16/10/2024
A Polarização em Machado de Assis / por Vera Spínola
Os brasileiros estão cansados da polarização política, que tem trazido rupturas entre amigos, desavenças familiares, além de proporcionar uma visão redutora da realidade (L ou B). O fenômeno sempre existiu e foi acirrado em determinados momentos da história.
Pode-se dizer que o tema central do romance Esaú e Jacó de Machado de Assis é a polarização, embora o autor não tenha utilizado essa palavra uma única vez. Publicado em 1904, quatro anos antes de sua morte, o título vem de uma parábola bíblica de mesmo nome, encontrada em Gênesis. A parábola conta a história de Rebeca, a mãe de Esaú e Jacó, que tem Jacó como preferido. A disputa faz os dois irmãos se tornarem inimigos.
O romance Esaú e Jacó de Machado tem lugar na capital, então Rio de Janeiro, nos últimos anos da escravidão e da monarquia e nos primeiros anos da república, com referências ao encilhamento e ao Estado de sítio.
Os protagonistas são os gêmeos Pedro e Paulo, filhos de Natividade e Santos, que anos depois de gravitarem na corte receberam o título de barão e baronesa respectivamente. Os irmãos são fisicamente idênticos, mas opostos em tudo. O antagonismo entre eles leva Natividade a consultar uma advinha, a Cabocla, a qual prevê que serão grandes homens, mas pergunta se haviam brigado no ventre da mãe, que efetivamente na gestação sentira movimentos extraordinários, dores e insônias.
Os gêmeos não discordavam da cor da lua, por exemplo, mas aos 11 anos Pedro descobriu que as sombras da lua eram nuvens, e, Paulo, que eram falhas da nossa vista, e atracaram-se. Imagine em política.
Na juventude, Paulo foi para São Paulo, onde estudava Direito e se tornou republicano. Pedro, que era monarquista, continuou no Rio de Janeiro e ingressou na faculdade de medicina.
A Proclamação da República deu uma reviravolta na sociedade. Com humor, Machado conta algumas histórias para mostrar o impacto da mudança. Por exemplo, havia um confeiteiro no Catete de nome Custódio que havia encomendado uma nova tabuleta para seu negócio, pela qual pagaria caro, em que se deveria ler Confeitaria Do Império. Ao acordar no dia 15 de novembro de 1889, e tomar conhecimento do movimento político, mandou um bilhete ao pintor “Pare no D.” Mas o trabalho, para o qual havia dado pressa, estava pronto. O confeiteiro entrou em pânico. Além do prejuízo, que nome daria à confeitaria? O pintor só se prontificava a fazer outra tabuleta se fosse pago pela já concluída. Custódio consultou o vizinho, o Conselheiro Aires, que sugeriu o nome, Confeitaria da República. Mas se dentro de dois meses houvesse outra reviravolta, perderia de novo o dinheiro. Outra sugestão: Confeitaria do Governo. Poderia servir tanto para um regime como para outro. Mas nenhum governo deixa de ter oposição, retrucou o confeiteiro, e poderiam quebrar a tabuleta. Depois de refletir, Aires deu nova alternativa: Confeitaria do Império, fundada em 1860. Porém a palavra “império” geraria controvérsias, e ninguém leria em 1860. Mais uma ideia: Confeitaria Império das Leis. Custódio argumentou que o acréscimo das Leis poderia não ser lido. Nova sugestão Confeitaria do Catete. Mas já havia no bairro outra com esse nome. Finalmente optou por Confeitaria do Custódio. Gastaria algum dinheiro, mas as revoluções trazem sempre despesas. Seria melhor esperar uns dois dias “a ver em que param as modas”.
E assim Machado foi mostrando os conflitos psicológicos provocados pelo novo regime.
Pedro e Paulo tornaram-se deputados, apaixonaram-se pela mesma moça, Flora, que acabou morrendo. Continuaram discordando em quase tudo, porém prometeram à mãe no leito de morte que ficariam amigos. Cumpriram a promessa por apenas um ano e voltaram a ser inimigos.
O autor joga com a ambiguidade, os gêmeos são opostos e idênticos, como a monarquia e república, quando alguns grupos políticos, oportunisticamente desejam apenas o poder, não importando as diferenças e semelhanças.
A polarização de hoje tem outros nomes e símbolos. Como na tabuleta de Custódio, o uso de determinadas palavras, cores e bandeiras, para o bem ou para o mal, pode resultar em diferentes interpretações, discórdias e brigas, inclusive nas famílias, e até entre irmãos gêmeos.