08/02/2026
Queria muito ver a pipoca de Igor Canário se encontrando com a pipoca do Baiana System.
De um lado, o pobre raiz. Favela mesmo. Os pivetes do cabelo pintado, o corpo suado, o pagodão murro no olho. Frase curta, grito, urro, palavra de ordem sem rodeio. Canário fala pouco porque a vida ensinou que nem sempre dá tempo de explicar.
Do outro, a pipoca gourmetizada. A galera da FACOM, discurso afiado, duplo sentido, revolta organizada em verso e arranjo. Pobre também — mas pobre premium, intelectualizado, que mora na favela, ou quase, mas não pisa nos espaços típicos dela. Não se reconhece no gosto musical do vizinho.
Canário canta a revolta crua, aplaudicante, sem pedir licença. Dizem que é raso. Já o Baiana refina a mesma revolta, embala, exporta e hoje frequenta camarote de luxo.
E eu fico imaginando o encontro.
De um lado, a trocação: pá, murro, empurra-empurra, soco no ar — coisa típica da pipoca do Canário.
Do outro, a galera gritando:
— É só amor! É só amor!
E a resposta vindo seca, da favela profunda:
— Só amor minha pica! Disgraça!
Mas esse encontro tinha que ser na Praça Castro Alves.
Ali, onde o poeta Castro Alves testemunharia como a favela se integra — e se desintegra — nas suas divergências, contradições, simpatias e hipocrisias. Poesia concreta entretendo os hóspedes do Fasano.
No fim, f**a a pergunta que ecoa no asfalto:
É só amor, como diz o Baiana System?
Ou se vier, tem, como diz o Canário?
Aí sim ia ser divertido.
Ah, como ia ser.
Gêmeos na origem.
Desiguais no caminho.