breus de um mundo paradoxal, com progressos e regressões, avanços e retrocessos, as luzes artísticas elevam o crédito na capacidade humana de gestar beleza e consistência. Nas suas “teatricidades”, os grupos e companhias teatrais seguem resistindo, experimentando, dando tapas e satirizando. “O Tapa”, “Os Satyros”, o “Teatro Cego”, o “Harém”, o “Oficina”, o “Galpão” e tantos outros coletivos, ocupam espaços, incluindo as ruas, e resistem nas suas arteirices. Quando recebem patrocínio público, em especial, democratizam o acesso. Daí a importância de um Ministério da Cultura com as suas leis de incentivo. Um governo sensível à ideia de colocar as artes nas nossas cestas básicas. “A gente não quer só comida”. Nem só de pão vivemos. Queremos ir ao teatro para vermos criações qualitativas e com entradas a preços populares ou “gratuitas”. Pagamos impostos para o atendimento das nossas múltiplas dimensões. A gente quer entrar nos centros e caixas culturais dos nossos brasis.
BRECHT, Bertolt. Sobre a profissão do ator. São Paulo: Editora 34, 2022.
ECO, Umberto. A definição da arte. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 1986.
HUCHET, Stéphane. A sociedade do artista: ativismo, morte e memória da arte. São Paulo: Editora 34, 2023.
MARTINEZ CORRÊA, José Celso. Primeiro ato: cadernos, depoimentos, entrevistas (1958-1974). São Paulo: Ed. 34, 1998.
ORTEGA Y GASSET, José. A desumanização da arte & outros escritos. Campinas, SP: Vide Editorial, 2021.
FRANCISCO DE OLIVEIRA BARROS JÚNIORAOS (ÀS) HOMÉRICOS (AS) ATORES E ATRIZES DE TEATRO, COM GRATIDÃO
Dia 19 de agosto. A pagela do calendário registra: dia do ator. E traz uma mensagem de Auguste Rodin: “ama a tua vocação com paixão, ela é o sentido da tua vida”. Na companhia das letras, exalto os (as) trabalhadores (as) dos palcos. Exaltação de profissionais após ter participado da “Maratona Homero Ilíada Odisséia”, realizada pela “Cia Ilíadahomero de Teatro”, uma experiência teatral apresentada pela Caixa Cultural de Fortaleza, no período de 13/08 a 18/08 de 2024. Corporifico um espectador afetado pelo que vivenciou. Seis espetáculos protagonizados por atores e atrizes vocacionados e apaixonados pelos seus ofícios artísticos. Raquel Rizzo, Andressa Medeiros, Jonatas Medeiros, Fernando Marés, Daniel Dantas e Leticia Sabatella. Sob a direção do polímata Octavio Camargo, eles (as) assumiram a exigente tarefa de interpretar os cantos 1, 20 e 24 da Ilíada e os cantos 5 e 6 da Odisséia. Na tradução de Manoel Odorico Mendes, eles (as) deram shows de interpretação. Melhor escrevendo, ministraram aulas de atuação teatral.
Sou um educador, frequento teatros e levo os seus conteúdos para a sala de aula. Shakespeare, em diálogo com Maquiavel, para pensarmos o conceito de poder. “O doente imaginário” de Molière, para os (as) alunos (as) da área da saúde. Sociologia com o “auxílio luxuoso” da dramaturgia de Nelson Rodrigues. Dias Gomes, com “O pagador de promessas”, em uma exposição sobre “As formas elementares da vida religiosa”, obra clássica de Émile Durkheim. As peças de Plínio Marcos e as suas cortantes navalhadas sociológicas. Vejo semelhanças profissionais entre professores e atores, em seus sedutores, edificantes e suados ofícios. Na imaginação sociológica, Augusto Boal e Paulo Freire debatem sobre “a encenação como prática pedagógica”. Evoco um fundamental mestre da história do teatro brasileiro: Antunes Filho.
Nas seis encenações da “Cia Ilíadahomero de Teatro”, as palavras homéricas encontraram as suas performáticas traduções. Em um projeto de teatralidade essencial, faladas ou em libras, nas pronúncias e nos gestos, substantivos, artigos, adjetivos e verbos são nucleares nas montagens teatrais. Dicionários são vocalizados. A literatura recebe elogios encenados. A luz incide sobre os intérpretes e os textos que verbalizam. A plateia é ativa na sua atenta escuta. Todos os sentidos em excitação. Arteiros educadores, éticos, com convicção e responsabilidade, na condução dos fazeres artísticos e seus desdobramentos educativos e políticos. Espetáculos realizados por quem tem consciência da gravidade das arteirices e seus impactos sociais.
“O primor de seus versos”, louvados pelos gregos. Poesia que “mistura grandes pensamentos” e descreve “guerras e massacres”. Poemas no “campo de batalha” “das couraças recém-lustradas e dos escudos cintilantes/ Dos que se chocavam” (BRECHT, 2022, p.262). Com “refinamentos francamente amaneirados”, os “poemas homéricos” citam os “deuses celestes, siderais e fulgurantes, o sol e o raio”. Divindades dos “deliciosos cantos” de Homero, que “devia andar pelo mar Egeu” “lá por 750 a. C”. O teatro, “um gênero visionário ou espetacular”, “extraordinário e mágico”, se originou “de uma cerimônia ou ritos religiosos” gregos. “Máscaras” e a humana “necessidade de sua maravilhosa fantasmagoria”. Nos palcos cênicos, “um mundo imaginário” no qual “é sempre um Monte Tabor onde ocorrem transfigurações” (ORTEGA Y GASSET, 2021, p.166). “A farsa”, “uma das vísceras de que vive nossa vida”, engendra a existência do teatro.
Para Homero, luzes na ribalta. Com inspiração e transpiração, os homéricos atores e atrizes mostraram a nobreza e os suores da profissão de ator/atriz. As dores e as delícias do trabalho de darem vida a personagens complexos. Estes, protagonistas da dramaturgia de escritores clássicos, profundos conhecedores das ambiguidades e paradoxos humanos. Nada do que é humano é indiferente ou estranho às suas escritas. São promotores de estudos sobre os nossos lados sombrios e luminosos. Assassinamos e tocamos flauta. Fazemos amor e guerras. Condições humanas levadas para os palcos pelos trabalhadores (as) teatrais. Antes da estreia, os meses de ensaios, estudos, decorar as falas, preparação vocal e corporal, leituras. Ler é atividade básica para a formação dos atores/atrizes. As escolas de arte dramática apresentam um conjunto de pensadores, referências teórico-metodológicas para quem objetiva encenar um texto teatral, vestindo as máscaras da comédia e da tragédia.
Nas prateleiras das livrarias, na parte reservada para as artes, encontramos uma significativa diversidade de títulos voltados para a formação dos atores/atrizes. Estes (as) atuam em um campo de posições estéticas, correntes, escolas e tendências sintonizadas e conflituosas entre si. Concepções e direções cênicas em conformidade com variados interesses, entre os quais os políticos. A quem agrada ou desagrada o projeto cênico montado? A literatura produzida para quem atua na arena teatral reflete uma arte que é concebida na sua relação dialética com os conflitos sociais, motores da história. Estes movimentam os contextos históricos em que os artistas estão atuando. Dentre eles, os que atuam de modo torto, cortante, munidos de incômodas navalhas verbais.
Seleciono alguns livros disponíveis para os leitores interessados no conhecimento das teatralidades, nos seus diversos fazeres e projetos. Dentre estes, os que desvendam máscaras sociais. Teatros no plural, atravessados por questões ideológicas. Nas suas variadas vertentes, afinam ou desafinam em relação às expectativas das classes dominantes? Incomodam os poderosos? Estão dominadas pela lógica do mercado, focada nas bilheterias? A serviço de quem empregam as suas forças de trabalho? São “intelectuais orgânicos” das rupturas ou do conservadorismo? Sem querer ser reducionista, com motivação brechtiana, são perguntas de um trabalhador que lê e vê a complexidade do campo teatral.
Na bibliografia básica dos primeiros passos nos conceitos, teorias e métodos teatrais, anotei as seguintes referências: “Sobre a profissão do ator”, de Bertolt Brecht; “O texto no teatro” e “Moderna dramaturgia brasileira”, de Sábato Magaldi; “Manual mínimo do ator”, de Dario Fo; “A arte do ator”, de Richard Boleslavski; “A arte do ator”, de Jean-Jacques Roubine; “A tragédia grega”, de Albin Lesky”; “Para o ator”, de Michael Chekhov; “Teatro do oprimido e outras poéticas políticas”, de Augusto Boal; “A análise dos espetáculos”, de Patrice Pavis; “O jogo teatral no livro do diretor”, de Viola Spolin; “A construção da personagem” e “A preparação do ator”, de Constantin Stanislavski e o questionador texto de Denis Guénoun: “O teatro é necessário?”.
Emito um SIM maiúsculo, com o farol humano de Zé Celso Martinez Corrêa. Nos atos de quem vê “com os olhos livres”, quebra clichês, desmunheca e enfurecido, desafina “o coro dos contentes”, valorizo o discurso de um pensador do “teatro espelho nosso”. Um operário de opinião, com voz ativa e comprometido com a liberdade, “na ação teatral, no movimento”. Um oficineiro decolonial, crítico, desconstrutor e amoroso no seu compromisso com a “gestação de uma nova humanidade”. Não “na base do bom-mocismo”, mas deseducando, provocando, desmistificando, procurando “caminhos através da ação”. Ira teatral transformando mentalidades, sendo “instrumento de educação popular” e conjugando os verbos inovar, descobrir, romper, reivindicar, subverter. Na “conscientização da nossa realidade”, “a eficácia do teatro político”. “A arte pela arte”, criadora, agressiva, violenta, “solta e livre”, não “carneira” (MARTINEZ CORRÊA, 1998). Espíritos de rebanho destoam dos teatros radicais, engajados, das ruas e que dão voz e vez aos oprimidos, excluídos e invisíveis.
Do ponto de vista sociológico e humanístico, “o significado social do fazer teatral” exige “o estudo constante” das condições sociais em que vivemos. O conhecimento destas é regra elementar para atores/atrizes com “o senso de responsabilidade perante a sociedade”. Uma vida social diversa e complexa a ser por eles(as) captada, em congruência com a perspectiva brechtiana. Nesta, a importância dada aos seres humanos e a defesa da “sensibilidade social” como sendo “absolutamente necessária para o ator” (BRECHT, 2022, p.126). Provocativo, Brecht questiona e a pergunta não perde a sua atualidade: “o que os nossos atores estão realmente fazendo?”.
“A sociedade do artista” abre para um ativismo norteado por “uma proposta interativa e intersubjetiva de tomada de consciência”. Em uma “participação concreta e ativa”, artistas práticos conjugam o verbo despertar em um relacionamento com públicos a serem conscientizados. Estes são diversos e recebem toques e disparos das provocações feitas pelos encenadores. Plateias compostas por diferentes participantes, manifestam recepções variadas às mensagens veiculadas pelo espetáculo visto. O teatro pensa e promove uma introdução às ciências humanas e sociais através das suas concepções cênicas. Em movimento, a crença no “valor da ação” artística e do “poder transformador, política e eticamente transformador e formador da arte”. Na micropolítica de uma comunicação teatral, “vejo, entendo, portanto, ajo” (HUCHET, 2023, p.175).
Em “uma relação emotiva e intelectual” com uma obra de arte, a descoberta de “uma visão do mundo e do homem” lida em uma experiência sensível. Os (as) dramaturgos (as), como Samuel Beckett e outros (as), vistos (as) como pensadores (as). Teatrofilô: as mais belas questões da filosofia nos textos de algumas peças teatrais. “Ser ou não ser” é questão atemporal. Em provocativas adaptações, Hamlet pode ser transportado para o cotidiano de uma favela da periferia capitalista. Antígona “está entre nós”, na ótica da atriz Andrea Beltrão. Leitores de obras artísticas, medimos “a força do artista” nas situações em que encena as suas escolhas: o desinteresse “de tudo quanto sucede à sua volta” ou a escolha brechtiana de “denunciar os horrores do mundo em que vive”. Desinteressado ou artivista da denúncia, enfrentará “o juízo da história” (ECO, 1986, p.241).
Ao assumir o desafio de encenar Homero, a “Cia Ilíadahomero de Teatro” honra o fazer teatral ao mostrar a face realista de uma atividade que demanda por um arregaçar das mangas. Um exercício apaixonado de um trabalhador que tem horários para cumprir, disciplina para estudar, riscos a correr, incertezas rondando e contas para pagar. Com o fim da temporada de seu monólogo, o que fará o ator? No dia seguinte, estará desempregado? Quando surgirá outra proposta de emprego? E os editais? O “glamour” fantasioso propagandeado pelas caras e bocas das ilhas midiáticas, esconde o lado sacrificial e duro de um trabalho a demandar por valorização, reconhecimento e regulamentação. Ser ator/atriz não é para qualquer um. Desbanalizemos a ideia da facilidade de sê-lo. Quem está preparado para encarar um canto de Homero ou um Otelo shakespeariano? Nos palcos giratórios, em circulação, haja paixão ou amor para viver uma personagem por mais de dez anos. É necessária a identificação, a entrega e o talento para uma profissão preterida pela lógica mercantil da sociedade em que vivemos. “Vida a crédito” do “compro, logo sou” e do “sou visto, logo existo”. Na liquidez dos tempos, assim vivemos agora. Uma pergunta para os pais, em um mercado que tem olhos prioritários para o curso de medicina: o que vocês diriam para a sua filha de 20 anos que quer ser atriz?
Destaco a singularidade do ator/atriz de teatro. Na encenação, ao vivo e a cores, no contato direto com o público, as exigências são particulares. Longe de mim desmerecer os atores/atrizes das telas. Todos (as) merecem louvações. Atuar nas mais diversas linguagens, quando surgem as oportunidades, é uma experiência enriquecedora, uma chance de ser testado em vários veículos, cada um com a sua especificidade. Na televisão e no cinema, uma maior visibilidade do ator/atriz, pode estimular a ir vê-lo (a) na peça de teatro em que está atuando. Às vezes, vemos uma magistral interpretação de um ator no teatro e tempos depois, ele é visto trabalhando em um papel sem destaque, periférico, de uma novela televisiva e sendo refém de índices de audiência. Ofertas limitadas para uma concorrida disputa. A alienação do trabalho é experimentada em todos os campos profissionais. No Brasil, quantos atores/atrizes vivem exclusivamente de rendas geradas por empregos teatrais? Na hora de quitar os boletos bancários, o ator/atriz, de carne e osso, muitas vezes se vê diante de situações nas quais são limitadas as possibilidades de escolha. Por onde anda o fulano e a beltrana? Ausentes dos holofotes, o sumiço de alguns deles (as) tem uma causa: desemprego. Quando cruzo com atores/atrizes, desejo “merda”! É um dos modos de desejar boa sorte no linguajar teatral.
E agosto seguiu reverenciando os artistas no dia a eles (as) dedicado: 23. Para clarear os breus de um mundo paradoxal, com progressos e regressões, avanços e retrocessos, as luzes artísticas elevam o crédito na capacidade humana de gestar beleza e consistência. Nas suas “teatricidades”, os grupos e companhias teatrais seguem resistindo, experimentando, dando tapas e satirizando. “O Tapa”, “Os Satyros”, o “Teatro Cego”, o “Harém”, o “Oficina”, o “Galpão” e tantos outros coletivos, ocupam espaços, incluindo as ruas, e resistem nas suas arteirices. Quando recebem patrocínio público, em especial, democratizam o acesso. Daí a importância de um Ministério da Cultura com as suas leis de incentivo. Um governo sensível à ideia de colocar as artes nas nossas cestas básicas. “A gente não quer só comida”. Nem só de pão vivemos. Queremos ir ao teatro para vermos criações qualitativas e com entradas a preços populares ou “gratuitas”. Pagamos impostos para o atendimento das nossas múltiplas dimensões. A gente quer entrar nos centros e caixas culturais dos nossos brasis.
BRECHT, Bertolt. Sobre a profissão do ator. São Paulo: Editora 34, 2022.
ECO, Umberto. A definição da arte. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 1986.
HUCHET, Stéphane. A sociedade do artista: ativismo, morte e memória da arte. São Paulo: Editora 34, 2023.
MARTINEZ CORRÊA, José Celso. Primeiro ato: cadernos, depoimentos, entrevistas (1958-1974). São Paulo: Ed. 34, 1998.
ORTEGA Y GASSET, José. A desumanização da arte & outros escritos. Campinas, SP: Vide Editorial, 2021.
FRANCISCO DE OLIVEIRA BARROS JÚNIOR