01/05/2026
O Estado brasileiro nunca rompeu com a colônia. Mudou de nome, trocou de bandeira, reescreveu constituições, alternou regimes, e em cada transição o que se transformou foi a fachada, jamais o mecanismo. A tese de que houve rupturas na história nacional não resiste ao exame das datas e dos números.
A independência de 1822 foi negociada pelo herdeiro do trono português, que se manteve no poder com a mesma corte, a mesma aristocracia rural, a mesma escravidão e o mesmo modelo agroexportador. O Brasil “independente” pagou por décadas uma indenização de dois milhões de libras esterlinas a Portugal, contraída em empréstimo junto à banca Rothschild de Londres, dívida que só foi quitada nos anos 1880. A independência foi, em termos materiais, uma transferência de credor. Trocou-se a metrópole portuguesa pela metrópole inglesa, e a exploração interna se manteve intacta.
Lembrando que, entre 1863 e 1871, a Corte do Rio de Janeiro emprestou £14.278.520 da banca britânica através da Casa Rothschild para financiar a Guerra do Paraguai. Esse valor sozinho representava 60% de todo o comércio exterior do Brasil em 1860 . Para dimensionar: o governo brasileiro gastou, no esforço de guerra, um montante equivalente a onze vezes o orçamento nacional de 1864.
A abolição de 1888 libertou cerca de setecentos mil escravizados sem terra, sem indenização, sem programa de integração, sem alfabetização, sem acesso a crédito. No mesmo período, o governo imperial e depois o republicano subsidiou a vinda de milhões de imigrantes europeus para substituir a mão de obra negra nas lavouras de café, oferecendo a esses recém-chegados as terras e os empregos negados aos libertos. A Lei de Terras de 1850, promulgada quase quarenta anos antes, já havia tornado impossível a aquisição de terra por quem não tivesse capital. Aboliu-se a escravidão garantindo que os escravizados não tivessem para onde ir. A República que veio em seguida apenas formalizou a exclusão.
A Era Vargas, vendida como ruptura modernizadora e revolução trabalhista, manteve intocada a estrutura agrária. A CLT de 1943 excluiu explicitamente os trabalhadores rurais, que eram a maioria da população, de praticamente todos os direitos que concedia. O Estatuto do Trabalhador Rural só veio em 1963, e foi sufocado pelo golpe do ano seguinte. Vargas industrializou o sudeste sem tocar no latifúndio, criou um proletariado urbano sem desmontar o coronelismo, e fundou uma burocracia federal que rapidamente se converteu em nova forma de patrimonialismo, distribuindo cargos e estatais como capitanias hereditárias.
A ditadura militar de 1964 a 1985 aprofundou o modelo. O chamado milagre econômico foi financiado por endividamento externo massivo, que saltou de cerca de três bilhões de dólares em 1964 para mais de cem bilhões em 1985. A concentração de renda piorou drasticamente, com os dez por cento mais ricos passando a deter mais da metade da renda nacional. A reforma agrária prometida pelo Estatuto da Terra de 1964 nunca aconteceu. As multinacionais entraram em massa, o capital nacional se associou a elas em posição subordinada, e o trabalhador perdeu poder de compra real ao longo de toda a década de 1970.
A redemocratização de 1985 e a Constituição de 1988 são o caso mais ilustrativo do continuísmo brasileiro. A Constituição cidadã foi escrita por uma assembleia que incluía a maioria dos parlamentares eleitos sob a ditadura. Não houve julgamento dos torturadores, não houve depuração das instituições, não houve reforma agrária, não houve reforma tributária progressiva. Os mesmos coronéis do nordeste, os mesmos clãs políticos do centro-oeste, os mesmos grupos econômicos que prosperaram sob os generais permaneceram no poder. Sarney, presidente da redemocratização, era o líder do partido de sustentação da ditadura semanas antes de assumir a presidência civil.
O período seguinte aprofundou a extração por outros meios. A abertura comercial dos anos 1990, sob Collor e Fernando Henrique, desindustrializou parcelas relevantes do parque produtivo nacional e ampliou a dependência de commodities. As privatizações transferiram patrimônio público a grupos privados nacionais e estrangeiros a preços frequentemente abaixo do valor patrimonial, financiadas em parte pelo próprio BNDES. O Estado emprestou dinheiro para que comprassem o Estado. A dívida pública interna, que era de cerca de sessenta bilhões de reais em 1994, ultrapassou setecentos bilhões em 2002, transformando o orçamento federal em mecanismo permanente de transferência de renda do contribuinte para os detentores de títulos públicos.
O lulismo, apresentado como inflexão histórica, manteve a arquitetura. Houve redução real da pobreza extrema, que caiu de cerca de doze por cento da população em 2003 para abaixo de cinco por cento em 2014, e essa redução foi conquista política significativa. Mas ela se deu sem reforma tributária, sem reforma agrária, sem reforma política. Pelo contrário, a transferência de renda para a elite dominante, o bolsa-banqueiro, foi em números absolutos e relativos bem maiores do que o destinado para as faixas mais carentes. O Brasil continua sendo um dos países onde os mais ricos pagam proporcionalmente menos imposto que os mais pobres, porque dois terços da arrecadação federal vêm de tributos sobre consumo, além da renda do trabalhador assalariado ser confiscada em 50%, claramente mantendo a característica escravista deste tipo de relação trabalhista intermediada pelo Estado. O agronegócio se fortaleceu, o desmatamento avançou, as exportações de commodities passaram de cerca de vinte e cinco por cento da pauta em 2002 para mais de cinquenta por cento na década seguinte, reprimarizando a economia. O capitalismo de compadrio, agora chamado de campeões nacionais, distribuiu crédito subsidiado do BNDES a um punhado de grupos econômicos selecionados pelo governo.
O bolsonarismo e o que veio depois apenas continuam a operação por outros meios. A reforma trabalhista de 2017 e a reforma da previdência de 2019 desmontaram parte das proteções construídas no século XX, ampliando a precarização. O orçamento secreto, que distribuiu bilhões em emendas parlamentares opacas durante o governo Bolsonaro, é o coronelismo do século XXI operando dentro do parlamento federal. As bancadas do agronegócio, da mineração e da segurança pública controlam a agenda legislativa em nome de interesses que se confundem com os de grupos exportadores e de forças policiais militarizadas.
Em duzentos anos, o que se vê é uma linha contínua. As elites brasileiras aprenderam a absorver cada onda de mudança preservando o essencial. Cada transição foi negociada para que a estrutura proprietária, fiscal, racial e territorial permanecesse intocada. O Brasil é o país onde tudo muda para que nada mude, fórmula que Lampedusa cunhou para a Sicília mas que descreve com precisão maior a engenharia política nacional.
A pergunta que se impõe é por que essa repetição se sustenta. A resposta econômica é insuficiente. Se fosse apenas interesse material, alguma fissura já teria se aberto, alguma classe teria forçado a reorganização do pacto. O que se repete tem a consistência de algo que excede o cálculo, algo que opera abaixo do nível da decisão consciente. Há um investimento afetivo na própria submissão, uma satisfação extraída da posição subordinada que torna a ruptura indesejável mesmo para quem mais perde com o arranjo.
Nietzsche descreveu o mecanismo pelo qual o impotente transforma sua impotência em virtude, sua subordinação em superioridade moral, sua incapacidade de agir em prova de elevação espiritual. O ressentimento opera assim, invertendo valores para que o que é fraqueza se chame bondade, e o que é força se chame corrupção. O brasileiro aplicou esse mecanismo à própria condição colonial. Aprendeu a fazer da subordinação histórica uma identidade orgulhosa, ora celebrando-se como povo cordial, ora como povo sofrido, ora como nação criativa que improvisa onde os outros planejam. Cada uma dessas autoimagens cumpre a mesma função, mascarar a impotência política transformando-a em traço cultural valorizado. A cordialidade é submissão estilizada.
O sofrimento é resignação santificada. A criatividade do improviso é a ausência de instituições convertida em folclore.
Esse mecanismo se reforça porque rende algo a quem o pratica. Reconhecer-se como permanentemente colonial seria insuportável, então cada estrato encontra na arquitetura herdada uma posição de prazer simbólico que defenderá mesmo contra seus próprios interesses materiais.
A elite goza com a fantasia de nobreza tropical e com a gestão privada do espaço público. A classe média goza com a distinção que sinais importados lhe oferecem em relação ao pobre. O pobre, e essa é a chave mais difícil, encontra no padrinho político, no jeitinho, na pequena vingança contra o sistema, e sobretudo na identificação imaginária com o senhor que um dia poderá ser, uma economia de pequenos prazeres que substitui a transformação real. O que retorna a cada eleição, a cada crise, a cada onda autoritária, é tudo aquilo que o país nunca elaborou e por isso repete em ato. A escravidão não simbolizada, o genocídio indígena recalcado sob mitos de mestiçagem, a dependência econômica disfarçada em vocação exportadora.
A repetição se sustenta também porque o discurso oficial sobre o Brasil produz a realidade que descreve. Somos o país do futuro. Somos a democracia mais vibrante do hemisfério sul. Somos potência agrícola, potência cultural, potência criativa. Cada uma dessas frases evita o encontro com a posição efetiva do país no sistema-mundo, que é a de fornecedor periférico, dependente tecnológico, exportador de commodities e de mão de obra, importador de capital e ideologia. A crítica produzida nas universidades brasileiras, mesmo quando se apresenta como anticolonial, opera lendo Mignolo em inglês, citando Spivak em sala de aula, importando dos campus norte-americanos as próprias categorias com que pretende decolonizar o pensamento. A denúncia do colonialismo se tornou, ela mesma, um produto de exportação invertida, em que o Brasil consome no original aquilo que deveria ter formulado por conta própria.
A culpa, se há culpa, não é de uma geração específica, de uma classe isolada, de um partido. É de toda uma economia afetiva nacional montada para que ninguém tenha de atravessar o luto da ilusão. Romper com o colonialismo brasileiro exigiria que cada estrato perdesse sua posição simbólica específica dentro do arranjo. A elite teria de aceitar não ser nobreza tropical, ver-se à luz de sua cafonice provinciana. A classe média teria de aceitar que sua distinção é falsa, continua sendo aquele indígena aficcionados por espelhos, bugigangas, gadgets e tênis importados de miami . O pobre teria de aceitar que o senhor com quem se identifica é o mesmo que o explora. O intelectual teria de aceitar que sua crítica importada o reinscreve no lugar colonial que ele denuncia. Ninguém quer atravessar essa perda, e por isso a praga prossegue, geração após geração, vestindo roupas novas e recitando manifestos que prometem aquilo que a estrutura mesma de prazer coletivo torna impossível.
Não há cura por programa de governo, não há cura por reforma constitucional, não há cura por discurso. A repetição só cessaria no ponto em que o país aceitasse ver-se sem o filtro das fantasias que construiu para suportar-se. Esse ponto, talvez, seja precisamente o que toda a vida política brasileira existe para evitar.