25/03/2022
100 ANOS DOS TAMBÉM MODERNOS CUMUNISTAS
Se em fevereiro o Brasil viu o centenário da Semana de Arte Moderna chegar ao ápice de sua revisão, março é vez de um giro avante, revendo as tensões do inicial processo codificado como moderno em nosso país: há 100 anos chegou em forma de ordenação partidária, a ideia de esquerda política na nossa incipiente democracia. O Partido Comunista do Brasil, foi fundado em congresso nacional nos dias 25, 26 e 27 de março, em Niterói, no Rio de Janeiro, ao lado da capital federal, que vivia grandes transformações urbanísticas para as comemorações do centenário da Independência em 7 de setembro de 1922.
Fundado por trabalhadores proletários, muitos oriundos do movimento anarquista, com a participação de poucos intelectuais, destacando o jornalista Astrojildo Pereira, o PCB, sigla adotada então, já contaria em 1930 com a filiação de Patrícia Galvão, a Pagu e Oswald de Andrade. Juntos eles vão editar o Jornal “O Homem do Povo”, onde Pagu escrevia a página “A Mulher do Povo”. O casal vai escandalizar com senso anarco-comunista, a direita e o próprio partido marxista. Óbvio que não podemos esquecer a crise de 1929, que fez a elite paulista perder muito dinheiro no valor das transações com o café, e a chegada de Getúlio Vargas, em 1930, tomando o poder e colocando ponto final na política do café-com-leite (paulistas e mineiros alternando o presidente no Rio de Janeiro). Pouco tempo depois será a vez do partido comunista contar em suas fileiras com Tarsila do Amaral, o que não é pouca luz, em participação histórica.
Vargas sobe ao poder com baianos e mineiros traídos no acordo de alternância de poder. Foi decisiva para as ideias progressistas modernas, a ascensão do educador Anísio Teixeira, possuidor de um espírito aberto às questões sociais e amigo dos modernistas paulistas. E do poeta Carlos Drummond de Andrade, que vai ser chefe de gabinete do Carlos Capanema, ministro da Saúde e Educação durante quase toda a era Vargas. Drummond, também já entrosado com os modernistas, vai estabelecer pontes. Vai conviver com todas as divisões de pensamento entre esquerda e direita, já acentuada nos intelectuais na década de 1930, e intensificada na de 1940, quando Carlos Drummond vai emprestar sua diplomacia política e sua poética aos comunistas do Brasil, trabalhando com seu dirigente máximo Carlos Prestes no jornal do partido. Outro ilustre da literatura, Jorge Amado foi deputado constituinte em 1945 pelo partido comunista, responsável por um importante passo para tornar o Brasil uma país laico. E por proteger o direito legal à fé do povo das religiões afro-brasileiras.
As muitas tensões de classes interiorizadas no seio do partido proletário, contando com intelectuais e artistas, e visões diferentes a cercas das questões políticas de seus líderes ligados aos movimentos operários, rurais e de juventude, sobretudo dos estudantes, vai levar a um racha profundo em 1962, ficando um grupo com o nome em extenso: Partido comunista do Brasil e adotando a sigla PCdoB, e outro que ficou com a sigla original, PCB e tomou como nome, Partido Comunista Brasileiro, conhecido como partidão, hoje quase inexistente. De forma geral a ideia de ter partido comunista foi posta muitas vezes na clandestinidade no Brasil. Com o golpe militar de 1964, a repressão ficou bastante difícil, violenta e produziu situações bastantes doidas, com perdas em muitas famílias, de parentes comunistas que foram torturados e mortos.
Com a anistia e redemocratização do país na década de 1980, os partidos de esquerda foram legalizados, e compõem a vida política em um redesenhar, do pensamento marxista-leninista, no decorrer do século. Chega aos 100 anos agora, com reverberação que não nos deixa negar a importância de seus princípios, em defesa de condições de vida melhores, diminuindo a imensa dor social entre nós. Dor que a arte sente intensamente, a política processa, e a cultura cura.
Sandro Abade Pimentel para o IMCAV, Instituto Memória e Cidade em Construção.