19/05/2022
Excursão Psíquica (por Antonin Artaud)
O ponto de partida da magia reside na encantação. A palavra magia desperta confusamente, no entendimento da maioria, a idéia de práticas ocultas capazes de despertar as forças sombrias da natureza e de avassalar até os fantasmas da morte. E isto é em parte verdade.
Não é o desejo sozinho que desperta na inteligência do homem a nebulosa dos fantasmas e que lhe inspira a idéia de reencontrar, por meio do verbo, ao menos a evocação deste poder maravilhoso que pareceria reservado a alguns. Ele nos deu, em todo caso, estas jóias da literatura que são As Mil e Um Noites, os Contos de Parrault, os Contos de Hoffmann e entre outros O Vaso de Ouro, as Histórias de Poe.
Não se tratava apenas do fato de revelar as relações das coisas criadas, de lidar com o tempo e a distância, e os antagonismos dos elementos. Trata-se antes deste conjunto de práticas quase históricas, as atribuições muito precisas de tais personagens maravilhosas, esta galeria de fantasmas humanos, que se chamam mágicos, feiticeiros, dervixes, faquires, este vestuário heteróclito, esta flora misteriosa, e para começo de tudo isso: o Sabá.
Ora, se a grande maioria dos homens gostaria de se dar o trabalho de fazer descontos em seus comentários a este respeito, quanto outros haveria que chegariam a desembaraçar sua idéia verdadeiramente geral, verdadeiramente humana de toda esta mixórdia, ou a formular claramente a idéia que fazem desta fantasmagoria. Para a maioria, todo herói mágico da humanidade está contido em Os Segredos do Grande Alberto, este festim das cozinheiras histéricas, e os outros, que se dão ao trabalho de refletir e que dizem a si mesmos que: se houvesse mágicos, o que é que poderia eles realmente fabricar? Chegam a confundi-los com honestos químicos, até mesmo vulgares prestidigitadores. Nós não sabemos se algum dia existiram na sucessão dos dias mágicos tais como brotam a cada passo na terra bendita das Mil e Uma Noites.
Hoje em dia, com exceção de algumas crianças, ninguém mais crê nos mágicos. Uma coisa, todavia, é notável: é que todos esses contos maravilhosos tratam apenas raramente dos fantasmas dos mortos e de uma maneira tão fraca que ela não nos pode ser de nenhuma utilidade.
É, no entanto, na investigação da morte que reencontraríamos o segredo da ação divina e da sua configuração espiritual do mundo, pense o que pensar disso Marterlinck em seu triste e cruel Grande Segredo. É pouco provável que inteligências depuradas pelo grande despojamento de suas cascas corporais, reencontrando no grande todo espiritual, voltando a este grande todo original e mais sutil, não sejam capazes de penetrar o arcano da origem das coisas e de seus destinos.
Ora, este meio de nos levar a passear pela morte nós o possuímos desde já, devido à hipnose que liberta em nós o subconsciente de rosto de vidro e o manda divertir-se em liberdade sobre as orlas do outro mundo. Não é certo que a morte, tornando nossa alma mais sensível à percepções espirituais do além, comece por uma sinistra momice do sono, e que, por uma série de entorpecimentos sucessivos, a destaque do corpo. E eu imagino que deve haver na morte esta inquietação do homem que dorme e se pergunta com angústia se é verdadeiramente um sonho. Enlouquecedora questão!
É bastante evidente que importaria muito pouco ao homem poder derrubar a ordem dos elementos se ele não tivesse influência sobre o vertiginoso desencadeamento dos fantasmas na morte. Os egípcios conheciam as palavras e a forças que retinham a alma a margem da Vida. A incrível fascinação da magia sobre o homem lhe vem deste maravilhoso poder. A encantação pôde servir, por conseqüência, para captar as forças brutas da natureza, mas a grande virtude da Magia reside na subjugação da Morte.