01/11/2025
O que lemos e o que queremos ler?
Ontem, em um diálogo informal com amigos, conversávamos sobre O Pequeno Príncipe.
Quando me perguntaram se eu já tinha lido, respondi que não.
O espanto foi geral.
Como alguém que trabalha com educação popular poderia nunca ter lido um “clássico universal”?
Mas a pergunta verdadeira é outra:
por que certas obras são consideradas universais enquanto tantas, escritas nas periferias ou no contexto de África, seguem invisíveis?
Nasci num lugar onde a literatura chegava com moderação —
não por falta de inteligência, mas de acesso.
Meus pais não cobraram leitura porque também não tiveram livros por perto.
Nesse momento percebemos: a ausência de leitura na favela não é escolha, é consequência.
Dessa conversa e desse incômodo nasceu o projeto “O que lemos — e o que queremos ler?”, acolhido pela Casa Mirants, em parceria com lideranças locais e educadores populares como ; , .ferreira e .mg , idealizadora da Biblioteca Afrocentrada.
A ideia é simples, mas profunda: descobrir o que a comunidade lê, o que gostaria de ler — e o que nunca encontrou nas prateleiras.
Mais do que montar um acervo, queremos construir um espelho literário do território, onde cada pessoa se reconheça nas páginas.
Nosso ponto de partida não é o que o mundo consagrou como “literatura essencial”, mas o que o território reconhece como necessário para continuar existindo e sonhando.
Queremos livros que falem de nós, por nós e para nós — sobre envelhecer nas ladeiras, ser mulher preta e periférica, lutar por comida, fé e dignidade.
A Casa Mirants acredita que ler é um ato de justiça social.
Ter uma biblioteca dentro da favela não é luxo — é política pública, é memória, é futuro.
✨ Porque todo mundo tem o direito de se ver nas páginas do próprio território.
Ps. A imagem da biblioteca é meramente ilustrativa.