26/01/2017
Por se tratar de um festival estudantil uma das propostas do Feto Teatro foi debater sobre os espetáculos apresentados e um dos retornos que recebemos sobre o nosso espetáculo foi o de Paulo Celestino e é com grande alegria partilhamos com vocês.
um olhar sobre o espetáculo Paco e o Tempo
“És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo”
Inevitável a lembrança de Caetano Veloso quando
somos convidados para assistir uma peça de teatro baiana,
com canções que falam sobre o tempo. Mas “Oração ao
Tempo” não foi tocada, porque não foi preciso.
“Tira o tempo da gaveta
Viar o lado da ampulheta
Troca a bateria do relógio digital
Segura o pêndulo do carrilhão
Atravesa o século e a fração
O átimo, é ótimo
Milênios vem e vão”
A música original do espetáculo Paco e o Tempo,
feita por estudantes de Salvador, é muito boa, tocada
belamente ao vivo por cinco músicos e cantada por
afinados atores.
Como você sabe que o tempo realmente passa?
O que é o tempo?
São as perguntas de Paco, um menino. E assim somos
convidados para junto com ele fazer uma viagem teatral,
voando, navegando, correndo, para encontrar o tempo. Tudo
com o tempo de duração de 40 minutos
Nunca é tarde demais para parar e pensar sobre
aquilo que corremos atrás sempre atrasados e está tão
presente em nosso cotidiano como o tempo. E fazer isso
através do olhar de uma criança, que muitas vezes põe
qualquer filósofo alemão no chinelo, com suas perguntas
desconcertantes.
Onde está o tempo?
Quem é o tempo?
Paco e o Tempo consegue ao mesmo tempo dialogar com
a criança e o adulto que estão no teatro e que está
dentro de nós.
Com a criança apresentando o tempo como música, como
imagem nos corpos dos atores, como som e objetos e roupas
que são vestidas na nossa frente como um agrande
brincadeira tudo saindo de dentro de um relógio que é uma
espécie de caixa de brinquedos, algo que toda crianca
reconhece.
Parabéns aos alunos da Universidade Federal da Bahia
por escolherem dentro da universidade trabalhar um teatro
para a criança. Mas ainda é cedo para comemorar pois essa
escolha sabemos, infelizmente ainda é rara nas escolas de
teatro.
E com o adulto apresentando o lado político do
tempo. É fundamental dialogar com a mãe, o pai ou a
professora, pois criança não vai sozinha ao teatro. Um
espetáculo voltado para criança deve sempre levar em
consideração o adulto que lá está.
E essas duas camadas lúdica e política fazem de Paco
também ao mesmo tempo indivíduo e multidão.
É um menino e o Brasil inteiro.
Paco. Povo.
Essa dupla camada se anuncia logo no início ao
ouvirmos “O Guarani” de Carlos Gomes. Música que há
tempos é a abertura da Voz do Brasil, que além de ser o
noticiário governamental é indicativo de passagem de
tempo pra muita gente que ouve rádio, como um sino de
igreja ou um galo, sempre no mesmo horário.
“Paco precisa acordar e o danadinho ficou até tarde
assistindo televisão esperando o tempo passar em algum
noticiário...”
Diz uma atriz fazendo a mãe de Paco com sua saia de
relógio, acordando seu filho que está ATRASADO para a
escola. Paco é uma criança que ficou em frente da tela do
computador até tarde como milhões iguais à ele que
pertencem à nova geração Z, dos extratos médios sociais.
Ao mesmo tempo outros atores seguram cartazes de protesto
para acordar um Brasil, talvez deitado eternamente em
berço esplêndido.
Mas Paco perdeu a hora e inicia sua jornada em busca
de um tempo perdido, ricas imagens se formam na nossa
frente, da ampulheta ao relógio digital, se transformando
sempre e nessas duas camadas, numa grande brincadeira. Às
vezes tive uma leve impressão de que a camada política se
sobressaía demais deixando de lado a dimensão lúdica, o
que pode ser um problema em se tratando de um espetáculo
que tem que contemplar necessariamente a atenção
infantil. Exemplo na cena dos políticos com a sacola do
shopping do povo.
Nessa busca Paco se depara com outras realidades
sociais, lugares onde dizem os personagens “aqui o tempo
não passou”, e lhe devolvem outra pergunta desconcertante
“você tem um retrato falado do tempo”?
Isso o faz chorar formando um rio, imagem simbólica
de passagem de tempo.
O texto é belíssimo.
“O tempo passa, passa, passa... Como o ferro sobre a
roupa de passar... só que ao invés de esticar, o trabalho
do tempo é enrugar.”
e ainda
“O tempo é delivery e vem até a gente, mesmo que a
gente não peça.”
Até que Paco Finalmente encontra o Tempo,
personificado que rompe pela plateia e que não sabe
conjugar os tempos verbais corretamente e mostra que o
tempo são como bolhas de sabão, borbulhando na nossa
cabeça, não conseguimos pegá-las, apenas admirar ou como
ele diz apenas viver.
“Que tempo é esse?”
Paco também pergunta no espetáculo
e respondem os atores
“Não sabemos, não sabemos...”
Tentando responder no estilo do espetáculo, com uma
música: “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um
museu de grandes novidades”
Igualmente inevitável lembrar e tão desconcertante
quanto a pergunta de uma criança é ver uma peça feita na
universidade, apresentada num festiva estudantil, para
crianças, com professores e estudantes na plateia e que
fala sobre o tempo. Num tempo em que a verba para
educação no Brasil é vista como gasto e será congelada
pelo tempo de 20 anos.
O Brasil vai dormir por 20 anos e vai acordar
ATRASADO para a escola.
O Brasil é o país do futuro?
Não sei Paco, não sei.