AnaCronismo

AnaCronismo Recordações do futuro. Ponto de convergência no tempo, espaço e idéias em geral. Conteúdo predominantemente filosófico com influência da visão psíquica do ser.

Superação de dualismos e harmonização psíquica dos opostos, principalmente religião, ciência, lógica, racionalismo, mitos e superstições, buscando apresentar uma convivência natural com os aspectos irracionais da vida.

Nas cordas…. ou O catch e a fala naturalEm 1957, Roland Barthes abriu suas Mitologias com um ensaio sobre a luta livre. ...
07/05/2026

Nas cordas…. ou

O catch e a fala natural

Em 1957, Roland Barthes abriu suas Mitologias com um ensaio sobre a luta livre. Distinguia o catch do boxe e do judô pela razão mais simples: boxe e judô são esportes, o catch é espetáculo. Ninguém vai à arena para saber quem vence. Vai para ver o sofrimento encenado, a traição reconhecível pelo rosto, a justiça finalmente cumprida em forma visível. O lutador não disfarça que atua. Ao contrário, cada gesto precisa ser legível da última fileira, cada careta de dor deve ser excessiva, cada vilania, inequívoca. O catch oferece ao público o que a vida real recusa: um mundo onde o bem e o mal têm corpo, e onde a moral se decide diante dos olhos.

O ponto decisivo de Barthes está no pacto. O espectador do catch sabe que é encenação. E mesmo sabendo, adere. Não há engano. Há acordo. O público quer a transparência moral que só o teatro consegue produzir, e o lutador entrega essa transparência por ofício. A hipocrisia do catch é profissional. Tem método, tem dosagem, tem consciência da própria pose.

A política brasileira opera nesse registro. Mas perdeu o pacto.
O político se indigna em câmera com a indignação que cabe ao papel. O jornalista de opinião narra a indignação amplificando o gesto, oferecendo ao espectador a chave moral de cada golpe. Os dois compartilham a mesma economia de signos, a mesma pressa em distribuir virtude e vilania, a mesma fé na legibilidade imediata do certo e do errado. É catch. Mas é catch que se esqueceu de ser catch.

No ringue dos anos 50 que Barthes descreveu, ainda havia distância. O lutador sabia que atuava. O público sabia que assistia. A mentira era administrada porque era reconhecida como mentira. O que se vê hoje é o estágio em que essa distância evaporou. O lutador acredita ser o herói. O público acredita estar vendo justiça. O comentarista entrou no ringue narrando o próprio golpe, sem perceber que está dentro. E é exatamente por isso que a hipocrisia perdeu o ofício. Ela não precisa mais se administrar. Virou dicção espontânea.

A ideologia funciona nesse ponto preciso. Não como mentira que alguém conta, mas como naturalização da pose. O político de hoje não calcula a hipocrisia, é hipócrita sem saber. Crê na própria indignação. Comove-se com a própria virtude. O jornalista de opinião também. Os dois compartilham a estrutura de crença que faz a fala soar evidente, e é essa evidência que produz o eco. O eco não é submissão. É homologia. Pensam igual porque acreditam igual, e acreditam no mesmo gesto teatral porque já não percebem que é teatro.

Barthes chamava o catch de pantomima da justiça. A pantomima brasileira contemporânea é da convicção. O político se convence enquanto fala. O jornalista se convence enquanto comenta. O espectador se convence enquanto assiste. Em algum momento da repetição, todos esqueceram a chave do exercício, e o que era pose virou caráter.

O ringue continua aceso. Os corpos continuam se chocando com a mesma coreografia de sempre. Mudou só uma coisa, e essa mudança é o que define o presente: ninguém mais sabe que está atuando.

O Estado brasileiro nunca rompeu com a colônia. Mudou de nome, trocou de bandeira, reescreveu constituições, alternou re...
01/05/2026

O Estado brasileiro nunca rompeu com a colônia. Mudou de nome, trocou de bandeira, reescreveu constituições, alternou regimes, e em cada transição o que se transformou foi a fachada, jamais o mecanismo. A tese de que houve rupturas na história nacional não resiste ao exame das datas e dos números.

A independência de 1822 foi negociada pelo herdeiro do trono português, que se manteve no poder com a mesma corte, a mesma aristocracia rural, a mesma escravidão e o mesmo modelo agroexportador. O Brasil “independente” pagou por décadas uma indenização de dois milhões de libras esterlinas a Portugal, contraída em empréstimo junto à banca Rothschild de Londres, dívida que só foi quitada nos anos 1880. A independência foi, em termos materiais, uma transferência de credor. Trocou-se a metrópole portuguesa pela metrópole inglesa, e a exploração interna se manteve intacta.

Lembrando que, entre 1863 e 1871, a Corte do Rio de Janeiro emprestou £14.278.520 da banca britânica através da Casa Rothschild para financiar a Guerra do Paraguai. Esse valor sozinho representava 60% de todo o comércio exterior do Brasil em 1860 . Para dimensionar: o governo brasileiro gastou, no esforço de guerra, um montante equivalente a onze vezes o orçamento nacional de 1864.

A abolição de 1888 libertou cerca de setecentos mil escravizados sem terra, sem indenização, sem programa de integração, sem alfabetização, sem acesso a crédito. No mesmo período, o governo imperial e depois o republicano subsidiou a vinda de milhões de imigrantes europeus para substituir a mão de obra negra nas lavouras de café, oferecendo a esses recém-chegados as terras e os empregos negados aos libertos. A Lei de Terras de 1850, promulgada quase quarenta anos antes, já havia tornado impossível a aquisição de terra por quem não tivesse capital. Aboliu-se a escravidão garantindo que os escravizados não tivessem para onde ir. A República que veio em seguida apenas formalizou a exclusão.

A Era Vargas, vendida como ruptura modernizadora e revolução trabalhista, manteve intocada a estrutura agrária. A CLT de 1943 excluiu explicitamente os trabalhadores rurais, que eram a maioria da população, de praticamente todos os direitos que concedia. O Estatuto do Trabalhador Rural só veio em 1963, e foi sufocado pelo golpe do ano seguinte. Vargas industrializou o sudeste sem tocar no latifúndio, criou um proletariado urbano sem desmontar o coronelismo, e fundou uma burocracia federal que rapidamente se converteu em nova forma de patrimonialismo, distribuindo cargos e estatais como capitanias hereditárias.

A ditadura militar de 1964 a 1985 aprofundou o modelo. O chamado milagre econômico foi financiado por endividamento externo massivo, que saltou de cerca de três bilhões de dólares em 1964 para mais de cem bilhões em 1985. A concentração de renda piorou drasticamente, com os dez por cento mais ricos passando a deter mais da metade da renda nacional. A reforma agrária prometida pelo Estatuto da Terra de 1964 nunca aconteceu. As multinacionais entraram em massa, o capital nacional se associou a elas em posição subordinada, e o trabalhador perdeu poder de compra real ao longo de toda a década de 1970.

A redemocratização de 1985 e a Constituição de 1988 são o caso mais ilustrativo do continuísmo brasileiro. A Constituição cidadã foi escrita por uma assembleia que incluía a maioria dos parlamentares eleitos sob a ditadura. Não houve julgamento dos torturadores, não houve depuração das instituições, não houve reforma agrária, não houve reforma tributária progressiva. Os mesmos coronéis do nordeste, os mesmos clãs políticos do centro-oeste, os mesmos grupos econômicos que prosperaram sob os generais permaneceram no poder. Sarney, presidente da redemocratização, era o líder do partido de sustentação da ditadura semanas antes de assumir a presidência civil.

O período seguinte aprofundou a extração por outros meios. A abertura comercial dos anos 1990, sob Collor e Fernando Henrique, desindustrializou parcelas relevantes do parque produtivo nacional e ampliou a dependência de commodities. As privatizações transferiram patrimônio público a grupos privados nacionais e estrangeiros a preços frequentemente abaixo do valor patrimonial, financiadas em parte pelo próprio BNDES. O Estado emprestou dinheiro para que comprassem o Estado. A dívida pública interna, que era de cerca de sessenta bilhões de reais em 1994, ultrapassou setecentos bilhões em 2002, transformando o orçamento federal em mecanismo permanente de transferência de renda do contribuinte para os detentores de títulos públicos.

O lulismo, apresentado como inflexão histórica, manteve a arquitetura. Houve redução real da pobreza extrema, que caiu de cerca de doze por cento da população em 2003 para abaixo de cinco por cento em 2014, e essa redução foi conquista política significativa. Mas ela se deu sem reforma tributária, sem reforma agrária, sem reforma política. Pelo contrário, a transferência de renda para a elite dominante, o bolsa-banqueiro, foi em números absolutos e relativos bem maiores do que o destinado para as faixas mais carentes. O Brasil continua sendo um dos países onde os mais ricos pagam proporcionalmente menos imposto que os mais pobres, porque dois terços da arrecadação federal vêm de tributos sobre consumo, além da renda do trabalhador assalariado ser confiscada em 50%, claramente mantendo a característica escravista deste tipo de relação trabalhista intermediada pelo Estado. O agronegócio se fortaleceu, o desmatamento avançou, as exportações de commodities passaram de cerca de vinte e cinco por cento da pauta em 2002 para mais de cinquenta por cento na década seguinte, reprimarizando a economia. O capitalismo de compadrio, agora chamado de campeões nacionais, distribuiu crédito subsidiado do BNDES a um punhado de grupos econômicos selecionados pelo governo.

O bolsonarismo e o que veio depois apenas continuam a operação por outros meios. A reforma trabalhista de 2017 e a reforma da previdência de 2019 desmontaram parte das proteções construídas no século XX, ampliando a precarização. O orçamento secreto, que distribuiu bilhões em emendas parlamentares opacas durante o governo Bolsonaro, é o coronelismo do século XXI operando dentro do parlamento federal. As bancadas do agronegócio, da mineração e da segurança pública controlam a agenda legislativa em nome de interesses que se confundem com os de grupos exportadores e de forças policiais militarizadas.

Em duzentos anos, o que se vê é uma linha contínua. As elites brasileiras aprenderam a absorver cada onda de mudança preservando o essencial. Cada transição foi negociada para que a estrutura proprietária, fiscal, racial e territorial permanecesse intocada. O Brasil é o país onde tudo muda para que nada mude, fórmula que Lampedusa cunhou para a Sicília mas que descreve com precisão maior a engenharia política nacional.

A pergunta que se impõe é por que essa repetição se sustenta. A resposta econômica é insuficiente. Se fosse apenas interesse material, alguma fissura já teria se aberto, alguma classe teria forçado a reorganização do pacto. O que se repete tem a consistência de algo que excede o cálculo, algo que opera abaixo do nível da decisão consciente. Há um investimento afetivo na própria submissão, uma satisfação extraída da posição subordinada que torna a ruptura indesejável mesmo para quem mais perde com o arranjo.

Nietzsche descreveu o mecanismo pelo qual o impotente transforma sua impotência em virtude, sua subordinação em superioridade moral, sua incapacidade de agir em prova de elevação espiritual. O ressentimento opera assim, invertendo valores para que o que é fraqueza se chame bondade, e o que é força se chame corrupção. O brasileiro aplicou esse mecanismo à própria condição colonial. Aprendeu a fazer da subordinação histórica uma identidade orgulhosa, ora celebrando-se como povo cordial, ora como povo sofrido, ora como nação criativa que improvisa onde os outros planejam. Cada uma dessas autoimagens cumpre a mesma função, mascarar a impotência política transformando-a em traço cultural valorizado. A cordialidade é submissão estilizada.

O sofrimento é resignação santificada. A criatividade do improviso é a ausência de instituições convertida em folclore.
Esse mecanismo se reforça porque rende algo a quem o pratica. Reconhecer-se como permanentemente colonial seria insuportável, então cada estrato encontra na arquitetura herdada uma posição de prazer simbólico que defenderá mesmo contra seus próprios interesses materiais.

A elite goza com a fantasia de nobreza tropical e com a gestão privada do espaço público. A classe média goza com a distinção que sinais importados lhe oferecem em relação ao pobre. O pobre, e essa é a chave mais difícil, encontra no padrinho político, no jeitinho, na pequena vingança contra o sistema, e sobretudo na identificação imaginária com o senhor que um dia poderá ser, uma economia de pequenos prazeres que substitui a transformação real. O que retorna a cada eleição, a cada crise, a cada onda autoritária, é tudo aquilo que o país nunca elaborou e por isso repete em ato. A escravidão não simbolizada, o genocídio indígena recalcado sob mitos de mestiçagem, a dependência econômica disfarçada em vocação exportadora.

A repetição se sustenta também porque o discurso oficial sobre o Brasil produz a realidade que descreve. Somos o país do futuro. Somos a democracia mais vibrante do hemisfério sul. Somos potência agrícola, potência cultural, potência criativa. Cada uma dessas frases evita o encontro com a posição efetiva do país no sistema-mundo, que é a de fornecedor periférico, dependente tecnológico, exportador de commodities e de mão de obra, importador de capital e ideologia. A crítica produzida nas universidades brasileiras, mesmo quando se apresenta como anticolonial, opera lendo Mignolo em inglês, citando Spivak em sala de aula, importando dos campus norte-americanos as próprias categorias com que pretende decolonizar o pensamento. A denúncia do colonialismo se tornou, ela mesma, um produto de exportação invertida, em que o Brasil consome no original aquilo que deveria ter formulado por conta própria.

A culpa, se há culpa, não é de uma geração específica, de uma classe isolada, de um partido. É de toda uma economia afetiva nacional montada para que ninguém tenha de atravessar o luto da ilusão. Romper com o colonialismo brasileiro exigiria que cada estrato perdesse sua posição simbólica específica dentro do arranjo. A elite teria de aceitar não ser nobreza tropical, ver-se à luz de sua cafonice provinciana. A classe média teria de aceitar que sua distinção é falsa, continua sendo aquele indígena aficcionados por espelhos, bugigangas, gadgets e tênis importados de miami . O pobre teria de aceitar que o senhor com quem se identifica é o mesmo que o explora. O intelectual teria de aceitar que sua crítica importada o reinscreve no lugar colonial que ele denuncia. Ninguém quer atravessar essa perda, e por isso a praga prossegue, geração após geração, vestindo roupas novas e recitando manifestos que prometem aquilo que a estrutura mesma de prazer coletivo torna impossível.

Não há cura por programa de governo, não há cura por reforma constitucional, não há cura por discurso. A repetição só cessaria no ponto em que o país aceitasse ver-se sem o filtro das fantasias que construiu para suportar-se. Esse ponto, talvez, seja precisamente o que toda a vida política brasileira existe para evitar.

O homem do tempoHouve uma época em que o sujeito da televisão apontava para um mapa e dizia, com solenidade litúrgica, q...
28/04/2026

O homem do tempo

Houve uma época em que o sujeito da televisão apontava para um mapa e dizia, com solenidade litúrgica, que amanhã choveria. Era um ofício humilde. Tinha algo de sacerdote rural, de benzedeira tecnificada. Errava muito, e ninguém o crucificava por isso, porque se sabia que o céu é matéria reservada e que prever o tempo é uma forma menor de adivinhação. O homem do tempo era, no fundo, um humorista involuntário: aparecia depois do noticiário pesado para nos lembrar que a natureza ainda não havia sido domesticada e que o guarda-chuva continuava sendo um bom investimento.

Esse homem morreu. No lugar dele temos agora o comentarista climático, que é uma espécie diferente de criatura. O comentarista climático não prevê: ele interpreta. E como toda interpretação, a dele exige adversários. Não basta dizer que vai chover. É preciso explicar que a chuva é consequência de uma omissão governamental, de um pacto neoliberal com o agronegócio, de uma falência civilizatória que o telespectador, ao ligar a televisão para saber se leva ou não o casaco, descobre estar pessoalmente patrocinando.

A meteorologia virou editorial. O front frio agora tem ideologia. A massa de ar polar desce do sul carregando, além de baixa pressão, uma denúncia contra o capitalismo tardio. O calor de novembro não é mais calor: é réu confesso. E o telespectador, que queria apenas saber se o churrasco de domingo está garantido, recebe em troca uma homilia de doze minutos sobre o Antropoceno, com gráficos animados e uma trilha sonora que sugere o fim dos tempos a cada isóbara.

O curioso é a inversão de papéis. O jornalista de opinião clássico, aquele que escrevia sobre política e economia, tinha ao menos a decência de fingir que opinava sobre coisas humanas, sujeitas a debate. O comentarista climático opina sobre o céu. Sobe um degrau na escala da arrogância. Não discute mais com adversários: discute com a atmosfera, e vence sempre, porque a atmosfera não responde. É a forma mais pura de jornalismo opinativo já inventada, aquela em que o oponente é incapaz de redigir uma carta de réplica.

Há também o problema técnico, que ninguém menciona por delicadeza. O sujeito que erra a previsão de quinta-feira na manhã de quarta passa a tarde explicando, com convicção inabalável, o que vai acontecer com o planeta em 2070. A escala temporal funciona como anestésico do constrangimento. Quanto mais distante a profecia, mais segura a posição do profeta. Ninguém estará vivo, ou minimamente atento, para conferir a fatura.

E nós aplaudimos. Esse é o detalhe que merece atenção. Não aplaudimos por convicção, aplaudimos por gozo. Há um prazer obscuro em ser informado, todas as noites, de que o mundo está acabando e que nós, vendo televisão de pijama, somos ao mesmo tempo as vítimas e os carrascos. A culpa, distribuída em doses homeopáticas pelo telejornal, vira uma forma confortável de pertencimento. Sentir-se culpado pelo furacão do Caribe é uma maneira barata de existir cosmicamente.

O velho homem do tempo, com seu mapa desbotado e sua humildade de funcionário público, pelo menos nos deixava em paz com nossa pequenez. O novo, com sua certeza editorial, exige que sejamos protagonistas. E não há nada mais cansativo, ao fim de um dia comum, do que descobrir, entre o jantar e o sono, que somos personagens centrais da tragédia geológica.

Ainda assim, amanhã chove. Ou não. O guarda-chuva continua sendo o único comentário verdadeiramente útil sobre o clima.

A esquerda como blindagem: como o patrimonialismo aprendeu a falar marxêsHá uma operação ideológica em curso no Brasil q...
26/04/2026

A esquerda como blindagem: como o patrimonialismo aprendeu a falar marxês

Há uma operação ideológica em curso no Brasil que merece ser nomeada com precisão: a captura do vocabulário emancipatório pela elite que ele deveria denunciar. Faoro mostrou como o estamento burocrático brasileiro se reproduz há cinco séculos sob diferentes roupagens, do funcionalismo imperial à tecnocracia republicana, sempre privatizando o público sob retórica de serviço ao bem comum. Florestan Fernandes complementou o diagnóstico ao demonstrar que a burguesia brasileira nunca foi revolucionária no sentido clássico: ela se constituiu como elite de extração, dependente do Estado, refratária a qualquer modernização que ameaçasse seus pactos de classe. O que talvez nem Faoro nem Florestan tenham antecipado em sua plenitude é que essa mesma elite descobriria, no século XXI, que o melhor escudo contra a transformação real é o próprio léxico da transformação.

O movimento é dialeticamente perfeito. O herdeiro de fortuna construída sobre concessões públicas, terras griladas e dívidas perdoadas posta sobre privilégio branco no Twitter. O reitor vitalício de universidade pública, com salário no teto e três aposentadorias acumuladas, escreve sobre neoliberalismo enquanto seus filhos fazem doutorado em Yale. O magistrado que recebe penduricalhos equivalentes a quarenta salários mínimos preside seminário sobre desigualdade estrutural. O empresário cuja empresa só existe por subsídio do BNDES financia ONG que combate o capitalismo. Em cada caso, a denúncia funciona como certificado moral de imunidade. Quem fala contra o sistema não pode ser o sistema. Quem cita Fanon não pode ser Casa Grande. A pauta progressista deixou de ser instrumento de crítica do privilégio para se tornar a forma mais sofisticada de sua perpetuação.

Há aqui uma inversão de Schwarz que merece ser explicitada. Se as ideias liberais do século XIX eram ideias fora do lugar porque importadas para uma sociedade escravista que as desmentia em ato, as ideias da esquerda acadêmica contemporânea brasileira não estão fora do lugar, estão exatamente no lugar que lhes foi designado: o lugar do ornamento moral da elite estamental. Não há contradição entre o discurso decolonial e a manutenção do privilégio porque o discurso é o privilégio em sua forma atualizada. A linguagem da emancipação tornou-se o capital simbólico que distingue a fração letrada da elite das frações vulgares (o agronegócio, o pentecostalismo, o bolsonarismo), permitindo que aquela se apresente como portadora do futuro enquanto reproduz, com ainda mais eficiência, as estruturas de extração que sempre a sustentaram.

O cinismo aqui não é falha de caráter individual, é função estrutural. Faoro já mostrava que o estamento brasileiro sobrevive porque é capaz de mimetizar qualquer roupagem ideológica que o momento histórico exija. Foi liberal no Império, positivista na República Velha, desenvolvimentista em Vargas, tecnocrático no regime militar, social-democrata na Nova República. Hoje fala em interseccionalidade, lugar de fala e desmonte do projeto neoliberal, e o faz precisamente porque essa é a língua que permite manter intactos os privilégios reais (concursos vitalícios, aposentadorias integrais, foros especiais, isenções, reservas de mercado intelectual) enquanto se posa de vítima do sistema que se administra. A pauta progressista, no Brasil, virou o que a religião civil sempre foi: o cimento simbólico que mantém a elite coesa e moralmente justificada perante si mesma.

O que está em jogo, portanto, não é se a esquerda intelectual brasileira é sincera ou hipócrita. Essa é uma pergunta menor. O que está em jogo é entender que, num país onde a elite é estamental e não burguesa no sentido clássico, o discurso de esquerda cumpre função análoga à que o discurso católico cumpria no Antigo Regime: ele não desafia o poder, ele o sacraliza. E enquanto isso não for dito com todas as letras, qualquer projeto efetivo de transformação continuará sendo desarmado pelo mesmo gesto de sempre, agora travestido de radicalidade: a elite local absorvendo, esterilizando e devolvendo ao povo, como concessão paternal, a linguagem com que ele um dia tentou se libertar dela.

Não há remédio que cure a dissociação entre nossa representação idealizada da realidade e a realidade em si. Não há remé...
23/03/2026

Não há remédio que cure a dissociação entre nossa representação idealizada da realidade e a realidade em si. Não há remédio capaz de sustentar a visão cínica de mundo.

A ruptura com a ideia de um Estado paternalista como guardião do “eu ideal” é uma das etapas mais duras desse processo de desilusão e também uma das mais esclarecedoras.

O imaginário moderno construiu o Estado como uma instância moral superior, quase como um ente racional e protetor orientado ao bem comum. Uma entidade que vigia, regula e corrige os excessos individuais em nome de uma ordem coletiva equilibrada. No entanto, essa imagem é muito mais normativa do que real. Ela funciona como narrativa de legitimação, mas não descreve com precisão o funcionamento concreto das estruturas de poder.

Na prática, o Estado não é um sujeito ético. É um campo de forças atravessado por interesses divergentes, limitações operacionais e disputas constantes. A crença de que ele atua como um guardião imparcial do bem comum cumpre uma função psicológica semelhante à figura de autoridade protetora. Ela oferece segurança simbólica, mas ao custo de uma leitura distorcida da realidade.

Ao abandonar essa idealização, surge um desconforto inevitável. Porque se perde a ideia de que existe uma instância superior capaz de garantir justiça, ordem e proteção de forma consistente. O que se revela, em seu lugar, é um arranjo instável, condicionado por contextos históricos e relações de poder.

Esse ponto dialoga diretamente com o pensamento de Nicolau Maquiavel, que propõe uma análise do poder baseada na sua operação real e não em princípios idealizados. O poder não se orienta por moralidade abstrata, mas por estratégias de manutenção, estabilidade e conveniência. O discurso do bem comum muitas vezes funciona como instrumento de legitimação, não como guia efetivo das decisões.

Nesse contexto, o adoecimento psíquico não pode ser compreendido apenas como resultado da dureza do sistema em si. Ele emerge, de forma mais profunda, da desconexão entre representação e realidade. Entre aquilo que o sujeito acredita que o mundo é ou deveria ser, e aquilo que ele efetivamente encontra. Quando há um descompasso persistente entre essas duas camadas, instala-se uma fratura cognitiva e emocional.

Se o indivíduo internaliza a ideia de que vive em um sistema justo, protetor e orientado ao bem comum, mas experimenta, na prática, insegurança, desigualdade e arbitrariedade, essa contradição não se resolve facilmente. Ela não é apenas intelectual; ela é vivida. E é justamente nessa tensão não resolvida que o sofrimento se intensifica. Não é apenas o mundo que pesa, mas a impossibilidade de reconciliar o mundo real com o mundo representado.

Manter a crença em um Estado salvador, ou em qualquer estrutura idealizada, aprofunda essa desconexão. Por um lado, transfere-se a responsabilidade por problemas complexos a uma entidade que não possui nem capacidade plena nem neutralidade para resolvê-los. Por outro, enfraquece-se a autonomia crítica, pois o indivíduo passa a operar dentro de um mapa mental que não corresponde ao território.

Romper com essa crença não implica rejeitar o Estado ou negar sua importância. Implica compreendê-lo sem idealização. Trata-se de reconhecê-lo como instrumento, não como entidade moral. Um instrumento que pode tanto proteger quanto reproduzir desigualdades, dependendo das circunstâncias e das forças que o atravessam.

Esse movimento completa a desconstrução do narcisismo. O eu deixa de se imaginar protegido por uma ordem superior e passa a se reconhecer como parte de uma realidade complexa, imperfeita e muitas vezes contraditória. A segurança simbólica diminui, mas a lucidez aumenta. E é nessa lucidez, ainda que desconfortável, que a representação começa a se alinhar com o real. E, com isso, o sofrimento deixa de ser apenas um efeito difuso e passa a ser compreendido em sua origem estrutural e cognitiva.

O Dia em que o Amanhã Mudou de EndereçoHouve um tempo em que os camponeses europeus do século XV acordavam todos os dias...
05/03/2026

O Dia em que o Amanhã Mudou de Endereço

Houve um tempo em que os camponeses europeus do século XV acordavam todos os dias sabendo exatamente o que o dia seguinte traria. O filho herdaria o campo do pai. A filha aprenderia com a mãe. O inverno chegaria como sempre chegou. O mundo girava, mas não mudava de forma.

Então Gutenberg terminou sua prensa.

Ninguém naquela época entendeu completamente o que havia acontecido. Os monges que copiavam manuscritos à mão acharam que era apenas uma máquina mais rápida. Os nobres que controlavam o conhecimento acharam que poderiam controlar aquela novidade também. Cinquenta anos depois, a Reforma Protestante havia fragmentado a Europa, a ciência moderna começava a emergir e a ideia de que qualquer pessoa poderia ler a Bíblia com os próprios olhos havia redefinido para sempre a relação entre o indivíduo e a autoridade.

A prensa não era uma ferramenta. Era um ponto de inflexão.

Quando o Mundo Perde o Chão

A história humana não avança em linha reta. Ela salta. Longos períodos de estabilidade relativa são interrompidos por momentos em que tudo o que parecia sólido se dissolve rapidamente, e novas configurações emergem antes que alguém tenha tempo de se adaptar completamente.

A Revolução Industrial foi outro desses saltos. Em 1750, a maioria das pessoas no mundo ocidental trabalhava com as mãos, vivia no campo e morria perto de onde havia nascido. Em 1850, um século depois, havia metrópoles barulhentas, ferrovias cortando continentes, relógios ditando o ritmo do trabalho em fábricas e uma nova classe social chamada proletariado que nem sequer existia como conceito antes. Os filhos não podiam mais aprender o ofício dos pais porque os ofícios haviam desaparecido. O mundo que os avós conheciam era incompreensível para os netos.

E então veio a eletricidade. Depois o rádio. Depois a televisão. Cada um desses momentos prometeu transformação e cumpriu a promessa, mas de maneiras que ninguém havia previsto corretamente.

O rádio foi anunciado como o fim da solidão humana. Um orador entusiasta da época chegou a dizer que a tecnologia iria “aproximar os corações dos homens em todo o mundo”. Em vez disso, tornou-se a principal ferramenta de propaganda de regimes totalitários nos anos 1930 e 1940. A televisão foi saudada como o veículo da educação universal. Tornou-se, em grande medida, o maior motor da cultura de entretenimento de massa que o mundo já viu.

As tecnologias não chegam acompanhadas de manuais sobre o que farão com a civilização.

A Internet e a Promessa que Não Terminou

A internet dos anos 1990 trouxe uma promessa parecida com a da prensa de Gutenberg. A informação seria livre. O conhecimento seria democratizado. As fronteiras perderiam sentido. Qualquer pessoa em qualquer lugar poderia se comunicar com qualquer outra pessoa em qualquer outro lugar.

E tudo isso aconteceu, de fato.

Mas também aconteceu que as plataformas que organizaram esse espaço se tornaram as maiores concentradoras de poder econômico e atenção humana da história. Aconteceu que a mesma ferramenta que deu voz a dissidentes e refugiados também deu megafone a teorias conspiratórias e ódio organizado. Aconteceu que a “aldeia global” produziu tanto tribalismo digital quanto nunca havia existido antes.

A internet não terminou a história. Ela a complicou. E ainda está no meio do processo.

O que torna a inteligência artificial diferente de todos esses momentos anteriores não é que ela seja mais poderosa em termos técnicos, embora seja. O que a torna singular é que ela não apenas muda o que os seres humanos podem fazer. Ela começa a mudar quem é o agente que faz.

A Diferença que Muda Tudo

Toda tecnologia anterior era, no fundo, uma extensão das capacidades humanas. A prensa amplificou a escrita humana. A ferrovia ampliou o movimento humano. O computador amplificou o cálculo humano. Em todos esses casos, havia um ser humano no centro da ação, usando a ferramenta como instrumento de sua vontade.

A inteligência artificial introduz algo que não tínhamos antes: um sistema capaz de raciocinar, criar, analisar e decidir sem que um humano específico esteja conduzindo aquele ato em tempo real. Não é que a máquina pense exatamente como um humano. Mas ela realiza tarefas que, até recentemente, assumíamos que só poderiam ser realizadas por mentes humanas.

Isso muda a equação de uma forma que ainda estamos tentando compreender.

Quando a prensa de Gutenberg chegou, ela mudou quem poderia acessar o conhecimento. Quando a fábrica chegou, ela mudou onde e como o trabalho era feito. Quando a internet chegou, ela mudou como as pessoas se comunicavam e consumiam informação. Mas em todos esses casos, o ser humano continuava sendo insubstituível no núcleo do processo cognitivo e criativo.

A inteligência artificial questiona exatamente esse núcleo.

O Horizonte que Não Conseguimos Ver

Existe uma expressão usada em navegação antiga chamada “horizonte do observador”. É o ponto mais distante que alguém consegue ver a partir de onde está. O problema é que o que está além desse horizonte não é inexistente. Simplesmente não é visível dali.

Estamos hoje nessa posição em relação à inteligência artificial.

Conseguimos ver claramente algumas coisas. Que processos repetitivos e baseados em dados serão automatizados em escala nunca vista. Que a produção de texto, imagem, código e análise será acelerada de formas que já estão sendo sentidas em escritórios, hospitais, laboratórios e salas de aula. Que empresas que adotarem essas capacidades terão vantagens competitivas sobre as que não adotarem, exatamente como aconteceu com as fábricas no século XIX e com os computadores no final do século XX.

Mas o que está além do nosso horizonte atual é precisamente o que mais importa.

Não sabemos se a inteligência artificial vai criar mais empregos do que vai eliminar, como toda revolução tecnológica anterior fez em seu tempo, mas de formas que ninguém havia previsto. Não sabemos como as relações entre humanos vão mudar quando intermediadas por sistemas inteligentes em praticamente todas as dimensões da vida. Não sabemos quais novas formas de poder, desigualdade, criatividade e conexão vão emergir.

Nenhuma das gerações que viveram os grandes pontos de inflexão anteriores soube, no momento em que estavam neles.

O que a História nos Ensina Sobre Não Saber

Talvez o aprendizado mais importante que os grandes pontos de inflexão da história nos oferecem não seja sobre o que vai acontecer. É sobre como se posicionar quando não se sabe o que vai acontecer.

Os que tentaram resistir à prensa de Gutenberg perderam. Os artesãos ingleses que quebraram máquinas têxteis no início do século XIX, conhecidos como ludistas, também perderam. Não porque fossem tolos. Mas porque confundiram a resistência à mudança com a preservação do que era valioso para eles. As duas coisas eram diferentes.

Os que saíram melhor dos grandes pontos de inflexão não foram necessariamente os que previram o futuro com precisão. Foram os que mantiveram a capacidade de aprender, de se reposicionar e de encontrar novo valor em contextos em rápida transformação. Foram os que entenderam que a pergunta não era “como impedir que isso aconteça?”, mas “o que isso torna possível que antes não era?”

A inteligência artificial não é uma ameaça a ser derrotada nem uma salvação a ser aguardada passivamente. É um território novo que está sendo aberto, como todos os grandes territórios novos da história, com riscos reais, oportunidades reais e a necessidade de navegação ativa por parte de todos os que nele precisam viver e trabalhar.

Uma Nova Pergunta Para Cada Manhã

Voltando aos camponeses do século XV que acordavam sabendo o que o dia seguinte traria: eles não perderam isso porque eram menos inteligentes do que nós. Perderam porque a realidade ao redor deles mudou de forma que tornava o passado um guia cada vez menos confiável para o futuro.

Estamos em um momento análogo, mas com uma diferença importante.

Nós sabemos que estamos nesse momento. As gerações anteriores, na maioria dos casos, só perceberam que haviam vivido um ponto de inflexão quando olharam para trás, muitos anos depois. Nós estamos, pela primeira vez em larga escala, conscientes de que estamos dentro da virada enquanto ela acontece.

Essa consciência não nos dá o mapa do território que está sendo aberto. Mas nos dá algo talvez mais valioso: a possibilidade de fazer as perguntas certas antes que as consequências nos obriguem a fazê-las.

Não sabemos mais como será o amanhã. E talvez essa seja, pela primeira vez na história, a resposta mais honesta e também a mais produtiva que qualquer geração já deu para a pergunta sobre o futuro.

Porque um amanhã desconhecido não é apenas uma ameaça. É também um convite.

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Santos

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