26/12/2018
Na última quarta-feira (19/12), foi lançado o número 40 dos Cadernos do GIPE-CIT. Este foi um número especial com produções em Teatro do Oprimido.
Para ler na íntegra os 14 manuscritos desta edição, acesse:
http://www.ppgac.tea.ufba.br/wp-content/uploads/2018/12/cad_gipe_cit-40.pdf
Confira o editorial com a apresentação destes textos, abaixo:
O número 40 do Cadernos do GIPE-CIT traz como eixo temático Teatro do Oprimido: Práticas Político-Pedagógicas - “Ensaios para a Revolução”, o mesmo das 6ª Jornadas Internacionais de Teatro do Oprimido e Universidade (JITOU), que ocorreu na Universidade Federal da Bahia (UFBA), de 30 de julho a 01 de agosto de 2018. Esta edição do evento foi fruto da parceria do Grupo de Estudos em Teatro do Oprimido (GESTO) com o Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC), a Escola de Teatro (ETEA) e a Faculdade de Educação (FACED) da UFBA. Apresentamos aqui 14 textos de pesquisadoras/es, praticantes, educadoras/es e militantes de movimentos sociais que buscaram tecer análises críticas da realidade e criar linhas de luta, resistência e enfrentamento artístico-criativo contra as diversas formas de opressão social e o capitalismo.
Iniciamos esta edição com o resgate feito por Flavio da Conceição da trajetória de Augusto Boal com teatro engajado até a construção do Teatro do Oprimido. É alicerçado na criação de um espaço dialógico-dialético entre atores e plateia, na arte enquanto política, nas falas/representações da realidade a partir do ponto de vista dos oprimidos e na busca pelo pluralismo de ideias, que a metodologia boaleana se funda e busca engendrar processos nos quais “o oprimido é o sujeito e não o objeto”.
Preocupado com a emancipação dos sujeitos para a cidadania social, Lindomar da Silva Araujo articula as concepções metodológicas do Teatro do Oprimido com as propostas epistemológicas de Boaventura de Souza Santos no enfrentamento da crise paradigmática da modernidade. Essa revolução no fazer teatral, enquanto linguagem de caráter crítico-social, atua nas potencialidades de reinvenção de trajetos emancipatórios que ultrapassem a ordem do colonialismo, demonstrando as possibilidades estético-políticas para o campo da educação.
Marcel Cavalcante e Rossana Pugliese também discorrem sobre as possibilidades da proposta de Boal para o contexto escolar, tendo como enfoque o combate à naturalização da violência no ambiente escolar. Iniciam o texto com um dado alarmante: 42% dos alunos de escolas públicas das capitais mais violentas do Brasil já foram, fisicamente ou verbalmente, agredidos na escola. Por meio de uma revisão narrativa dialogada com autoras e autores do campo da educação, filosofia, psicologia, sociologia e teatro, os autores apontam o importante papel do Teatro do Oprimido na reversão do quadro de banalização da violência, destacando sua dimensão humanizadora.
Já no contexto das práticas educacionais com o método, Taiana Souza Lemos descreve e reflete sobre suas vivências em uma escola municipal de Salvador-BA. Por meio da metáfora “Pedagogia da Lona”, detalha os desafios da realidade do sistema educacional e do cotidiano opressivo vivido pelos estudantes. Relata, ainda, os seus fazeres para que o “lugar decorativo” em que o ensino de teatro na escola é tradicionalmente relegado seja superado.
Igualmente examinando as suas práticas, Marina Xavier Paes e Fabiane Tejada da Silveira investigam as ações desenvolvidas no Projeto de Extensão Teatro do Oprimido na Comunidade (TOCO) vinculado à Universidade Federal de Pelotas (UFPel). No entanto, têm como recorte refletir sobre as contribuições na formação de professores de teatro, uma vez que os extensionistas são do Curso de Graduação Licenciatura em Teatro desta instituição. As TOCOminas e TOCOmanos - maneira como estes graduandos se denominam - realizaram atividades com o arsenal do Teatro do Oprimido em eventos, escolas, formação de professores e em outros projetos de educação popular.
Carla Dameane Pereira de Souza reflete sobre outra ação extensionista, desta vez no contexto da socioeducação, com o projeto “Pixote Camisa 10: Oficinas Interdisciplinares de Língua Espanhola junto à Fundação da Criança e do Adolescente”, no estado da Bahia. Para além da análise das oficinas, a autora apresenta questões sobre a situação do adolescente e do jovem que se encontra em situação de privação de liberdade. Há aqui um belo exemplo que demonstra que o ensino de línguas pode se dar a partir dos contextos de vida dos educandos e em integração com o Teatro do Oprimido. Este parece poder contribuir para que as Comunidades de Atendimento Socioeducativo possam se transformar “em um espaço de convivência, troca de conhecimentos, criação artística e desenvolvimento da autoestima e estimular a pulsão revolucionária onde a liberdade física encontra-se cerceada”.
Ancorada na busca de alternativas para que o contexto escolar de adolescentes privados de liberdade auxilie no processo de reintegração social e que estes possam produzir ações protagônicas, Ingreth da Silva Adriano apresenta vivência artística com o método em um Centro de Ensino Educacional de Unidade de Internação do Distrito Federal. Aproveitando esta experiência, discorre sobre os desafios e possibilidades de interlocução com o sistema de segurança.
É sobre as possibilidades de fissuras no ambiente prisional a partir de processos artísticos-políticos que Helen Sarapeck produz o seu ensaio. Ela analisa as experiências do PrisionCreativeArts Project em Michigan, EUA, e do Projeto Teatro do Oprimido nas Prisões do Centro de Teatro do Oprimido (CTO) no Brasil. Revelando incertezas e provocações sobre o tema, nos faz pensar sobre o agir ético e político no trabalho em prisões, com um processo de ação-reflexão-ação que, ao invés de nos apaziguar, nos mantenha indispostos e críticos a este local cruel, ra***ta e segregacionista do sistema capitalista neoliberal.
A técnica do Teatro Legislativo criada por Augusto Boal durante o seu mandato político-teatral na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, entre os anos de 1993 e 1996, está sendo fonte de inspiração para o Gabinetona - mandato coletivo, democrático e popular das vereadoras Cida Falabella e Áurea Carolina de Belo Horizonte, Minas Gerais. Gabriela Serpa Chiari nos relata sua experiência como uma das artistas integrantes do grupo AzDiferentonas!, que é responsável pela mobilização do mandato e que forma e potencializa multiplicadores de Teatro do Oprimido pela cidade. A participação na política institucional mais efetiva e na “cotidianização da revolução” são trazidos como reflexos do potencial transformador do método.
É sobre a transformação social incitada pelo método que Claudete Felix centra sua análise, apontando o seu potencial para a evolução e revolução de ideias e ações, no que chama de “r-evolução com arte”. Para ilustrar esta tese, dispõe de elementos da sua experiência de trabalho no CTO desde que foi fundado e a trajetória do grupo de atrizes e trabalhadoras domésticas Marias do Brasil, formado em 1998 no subúrbio carioca e atua até os dias atuais.
Outro Grupo de Teatro do Oprimido analisado nesta edição é o Pirei na Cenna, formado em 1997 a partir de uma oficina no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, Niterói, Rio de Janeiro, pela curinga Cláudia Simone dos Santos que inseriu a “linguagem cênica no universo da Loucura na tentativa de reverter ou minimizar o processo de exclusão dos usuários de Saúde Mental”. Christiano Cesar Mattos Dias nos brinda aqui com a apresentação do processo de construção artístico/estético das imagens do grupo, ou, como ele mesmo define, de seus “delírios estéticos”.
Janete Silva de Brito, Fabricio Silva de Brito e Manuela de Oliveira Santos Ribeiro, que compõem o grupo soteropolitano de arte popular A Pombagem, refletem sobre uma de suas experiências no Projeto Levanta-te e Anda com o Teatro do Oprimido e o Teatro de Rua com a população em situação de rua. Suas vivências demonstram o caráter libertador do teatro popular, tido como uma linguagem mobilizadora da cidadania e contribui nos processos educativos para a transformação social.
A técnica do Teatro Invisível criada por Boal com objetivo de dar visibilidade ao que está invisível na vida cotidiana foi a escolhida pelos participantes da oficina de Teatro do Oprimido e Saúde do 5° Encontro Latinoamericano de Teatro das Pessoas Oprimidas que ocorreu em Montevidéu, Uruguai, para discutir a medicalização da vida. César Augusto Paro nos apresenta esta experiência por meio de um ensaio narrativo, que busca trazer o leitor para o momento da encenação, em que provocou-se a interpenetração da ficção na realidade e da realidade na ficção.
Por fim, fechamos esta edição com a reflexão suscitada por Cilene Nascimento Canda, Ana Flávia Andrade Hamad e Taína Assis Soares acerca de um dos elementos essenciais do Teatro do Oprimido, o/a curinga e a sua formação. As autoras apresentam questionamentos e argumentos produzidos a partir de experiências observadas com a técnica do Teatro-Fórum, a respeito da condição de ser/estar curinga, salientando a sua função complexa, por atuar artística, política e pedagogicamente no contexto social. O texto contribui para a ampliação da compreensão de um tipo de mediação dialógica e dialética entre palco e plateia, situando o teatro-fórum como processo de reflexão-ação-reflexão crítico perante a cena, a educação e a sociedade.
Agradecemos a todas as autoras e todos os autores, assim como os/as demais envolvidos na publicação deste número. Esperamos que as experiências aqui relatadas e os aportes teórico-epistêmicos trazidos possam fomentar a multiplicação do método e de novos horizontes ético-estético-políticos para a transformação social.
Boa leitura!
Antônia Pereira Bezerra, César Augusto Paro, Cilene Nascimento Canda e LickoTurle
Em fevereiro, temos outro encontro marcado no teatro Vila Velha!
Organizadores do Cadernos do GIPE-CIT número 40