05/04/2026
Lá na casa de minha mãe era assim...
Lá na casa de minha mãe era assim...
Os dias frios pareciam os melhores...
a vida caminhava devag
Os dias frios pareciam os melhores...
a vida caminhava devagar como a garoa
que insistia em ser preguiçosa...
O sol se escondia da gente
como se quisesse fingir que nem existia...
E quando era Páscoa então?
Quanto mais sombra melhor,
melhor pra gente sentir o calor
dos amigos do bairro,
das amizades distantes,
dos irmãos que chamavam pra brincar juntos,
e da menina que a gente amava escondido
por ser namoro de criança...
Certa vez me apaixonei por um segredo ...
Não sei dizer em que instante começou —
talvez quando percebi que ela permanecia
mesmo quando tudo em mim passava.
Encostava meu silêncio naquele semblante indeciso,
e ali havia uma escuta antiga,
como se o mundo respirasse devagar
dentro dela.
Tudo passou de novo, e no coração do tempo era Páscoa outra vez
— como sempre parece ser —
eu ainda não entendo,
Mas certas paixões parecem não pedir resposta,
apenas permanência.
Minha mãe está lá dentro da casa,
mexe panelas como quem reza baixinho.
Os filhos ainda somos nós,
correndo sem saber
que um dia seremos memória,
e também saudade,
Como meu pai que ali não está mais.
E ainda há um frio
que não é só do tempo,
mas de um espaço dentro do peito
onde as coisas vão icando
para sempre.
Amar acho que é isso:
guardar sem dizer.
Esperar sem saber o quê.
A árvore nunca me respondeu,
mas a cada folha que cai
eu sinto um tipo de promessa —
um renascimento silencioso,
como se a vida dissesse:
“volto já”.
E a Páscoa no fundo é isso,
esse instante em que algo morre
sem fazer barulho
e renasce sem pedir licença.
Ainda caminho devagar,
como a garoa de antes.
E, às vezes, quando o sol se esconde,
eu entendo:
há uma esperança que prefere o frio,
porque é nele
que a gente aprende
a se aquecer por dentro.
A.T. Páscoa 2026